Ruayda Rabah nasceu, cresceu no Brasil e se mudou para a Cisjordânia já adulta, para cuidar das terras da família, palestina que havia se mudado para o Brasil. Ao longo deste século, ela testemunhou a situação de seu povo se agravar cada vez mais, com a ocupação israelense avançando, metro a metro, por terra palestina.
Neste ano, o terceiro do genocídio na Faixa de Gaza, a coisa piorou. Ela e muitos de seu vilarejo foram simplesmente impedidos de realizar a colheita anual das oliveiras em suas terras. Pior: viu o resultado de seu trabalho ser simplesmente roubado por invasores israelenses.
As oliveiras são o principal produto agrícola palestino, fonte de sustento direto de 100 mil pessoas e símbolo de todo o povo. São árvores centenárias, plantadas hoje para serem colhidas por gerações futuras, herança transmitida para manter a ligação com a terra.
Por serem símbolo e sustento palestino, são alvo de Israel. Neste ano, colonos judeus, com a conivência — quando não a ajuda — de soldados israelenses, realizam centenas de ataques diários à atividade, que começou oficialmente em início de outubro, mas já está comprometida. Leia abaixo a entrevista completa:
Brasil de Fato: Como foi a colheita das oliveiras deste ano?
Ruayda Rabah: Infelizmente, este ano nós fomos proibidos de chegar em determinados terrenos, expulsos. Alguns até mesmo foram presos, outros tiveram seus equipamentos apreendidos e carros quebrados. Algo que nós não imaginávamos que iria acontecer, aconteceu, nós fomos agredidos, expulsos e proibidos de fazer a colheita em terrenos que estão na área B [administradas conjuntamente pela Autoridade Palestina e Israel] e temos documentos provando isso, eles alegam que eram na área C [administradas por Israel apenas].
Quantas árvores vocês têm? A expectativa era conseguir dinheiro o bastante para o ano inteiro?
Bem, nós temos um só terreno na área C que tem 99 oliveiras. Os outros terrenos da família do meu pai estão todos em área B e deve ter aproximadamente umas 400 oliveiras. E é claro que o mês da colheita é bastante esperado por todos, porque a grande renda do povo palestino vem das oliveiras, com que se faz azeite, conservas e a semente moída, que é usada para se aquecer.
Como este ano não tivemos a possibilidade de colheita, a renda das famílias caiu em uns 80%, mesmo porque essas pessoas não tiveram condições de arar as terras, pulverizar esses olivais, fazer a poda, por falta de recursos, que geralmente vêm do azeite vendido. Muitos não tiveram azeite nem para consumo próprio, por terem sido impedidos de entrarem em seus próprios terrenos. O pior de tudo é que os colonos avançaram e colheram essas oliveiras, inclusive as da família de meu pai, elas foram colhidas por colonos.
Você nasceu no Brasil e se mudou para a Cisjordânia. Quando? Por quê?
Nasci no Brasil, no Brasil estudei, no Brasil eu me casei e depois de ter me casado é que eu me dirigi à Palestina com meu esposo. Isso foi em 1999, após o falecimento de meu pai, porque a intenção era cuidar dos olivais dele, que se tornaram abandonados. Porque o meu tio já estava muito velhinho, já não tinha mais condições de cuidar.
A intenção era de eu vir para cá, terminar os meus estudos aqui e aí então cuidar dessas terras. Foi por isso que vim. Cheguei em 1999 e estou aqui até hoje cuidando desses olivais.
Qual a frequência dos ataques de colonos e forças de segurança? Como eles acontecem? Existe alguma forma de defesa?
Os ataques têm sido agora cotidianos, após o 7 de outubro [de 2023] se tornou cotidiano e houve expansão dos assentamentos de colonos judeus ao redor da cidade. Está havendo também a construção de um novo assentamento muito próximo à área B. Tenho bem em frente à minha casa um assentamento que fica parte em área B e parte em área C, e que eles estão expandindo. E essa expansão está chegando muito próximo das nossas casas.
Isso tem feito com que os ataques de colonos sejam frequentes, em especial para as pessoas que descem para cultivar. Agora é chegada de inverno, época propícia para se plantar. Onde se planta repolho, alface, orégano, tudo aquilo que se utiliza nesse período do inverno. E estamos sendo impedidos de fazer isso. Ou seja, a economia está sendo estrangulada.
Esses colonos fazem esses ataques, inclusive dentro da minha cidade houve ataques dentro de residências. Os colonos invadem residências, espancam pessoas e sempre, claro, acompanhados do exército. São todos fortemente armados, não há como haver resistência, mesmo porque a Palestina não tem exército, a população não é armada, enquanto que quem nos ataca é um exército, junto com colonos, que agem de forma extremamente violenta, extremamente animalesca e todos fortemente armados.
Além de estarem armados, eles vêm com cães. E eles têm praticado invasões a domicílios indiscriminadamente, têm queimado carros. E a única coisa que a pessoa pode fazer é tentar fugir ilesa. Mais do que isso, não há o que se fazer, porque se você tentar reagir você é morto na hora.
Vocês têm algum apoio?
Com o auxílio de entidades, ajudamos um grupo de mulheres que plantam a conseguir sementes, sementes locais, nativas, que é algo que também Israel tem destruído. Eles tem acabado com isso, queimando-se as plantações, em especial de trigo, fumo e oliveiras nativas.
Temos trabalhado muito com essas mulheres, ido até a cidade delas, distribuindo essas sementes, ensinando como adubar, como se plantar. E outro grave problema que temos é que os assentamentos têm se aproximado muito, acabam soltando nas águas de plantio o esgoto e isso acaba com tudo que se planta e torna as terras inférteis pelo sal que existe nessas águas.
A colheita já acabou?
Infelizmente a colheita já acabou, porque as pessoas não conseguem chegar nas grandes áreas, os grandes olivais, então a colheita já foi encerrada, e mesmo porque este ano os olivais são como os cafezais, né, há anos que eles produzem muito bem e há anos que não. E este é um dos anos, e mesmo pela falta de chuva também, porque o clima tem mudado muito, e pela falta excessiva de chuvas, este ano a colheita foi bastante fraca e com o não acesso aos grandes olivais, ela se tornou mais fraca ainda.
