Duas semanas após a aprovação das cotas para pessoas trans e travestis na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o debate sobre a inclusão e a permanência dessa comunidade tem ganhado força dentro da instituição. A medida, aprovada no último dia 30 de outubro, reserva 2% das vagas de todos os cursos para pessoas trans e travestis, com ingresso via Sistema de Seleção Unificada (Sisu), utilizada pelos estudantes que realizaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), já a partir do próximo semestre.
O diretor de Gênero e Pertencimento da Superintendência Geral de Ações Afirmativas, Diversidade e Acessibilidade (SGAADA), Márcio Neves, explica que a proposta foi construída de forma coletiva, com participação da comunidade trans da universidade. “Toda a movimentação começou com um ato da Diretoria de Gênero e Pertencimento. A comunidade trans da UFRJ era desarticulada, então a diretoria promoveu três encontros”, relatou, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
A partir desses encontros, foi elaborada uma minuta encaminhada à Pró-Reitoria de Graduação, que implementou a política de ação afirmativa. Para Neves, a mudança vai além do ingresso. “É só o começo, foi só uma batalha que vencemos. Precisamos falar em permanência, mas a transfobia se manifesta de outras formas aqui dentro da universidade, mesmo depois que a pessoa ingressa”, afirma.
O diretor aponta que a expectativa de vida das pessoas trans no Brasil é de apenas 35 anos e que a exclusão começa cedo. “Apenas 70% da população consegue chegar à educação básica e a graduação é realmente um ambiente em que não tem muita representatividade de pessoas trans. E é isso que queremos mudar”, indica.
Entre as iniciativas já em andamento, a diretoria atua com ações de letramento LGBT+ e na elaboração de um documento institucional sobre o uso de banheiros por pessoas trans e não binárias. “A aproximação que eu tive do movimento trans nas universidades me disse que o principal instrumento para que haja a permanência de pessoas trans na universidade é nome social e banheiro”, explicou.
Neves defende que as universidades públicas “conversem sobre a diversidade da sociedade porque é preciso que a universidade represente essa sociedade.” Apesar dos avanços necessários, o diretor celebrou que a SGAADA, criada há dois anos na UFRJ, já conseguiu “passar de uma questão de invisibilidade total para poder discutir as questões da diversidade dentro do ambiente universitário.”
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