Quando a professora Raiane Ferreira, da Escola José Nunes Leitão, localizada no Assentamento Paulo Freire, em Monsenhor Tabosa (CE), subiu ao palco do Festival LED – Luz na Educação, em Belo Horizonte (MG), para receber o prêmio com o projeto Filtração Ecológica com Casca de Juazeiro, algo maior do que um troféu estava sendo reconhecido. Diante de uma plateia nacional, ganhava visibilidade um modelo de fazer educação que nasce do território, dialoga com a ancestralidade e se orienta pelas necessidades concretas do povo do campo.
A premiação se tornou um marco não apenas para a professora e seus estudantes, mas para toda a comunidade e, simbolicamente, para milhares de escolas do campo brasileiras que seguem resistindo às desigualdades estruturais. Para o deputado estadual Missias do MST (PT), o resultado evidencia um ponto decisivo. “É a prova viva de que o campo faz ciência e pesquisa mesmo sem as condições ideais. É a demonstração de que a educação do campo não é uma educação menor, mas uma educação necessária, estratégica e profundamente transformadora”, afirma.
Durante a cerimônia para recebimento da premiação, Ferreira destacou a honra em receber o prêmio em nome da escola, e principalmente, em decorrência de um projeto desenvolvido em um contexto de assentamento, localizado no interior do estado, com famílias de baixa renda. “Para nós, que somos uma escola sem recursos, sem laboratório, sem um espaço adequado para estudar, isso é uma vitória enorme. Para mim, só de estar aqui hoje já é uma grande conquista, representando a minha escola. É para vocês, meninos. Isso aqui é de vocês”, comemorou a educadora.

O projeto premiado nasceu da observação cotidiana dos estudantes sobre a água utilizada nas rotinas da escola e das famílias do assentamento. Em Monsenhor Tabosa (CE), como em tantas regiões do semiárido, a água disponível vem, majoritariamente, de açudes, fontes de água que acumulam impurezas trazidas pela chuva, e que inviabilizam o consumo humano. Nesse sentido, atentos às reclamações, os estudantes começaram a investigar alternativas viáveis para melhorar a qualidade da água e possibilitar um consumo com qualidade. E foi com base em pesquisas em literatura científica e no saber popular, que os estudantes juntamente com a professora, descobriram propriedades fundamentais do juazeiro – árvore símbolo do sertão, presente em abundância no território e reconhecida por propriedades medicinais –, similares às utilizadas em filtros naturais com moringa.
Realizada uma rodada de testes do filtro construído pelos estudantes sob orientação de Ferreira, o resultado surpreendeu, e a água antes turva, tornou-se quase cristalina, com redução significativa do odor e de impurezas visíveis. Todo o processo, acompanhado pelo núcleo gestor da escola e também pelas famílias, chamou a atenção de pesquisadores e levou a escola a estabelecer parcerias com institutos e universidades e, mais recentemente, com a Fiocruz, para avaliar o nível de potabilidade alcançado e o potencial de ampliação do método.
Além da participação dos estudantes, Ferreira revela que a participação da comunidade Potiguara também foi fundamental para o desenvolvimento e sucesso do projeto escolar. “Seus saberes sobre plantas nativas, ciclos da terra e usos tradicionais do juazeiro fortaleceram a base teórica que sustenta o filtro ecológico”, disse. Ao analisar o projeto, o deputado Missias resume a força simbólica que ele carrega, e destaca que apesar de ser uma solução simples, é genial, “porque nasce exatamente da realidade do povo, saiu do chão da comunidade, do diálogo entre ancestralidade e ciência”, explicou.
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Educação do campo como projeto emancipatório
A repercussão do projeto na vida dos estudantes e suas famílias foi imediata. Em uma comunidade composta majoritariamente por famílias de baixa renda, onde oportunidades acadêmicas e profissionais costumam parecer distantes, o reconhecimento nacional abriu brechas para novas possibilidades de futuro. A partir das vitórias no Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (Spaece), no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), na Liga Jovem e no Ceará Científico, a escola estruturou uma cultura pedagógica baseada em projetos, metodologias ativas e protagonismo juvenil, onde os alunos passaram a se enxergar como sujeitos capazes de interferir na própria realidade.
A escola municipal de Monsenhor Tabosa vem se destacando nos últimos anos como uma das instituições mais premiadas e inovadoras do Ceará, reunindo resultados expressivos em avaliações externas, projetos científicos e iniciativas de impacto social. Em 2021, a escola alcançou Ideb 8,7, posicionando-se entre as cem melhores do país. No ano seguinte, avançou ainda mais, atingindo a média 9,1, desempenho que reforça a qualidade do ensino e o trabalho desenvolvido pela equipe pedagógica e pelos estudantes.
Além disso, a Escola José Nunes Leitão é a primeira escola do município a conquistar, por três anos consecutivos, os melhores resultados do SPAECE nos níveis 2º, 5º e 9º ano. O reconhecimento, no entanto, não para por aí, e a escola já acumula ainda o título de ser a única no Ceará a desenvolver um projeto de Estação Atmosférica, iniciativa que une ciência, tecnologia e participação estudantil. O protagonismo também se estende às feiras científicas, quando se tornou a primeira instituição do município a levar projetos consecutivos ao Ceará Científico, sendo bicampeã na etapa regional de Crateús e classificando trabalhos para a disputa em Fortaleza. O avanço nas pesquisas rendeu ainda uma conquista inédita de chegar à final do Ceará Faz Ciência, onde representa oficialmente o município.

As iniciativas desenvolvidas pela instituição também ganharam visibilidade fora do estado, com a premiação recente no Prêmio LED – Luz na Educação, que conquistou o segundo lugar entre mais de 800 projetos. Outra vitória importante foi o primeiro lugar no Ceará na Liga Jovem, competição que estimula o empreendedorismo e a inovação entre estudantes. A premiação levará a equipe a disputar a etapa nacional em Belém (PA), no dia 29 de novembro. Se vencerem, os alunos seguem para uma imersão de dez dias no México.
O compromisso com a inclusão e o respeito às diversidades também foi reconhecido, e a escola recebeu o primeiro lugar na categoria Educador Transformador no Prêmio Sabidos, do Diário do Nordeste, por ações voltadas ao fortalecimento da diversidade dentro do ambiente escolar. Com resultados acadêmicos expressivos e projetos que impactam diretamente a comunidade, a Escola José Nunes Leitão reafirma seu papel como um dos principais exemplos de educação pública transformadora no Ceará.
O deputado Missias identifica nesse processo uma dimensão política central, e assegura que a experiência da escola expressa o verdadeiro sentido da educação do campo. “Ela materializa o que Paulo Freire ensinou, que educar é libertar. Quando o estudante analisa o território, cria uma solução e melhora a vida da própria comunidade, ele está exercendo cidadania na sua forma mais bonita”, relata.
Ferreira reforça essa perspectiva ao destacar que muitos estudantes, antes indiferentes aos estudos, passaram a sonhar com profissões diversas, de advogados a médicos, e a perceber na educação a principal ferramenta para transformar suas trajetórias. “É comum que alunos da escola tenham sua primeira ida à capital apenas em competições ou eventos acadêmicos. Há estudantes que nunca haviam visto o mar, entrado em um shopping ou viajado de avião até participarem das feiras científicas. São experiências que ampliam imaginários e consolidam convicções de pertencimento e capacidade”, relatou a educadora.
Desafios, urgências e o futuro da ciência que nasce no semiárido
A força do projeto e da escola evidencia, ao mesmo tempo, o tamanho das desigualdades enfrentadas pelas instituições do campo, seja no Ceará ou em todo país. Segundo a professora, apesar da escola funcionar em estrutura padrão MEC, ainda há carências que dificultam o desenvolvimento de iniciativas mais complexas, que poderiam ser solucionadas com investimento em laboratórios, bibliotecas completas e equipamentos tecnológicos. “Imagine o que eles já fazem hoje, com tão pouco, os projetos, as investigações, o olhar atento para os problemas da comunidade. Agora imagine o que fariam se tivessem mais recursos. Então, essa premiação abriu um leque de oportunidades. Mostrou ao Brasil que a educação do campo é uma educação de qualidade, mesmo com desafios”, afirmou Ferreira.
O deputado Missias também alertou a ausência de estrutura e investimento nas escolas do campo, e destacou que as dificuldades não devem ser encaradas cde forma romântica. “A escola do campo precisa ser tratada com respeito e com os recursos necessários. E esta conquista mostra justamente isso, que apesar dos obstáculos, o campo produz ciência, tecnologia e inovação”, concluiu. A realidade confirma a fala do parlamentar. Atualmente, o filtro ecológico segue em aprimoramento e será apresentado no Desafio Liga Jovem, em Belém (PA), organizado pelo Sebrae. A expectativa da escola é conquistar apoiadores que viabilizem a produção de filtros em larga escala, atendendo a comunidades rurais no Ceará e em outros estados com problemas graves de acesso à água.

As análises em andamento investigam não apenas a redução de impurezas, mas também o potencial de dessalinização, já testado pelos alunos em água de poços profundos, e a segurança para consumo humano. A Fiocruz, ao receber amostras do material, estuda a composição da planta e suas possíveis aplicações em tecnologias sociais. Essa mobilização científica demonstra o alcance da iniciativa e reafirma a importância de políticas públicas estruturantes. Municípios que historicamente enfrentam invisibilidade, como Monsenhor Tabosa, começam agora a registrar indicadores educacionais sólidos, resultado de um trabalho conjunto entre gestão, professores, estudantes e comunidade.
De acordo com a professora, após a premiação, muitas pessoas ofereceram ajuda e apoio em pesquisas, e indicaram ainda novos projetos para que a escola possa se inscrever. “Por tudo isso, esse prêmio se tornou um marco na história da Escola José Nunes Leitão. Ele nos mostrou e mostrou ao país, que somos capazes, que temos excelentes alunos, que só precisam de oportunidades para crescer”, enfatizou. Por fim, a educadora ressalta ainda que a educação em Monsenhor Tabosa atingiu hoje um outro patamar, e que quando experiências como da Escola José Nunes Leitão ganham visibilidade, é possível enxergar que ainda há esperança nas pessoas, mas sobretudo, nos jovens.
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