O tornado que arrasou a cidade de Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, é mais um alerta concreto do colapso climático em curso no nosso planeta, somando-se a episódios como a enchente devastadora que atingiu o Rio Grande do Sul em 2024. Esses eventos não são acidentes isolados, mas sinais de uma nova era em que o desequilíbrio ambiental se manifesta com intensidade crescente. A COP30, que acontece em Belém do Pará, no coração da Amazônia, precisa reconhecer que a natureza já não espera.
O sentido histórico da COP30
A escolha de Belém para sediar uma das negociações climáticas mais importantes das últimas décadas é simbólica e estratégica. Representa o reencontro entre humanidade e floresta, e reafirma a necessidade de fortalecer o multilateralismo em tempos de retrocessos e negacionismos. Durante a 80ª Assembleia Geral da ONU, ficou evidente que nenhum país enfrentará sozinho secas, enchentes ou desastres naturais. A COP30 deve ser, portanto, a conferência da implementação, mais do que a COP da verdade, para que as promessas diplomáticas finalmente se transformem em ação.
Desde a COP3 de Kyoto, passando pela COP21 de Paris e pela COP28 em Dubai, o mundo acumula metas ambiciosas e resultados tímidos. Em 2015, o Acordo de Paris nos deu uma meta clara: limitar o aquecimento global a 1,5°C. Mesmo assim, não apresentou o método para garantir que esse objetivo fosse cumprido. De lá para cá, o que se viu foi o abismo entre a retórica das cúpulas e a urgência dos fatos: a cada ano, mais florestas ardem, mais rios secam, e mais pessoas perdem suas casas e meios de vida.
O problema das metas distantes
A governança climática global padece de um mal crônico: a procrastinação. Metas para 2030 ou 2035, sem avaliações intermediárias, se tornam licenças para adiar decisões difíceis ou “inconvenientes”. O tempo, contudo, tornou-se o bem mais escasso. A natureza se regenera, mas não na velocidade da degradação humana. E por isso reage. Diante disso, precisamos de métricas anuais de acompanhamento, transparentes e auditáveis, para que governos e empresas prestem contas do que realmente fazem e não do que prometem fazer.
A IA como problema ou solução
A inteligência artificial ocupa posição paradoxal nesse cenário. De um lado, pode ser uma poderosa aliada para monitorar desmatamentos, prever desastres e otimizar o uso de recursos naturais. De outro, sua infraestrutura, sobretudo os data centers, consome quantidades colossais de energia e água, ampliando a pegada ambiental. A tecnologia, sozinha, não salvará o planeta; o que fará diferença é a forma como nos apropriamos de suas potencialidades.
O Brasil já oferece bons exemplos. O MapBiomas utiliza IA e sensoriamento remoto para monitorar a Amazônia em tempo quase real. Iniciativas semelhantes na Índia e na África mostram como a inovação pode servir ao clima. Mas isso exige regulação, transparência e uma ética tecnológica que coloque o meio ambiente no centro das decisões. Os sistemas de IA podem ajudar a medir, fiscalizar e acelerar o cumprimento das metas climáticas.
Povos indígenas e sustentabilidade
A conservação ambiental não é utopia e sim uma condição de sobrevivência. E os povos indígenas têm mostrado isso há séculos. Suas terras estão entre as mais bem preservadas do planeta, segundo a FAO e o IPBES, justamente por aliarem cultura, espiritualidade e manejo sustentável. Proteger esses territórios é, ao mesmo tempo, um ato de justiça e uma estratégia eficaz de combate à crise climática.
A aldeia Kakané Porã, no mesmo Estado do Paraná que foi afetado pelo tornado, as comunidades do Alto Rio Negro e do Xingu são exemplos de que conhecimento tradicional e tecnologia podem caminhar juntos. Da mesma forma, projetos como o Vida Selvagem Futura, no Rio Iguaçu, unem ciência, inovação e compromisso ambiental, usando drones e IA para mapear fauna, flora e restaurar ecossistemas. São sementes de futuro plantadas no presente.
Cidades inteligentes e o desafio urbano
Com mais da metade da população mundial vivendo em cidades, o futuro climático será decidido nelas. A urbanização acelerada pressiona os recursos naturais e multiplica emissões. Cidades inteligentes não se medem por sensores, mas pela capacidade de integrar inovação, mobilidade, saneamento e justiça social. Os encontros das C40 e das Cidades MIL demonstram que é possível crescer com sustentabilidade. A COP30 precisa transformar esses exemplos em políticas globais de financiamento e cooperação.
Porém, o impacto ambiental da infraestrutura digital motivado pela expansão de data centers, essenciais para os sistemas de IA, exige grandes volumes de energia e água. É urgente discutir seus efeitos ecológicos e a falsa equivalência entre “soberania de dados” e mera instalação física de servidores. Ter autonomia digital não significa devastar ecossistemas em nome do progresso tecnológico.
O ultimato da natureza
A COP30 representa uma oportunidade rara de redefinir a governança climática global, incorporando a tecnologia como aliada, e não como desculpa. O planeta já deu seu recado de Rio Bonito ao Rio Grande do Sul, de Belém ao Iguaçu: não há mais tempo para ter tempo. O que está em jogo não é o futuro distante, mas o presente imediato de milhões de pessoas.
Como disse Pepe Mujica na Rio+20, “o que temos que revisar é a nossa forma de viver”. Esse é o verdadeiro sentido da COP30: revisar o modo de produzir, consumir e conviver com a natureza. O desafio é político, moral e civilizatório. E começa agora; com metas mais curtas, medições mais precisas e inteligência, humana e artificial, voltada à preservação da vida.
A responsabilidade é de todos, e principalmente dos dirigentes governamentais que terão oportunidade e meios de concretizar os compromissos assumidos, e implementar novas diretrizes de sustentabilidade a curto prazo, a fim de minimizar os danos já causados ao meio ambiente e frear seu avanço.
A COP30 precisa romper o ciclo de inércia e colocar os povos indígenas no centro das decisões, não como convidados simbólicos, mas como protagonistas da formulação e implementação de políticas ambientais. Isso exige a demarcação e proteção de suas terras, o direcionamento de recursos a projetos comunitários, a criação de instrumentos jurídicos contra pressões econômicas e mecanismos de monitoramento independente.
Nesse cenário, povos indígenas, agricultores, pescadores e comunidades locais devem ocupar lugar de destaque para unir tecnologia digital e saberes tradicionais, transformando Belém no marco histórico em que o mundo decidiu que esperar já não era mais uma opção. Afinal, não há mais tempo para ter tempo.
*Atahualpa Blanchet Coelho é pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP) e do Centro de Estudos em Cidades Inteligentes da PUC-SP.
**Rafael Sanchez Loureiro é pesquisador do Observatório do Futuro do Trabalho e Mestrando em Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP.
***Este é um texto de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
