ANÁLISE

Tarifaço deve ser despolitizado, mas EUA podem exigir concessões como as feitas pela Argentina

Acordo provisório pode sair ainda em novembro, para destravar comércio entre os dois países, mas a que custo?

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Vieira e Rubio elogiaram os diálogos que tiveram nesta semana | Crédito: ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP

Poucos detalhes emergiram dos encontros dessa semana entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, para suavizar as relações comerciais entre os dois países, afetadas por tarifas de 50% impostas pelo presidente Donald Trump, em agosto deste ano. Mas analistas ouvidos pelo Brasil de Fato acreditam que um acordo deve sair para despolitizar o comércio entre os dois países, ao mesmo tempo em que paira a desconfiança de que os EUA pressionarão por um trato semelhante ao anunciado com a Argentina.

Na quinta-feira (13) foi anunciado que Washington alcançou acordos com Argentina, Guatemala, Equador e El Salvador para reduzir as tarifas sobre as exportações desses países, o que permitirá reduzir o custo de produtos como banana e café para os consumidores estadunidenses. Em contrapartida, os países latino-americanos vão reduzir barreiras para a entrada de produtos dos EUA, facilitar acesso a minerais críticos e não tarifar serviços digitais de empresas do país.

A economista Lia Valls, do Departamento de Análise Econômica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) ressalta o tom amistoso com que as negociações vêm ocorrendo, mas aponta que “todo acordo que os Estados Unidos fecham agora, de não poder taxar comércio digital, a questão das plataformas digitais, há uma parte que fala sobre minerais críticos”.

“Também constrange um pouco, porque o tipo de concessões que a Argentina faz, naturalmente os americanos vão colocar na mesa também para o Brasil. Então, é esperar para ver”, diz ela.

Valls destaca que, por enquanto, não há detalhes das negociações. “Estavam falando de esperar daqui a 90 dias, ou esperar fazer um mapa mais detalhado da negociação, talvez agora as coisas se apressem um pouco mais.”

Por outro lado, parece cada vez mais que os motivos alegados por Trump para decretar as tarifas de 50% em 9 de julho sobre as exportações brasileiros — uma suposta perseguição ao ex-presidente Bolsonaro — não vão ser ressuscitados.

“A orientação que Trump deu a Rubio, mesmo que seja contra a vontade do secretário, foi normalizar a relação com o Brasil, despolitizar”, aponta Giorgio Schutte, coordenador do Observatório de Política Externa da Universidade Federal do ABC (UFABC).

“A coisa está caminhando para isso e Trump precisa de algo para cantar vitória no X.”

Afagos

Na quinta-feira, Rubio disse que Brasil e Estados Unidos estão avançando em um acordo provisório para desbloquear as relações bilaterais, que pode ser alcançado ainda este mês. O encontro em Washington foi a segunda reunião em pouco mais de 24 horas entre ambos os chanceleres, após encontro no Canadá, às margens de uma reunião do G7, no âmbito das negociações sobre as tarifas que Washington impôs a Brasília.

Rubio “reafirmou o que tinha sido proposto já nas reuniões técnicas, que é a de se chegar a um acordo provisório até o final desse mês ou princípio do mês que vem, que estabelecesse um mapa do caminho para uma negociação que poderia durar dois meses ou três meses, para então se concluir definitivamente todas as questões entre os dois países”, explicou o chefe do Itamaraty aos jornalistas.

O tarifaço de 50% atingiu produtos como o café, cujo preço aumentou 21% em 12 meses nos Estados Unidos. O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou nesta quarta-feira (12) que haverá  “em breve” um anúncio “substancial” sobre o preço do café e das bananas.

Os dois países trocaram propostas comerciais e, agora, os Estados Unidos devem responder à última proposição brasileira, explicou Mauro Vieira.

Acesso estadunidense

Argentina, Equador, El Salvador e Guatemala concordaram em abrir seus mercados a produtos estadunidenses em troca de uma redução das tarifas sobre suas exportações, principalmente as agrícolas, informou a Casa Branca. Os quatro países latino-americanos também se comprometeram a não taxar serviços digitais estadunidenses

Embora as tarifas gerais permaneçam, haverá reduções em certas mercadorias. O objetivo dos EUA é fortalecer sua posição econômica e reduzir o déficit comercial. O acordo foi celebrado pelo presidente argentino, Javier Milei, país que vai abrir seu mercado interno para produtos estadunidenses, como a carne bovina, por exemplo.

“É claro que o Brasil deve usar a via diplomática para sair do tarifaço. Mas como líder da América do Sul, o governo brasileiro precisa responder a outras questões, o tabuleiro da geopolítica. O país não pode ficar em silêncio”, diz Schutte, se referindo à ameaça de conflito no continente, com o envio de milhares de soldados estadunidenses à região e ataques a embarcações no Caribe.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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