Ao falar da atuação política das mulheres negras, pode-se tomar de metáfora e construção imagética uma fotografia ancestral, composta ao longo do tempo e nela observa-se avós, mães e filhas. Ao que parece, na encruzilhada dessa jornada do antes, agora e do depois, tecem-se ligações e pelo tempo são impregnadas. Ao elaborar sobre esse processo, observa-se como o tempo-passado incide neste tempo-presente e, quiçá, possui potencialidade de contribuir com o tempo-futuro.
A formação social, econômica, política e cultural brasileira perpassa pelas dores das mulheres negras e indígenas. O desenvolvimento das forças produtivas no contexto da colonização das Américas foi feito em detrimento do sofrimento desses corpos. Não tendo precedentes para o tamanho da reparação histórica que essa sociedade capitalista deve às gerações de povos indígenas e a negritude.
Ao pensar nas mulheres negras como força motriz desta reparação é necessário ter o seguinte ponto de partida: a sociedade colonial brasileira tem dois traços fundantes e organizativos, que são o racismo estrutural e o patriarcado. Ao passo que a sociedade brasileira, oriunda de um estupro colonial de mulheres negras e indígenas, convive com um passado-presente que determina a produção e reprodução das relações sociais profundamente racializadas.
121 pessoas negras mortas
No contexto atual, a sociedade brasileira assistiu e consentiu, o Estado matar 121 pessoas na sua maioria negras, em territórios periféricos e favelados sob pretexto de combate ao narcotráfico. Esse narcotráfico que atua nesses territórios na ineficiência do Estado.
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro do Partido Liberal (PL) exaltou o sucesso dessa operação policial tripudiando sob o sofrimento das mulheres que choram e lamentam a morte precoce dos seus entes queridos, ao meu ver, demonstra, o quanto esse Estado, segue reafirmando e atualizando o pacto colonial, ou seja, não existe humanidade para pobre, preto e favelado. E isso só estiga o nosso ódio de classe.
Essa semana no Congresso Nacional Brasileiro, 317 deputados reforçaram institucionalmente a cultura do estupro, mecanismo arcaico de desumanização e dominação das mulheres, através do projeto de Decreto Legislativo (PDL) 03, que dificulta a realização de abortos em crianças e adolescentes vítimas de violência sexual.
Essa marca escravagista do estupro como método de força, terror e poder é vivo e está impregnado nos corpos das mulheres negras, inclusive na construção subjetiva de nossa identidade. Afinal, desde a infância, as mulheres vivem sendo aterrorizadas pela possibilidade de ter seus corpos violados pela cultura do estupro.
Exemplifiquei acima, duas situações recentes em que o pacto colonial segue sendo institucionalizado pelo Estado e pelos seus interesses de classe. A concentração de poder político e financeiro nas mãos de uma elite arcaica e branca perpetua a baixa representação das mulheres, pessoas negras, lgbts e indígenas nos espaços de decisão.
Veja, quanta dificuldade de uma mulher negra, ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF). O pacto colonial molda as relações brasileiras. Necessitamos criar condições de romper com essa lógica.
Marcha das mulheres negras
Em 25 de novembro milhares de mulheres negras irão marchar pela segunda vez, pelas ruas de Brasília, por “Reparação, Bem Viver e o Fim do Racismo”. São 10 anos que separa a primeira marcha desta.
Em 2015, a conjuntura era hostil para as mulheres e este cenário evoluiu para um golpe parlamentar-midiático-jurídico contra a ex-Presidenta Dilma Rousseff, sequencialmente o desmantelamento de várias politicas sociais e retiradas de direitos conquistados pelas trabalhadoras e trabalhadores.
Essa marcha de 2025 cumpre um papel estratégico e relevante no cenário politico brasileiro já que, antecede o ano eleitoral de 2026, em que temos a importante tarefa de mudar esse Congresso Nacional conservador, sexista e teocrático a fim de que se avance com pautas antirracistas, feministas e populares.
A nós não interessa mais espaços políticos folclorizados. A Marcha Nacional das Mulheres Negras de 2025 se apresenta como importante instrumento de mobilização e disputa de narrativas em que as Vidas Negras estejam na centralidade do Poder. Evidentemente que esse poder faz sentido, se for a partir das nossas Cosmogonias, como diz a canção do Ilê Aiyê “Se o poder é muito bom, eu quero poder também”!
Makota Kinanjenu (Andréia Roseno) integra a Articulação de Mulheres Negras de Minas Gerais (Nzo Jindanji Kuna Nkos’i).
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Este é um artigo de opinião, a visão da autora não necessariamente corresponde a linha editorial do Brasil de Fato.
