O condado de Rongjiang, na província chinesa de Guizhou, inaugurou essa semana o Centro de Estudos do Sul Global, uma plataforma de pesquisa dedicada ao intercâmbio de experiências sobre combate à pobreza e revitalização rural entre países em desenvolvimento. A cerimônia, realizada na vila (ou povoado) de Toutang, contou com a participação de acadêmicos e pesquisadores do Brasil, Índia, Tailândia, entre outros.
O centro foi estabelecido em parceria entre o Instituto de Comunicação Internacional da Universidade Normal do Leste da China, o Fórum Acadêmico do Sul Global e o governo do condado de Rongjiang. “Ao estabelecermos uma base de pesquisa e estudos sobre o Sul Global em Rongjiang, o berço do Cun Chao [a Superliga das Vilas], queremos demonstrar que compartilhamos com o Sul Global um problema de desenvolvimento comum: o desenvolvimento rural e a modernização da agricultura”, disse ao Brasil de Fato, Lu Xinyu, decana do Instituto de Comunicação Internacional da Universidade Normal do Leste da China.
Segundo Lu, a questão da modernização agrícola está diretamente ligada à modernização do país como um todo. “A revitalização rural é crucial para a modernização à chinesa, e a prosperidade comum é essencial para a modernização à chinesa”, afirmou a pesquisadora.
A iniciativa busca conectar as experiências chinesas de alívio da pobreza e revitalização rural com os desafios enfrentados por outros países do Sul Global. “Esperamos que nossa base de pesquisa e estudos possa fornecer respostas para essa questão. Também esperamos usar o Cun Chao como um método para responder a essa pergunta”, disse Lu Xinyu.
Participação comunitária e autonomia local
Ao Brasil de Fato, Chen Kaihua, secretária do Partido da vila de Toutang, destacou o protagonismo da comunidade local no projeto. A equipe cultural da aldeia, que também atua como torcida da Superliga das Vilas, foi responsável pela recepção dos convidados internacionais. “Para esta recepção, a equipe começou os ensaios com dedicação há meio mês”, relatou Chen.
A recepção incluiu apresentações de tambores, canções de boas-vindas, melodias tradicionais Dong e o ritual de bebida na entrada da aldeia. “Todos se comunicaram com os convidados através das canções Dong, dançaram a dança circular Dong ‘Duoye’, criando uma atmosfera harmoniosa”, descreveu a secretária.
O Centro de Estudos do Sul Global funciona como um ativo coletivo da aldeia, operado de forma autônoma pelos moradores, com distribuição anual de dividendos. “Planejamos realizar atividades de estudo e pesquisa”, afirmou Chen Kaihua sobre os planos futuros da iniciativa.
Visitas de campo
Simultaneamente à inauguração do centro, foi lançado o “Oficina de Campo da China”, um projeto de pesquisa e prática em comunicação internacional desenvolvido em conjunto pelo Centro de Comunicação Internacional do Grupo de Mídia de Xangai, o Fórum Acadêmico do Sul Global e o condado de Rongjiang.
Durante o evento, foi exibido o documentário “TOP Destination: China! – A Super Liga da China”, produzido pelo Centro Internacional de Comunicação do Grupo de Mídia de Xangai. O filme documenta o processo de recuperação de Rongjiang após enchentes consideradas as maiores em um século, mostrando a capacidade organizativa das comunidades rurais chinesas junto ao Partido Comunista da China e os governos locais e central.
Os participantes da oficina realizaram pesquisas de campo em diversas aldeias de Rongjiang entre os dias 9 e 11 de novembro. As visitas incluíram as aldeias Dong de Dali e Wugong, onde os pesquisadores observaram como as comunidades aproveitaram a Superliga das Aldeias para promover integração entre cultura e turismo.
Na vila de Yuezhai, os visitantes conheceram o trabalho das “Tias”, grupo de mulheres agricultoras que se tornaram “influencers” nas redes sociais chinesas, ilustrando a transformação digital nas áreas rurais. Na vila de Lecun, a equipe ouviu sobre os usos de inteligência artificial na promoção da produção local e na governança comunitária.
Perspectivas internacionais sobre modelo chinês
Vijay Prashad, diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, destacou que a China e Kerala, na Índia, são as únicas regiões do mundo que eliminaram completamente a pobreza absoluta. “Assim como a China, Kerala também é governada por um partido marxista; o modelo ‘do campo à metrópole’ é um exemplo vívido de socialismo, onde as pessoas criam ativamente a felicidade”, afirmou.
Neuri Rossetto, dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), classificou a experiência de Rongjiang como “uma forma importante de gerar riqueza social comum para as massas” e manifestou interesse em aprofundar intercâmbios e cooperação.
