O lançamento do livro Vidas Curtas: A Globalização da Violência Pública, do escritor, ativista social e fundador do grupo de rap Preconceito Zero, Eduardo Tamborero, ocorreu nesta segunda-feira (10) e reuniu reflexão sobre o contexto atual da violência contra a população negra. O evento, realizado no Sindicato dos Bancários e Financiários de Novo Hamburgo e Região, contou com um debate mediado por Ísis Garcia, da Secretaria de Combate ao Racismo da Central Única dos Trabalhadores (CUT-RS), com a participação da advogada Deise Benedito, especialista em relações étnico-raciais e segurança pública, que assina o prefácio da obra. O debate foi precedido da apresentação do grupo Hip Hop Rima em Cena, com o espetáculo Travessias.
Tamborero conta que começou a escrever Vidas Curtas no auge da “normatização da violência” no Brasil, em meio ao avanço do armamentismo e ao aumento das mortes entre a juventude negra nas periferias e favelas. “Eu comecei a escrever quando a gente entra no ápice da normatização da violência no Brasil, armamentismo em alta e um índice enorme de mortalidade da juventude negra”, explicou.
A ideia da obra surgiu de sua trajetória no hip hop e do acompanhamento de dados sobre a violência desde o fim dos anos 1990. “Em 2018 eu senti a necessidade de começar a escrever por isso, por ver crescer a violência do Estado contra a população negra”, contou.
Segundo o Atlas da Violência, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2020), cerca de 57 mil jovens entre 15 e 29 anos foram vítimas de homicídios em 2018 no Brasil, sendo 75% deles negros. A maioria das mortes ocorreu em áreas periféricas das grandes cidades.
Durante o lançamento, o autor compartilhou memórias familiares ligadas à música negra e à luta antirracista. “Aprendemos a nunca baixar a cabeça diante da discriminação”, disse, lembrando o exemplo de seus pais, que participaram de iniciativas comunitárias como o coral Viva Gente e o primeiro Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na região. “Quando éramos jovens, éramos 80 na garagem da minha mãe; hoje, se tiver 10 vivos é muito”, lamentou.

O processo de criação e a escuta das mães
O autor relembrou que o grupo com o qual atua realiza oficinas em casas de passagem, presídios e unidades socioeducativas desde a antiga Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem). Em uma delas, perguntavam aos participantes: o que é mais sagrado na vida de vocês? “Quase todos diziam que era a mãe, a tia ou a avó que os criou”, contou.
A partir dessas vivências, Vidas Curtas passou a reunir entrevistas com mulheres que tiveram filhos vítimas da violência, assassinados, sobreviventes ou desaparecidos. “Muitas são mães, outras tias ou irmãs mais velhas. A gente conta a história dessas mulheres”, explicou.
Tamborero observa que as trajetórias dessas mulheres também são atravessadas por outras violências, doméstica, institucional, afetiva e social. “Parece uma sequência que passa de geração em geração. Eu chamo isso de globalização da violência pública nos corpos das pessoas negras, LGBTs, mulheres e indígenas”, refletiu.
Em muitos dos depoimentos trazidos no livro, aparece a critica sobre a atuação do Estado. “Este Estado não está nem aí para os sonhos das mães, muito menos das mães negras. Só vai mudar quando a mulher negra estiver participando do centro do poder, tomando decisões de pagar juros ou investir na educação. De decidir que a escola não pode discriminar nossos filhos por causa da cor da pela. Pelo contrário, tem que mostrar como é forte e bonita nossa história de luta pela liberdade, pela igualdade e pela dignidade”, expôs a senhora L.S.T, que criou seus filhos na periferia de Novo Hamburgo.
Para Tamborero, enfrentar essa realidade exige políticas públicas construídas a partir da escuta dessas mulheres. “Quem sempre sofre e é a última a chorar são as mães. Elas enterram seus filhos, seus sonhos, suas utopias”, afirmou.
“Quem tiver acesso ao livro vai ver que essas mulheres trazem muitas soluções para a violência estampada em nosso país. Precisamos transformar essas vivências em política pública para que nossos filhos e filhas não sejam apenas fotos nas paredes das casas”, concluiu.
“Vidas não podem ser curtas”: racismo, memória e política pública
Ao prefaciar o livro, a advogada Deise Benedito afirmou, emocionada: “As vidas não podem ser curtas”. Ela traçou um histórico da violência contra jovens negros e indígenas, lembrando o impacto do massacre do Carandiru e defendendo educação, políticas públicas e cultura como caminhos para preservar vidas.
“Pensei: o que falar sobre vidas curtas? O que falar das dores das mães?”, relatou ela. Benedito conectou episódios históricos, da colonização ao tráfico de africanos e aos massacres contemporâneos , à atual política criminal e ao racismo estrutural que vitima jovens negros e periféricos.
Criada em um bairro operário de São Paulo durante a ditadura, ela lembrou de corpos que apareciam na chamada “Mata do Governo” e do início de sua militância no movimento negro. No Tribunal de Justiça, passou a investigar “processos de exceção criminal” e a acompanhar distritos policiais.
O Carandiru e o batismo de sangue
Benedito destacou sua atuação na Subcomissão de Política Criminal e Penitenciária da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP) e o impacto do massacre do Carandiru. “No dia seguinte foi o meu batismo de sangue na política criminal”, disse, ao recordar as filas de familiares em busca de notícias e as tentativas de barrar a entrada de observadores da Comissão de Direitos Humanos. Ela era a única mulher negra na equipe.
A advogada relacionou o fortalecimento das facções e o sistema prisional aos interesses políticos e econômicos. “As prisões são o pior lugar que existe, onde você é desumanizado. O crime se organiza lá dentro, e quem lucra com isso são os que precisam da miséria e da ignorância para manter as desigualdades.”
“Quando morre um jovem negro, você está matando um médico, um advogado, um professor, está matando o futuro”, resumiu.
Moradia, educação e cultura como caminhos
Ao falar sobre políticas públicas, Benedito apontou prioridades como moradia digna, saúde, educação com valorização dos professores e estrutura para o judiciário e a defensoria atenderem os mais pobres. “Quando a gente fala de orçamento público, qual é o déficit de moradia? Quantas pessoas estão na rua?”, questionou.
Ela também destacou a cultura como instrumento de prevenção e resistência: “A cultura salva. O hip hop salvou o Tamborero, salvou meu sobrinho, salvou vários”, afirmou, ressaltando a importância da formação política e do acesso a oportunidades para reduzir a adesão de jovens ao crime.
Encerrando sua fala, Benedito criticou discursos moralistas e leis que violam direitos, defendeu a organização política de base e alertou para as perseguições a ativistas e parlamentares progressistas. “Vai sair candidato a vereador? Então qual é o seu compromisso?”, provocou. “As vidas têm que ser curtidas, não curtas, vividas com dignidade, acesso à saúde, à educação e ao trabalho”, concluiu.
