Saúde e clima

Avanço da dengue pede adaptação do sistema de saúde às mudanças climáticas, aponta especialista

Arboviroses têm expandido para regiões antes pouco afetadas; 1.900 municípios estão em risco alto ou muito alto até 2030

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“Brasil teve pior epidemia de arboviroses da história”, diz pesquisadora sobre efeitos da crise climática
“Brasil teve pior epidemia de arboviroses da história”, diz pesquisadora sobre efeitos da crise climática

As mudanças climáticas têm impactado cada vez mais a saúde da população brasileira. É o que explica Tatiana Moraes, professora do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e colaboradora do setor de saúde do AdaptaBrasil, sistema do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ela diz que o avanço das arboviroses – como dengue, chikungunya e oropouche – e o aumento de eventos extremos, como secas e enchentes, estão pressionando o sistema de saúde no Brasil.

“Nos últimos dois anos, qualquer brasileiro viu a diferença do que as mudanças climáticas podem causar na saúde. Tivemos a pior epidemia de arboviroses da história. De dengue, vimos os maiores números em lugares que não esperávamos ver”, afirma. “Tivemos o desastre no Rio Grande do Sul, a pior seca da história… Então o que vemos é o aumento da frequência de alguns eventos e da intensidade: mais casos, mais internações, mais pessoas hospitalizadas associadas às mudanças do clima”, cita.

O relatório Política Climática por Inteiro 2024, divulgado em meio à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), aponta que o Brasil avançou em estratégias de adaptação climática, mas que os impactos sobre a saúde ainda exigem políticas mais integradas e investimentos contínuos. O documento calcula “que eventos associados à mudança do clima tenham causado no Brasil danos materiais de mais de R$ 421 bilhões entre 2014 e 2023, com quase 5 milhões de pessoas atingidas diretamente”, considerando entre os impactos “perdas de vidas” e “danos à saúde”.

“O que estamos vendo é que ele [Aedes aegypti, o mosquito da dengue] está se adaptando a regiões que há seis, sete anos atrás ele não estava. Hoje, vemos um deslocamento dos casos e dos óbitos para a região Sudeste e Sul. Esse centro-sul do país tem batido recordes de casos, internações e óbitos”, indica Moraes.

Ao mesmo tempo, ela garante que o sistema de saúde brasileiro tem tentado se adaptar. “Estamos melhorando como diagnosticamos e cruzamos os dados [de saúde] com dados climáticos e ambientais, e como preparamos o sistema de saúde para lidar com essas emergências. Isso envolve também a formação de profissionais e a preparação dos sistemas para responder às ondas de calor e aos períodos de chuva, que são ideais para o mosquito”, aponta.

De acordo com o AdaptaBrasil, existem 1.900 municípios com risco alto ou muito alto para o desenvolvimento de arboviroses até 2030. “Olhamos o que já teve de casos e analisamos de acordo com os cenários futuros do clima. Com o aumento da temperatura e da umidade, regiões como o Sul e áreas serranas de São Paulo e Rio de Janeiro passam a ser mais propícias para o mosquito”, informa a professora.

O eixo saúde do novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê R$ 17,1 bilhões em investimentos, parte deles voltados à vigilância e à resposta a surtos de arboviroses. Moraes avalia que o Brasil tem sido pioneiro nesse campo, mas que o desafio é manter o ritmo de adaptação. “No ano passado, mais de 60% dos casos de dengue no mundo foram nossos. É uma prioridade do sistema de saúde fazer essa vigilância”, afirma.

“O investimento precisa ser muito mais na identificação, nos modelos matemáticos, em plataformas de dados e no diagnóstico porque também temos o risco de doenças que antes estavam restritas à Amazônia surgirem em outras regiões”, acrescenta.

Nesta quinta-feira(13), o governo brasileiro lançou o Plano de Ação de Belém para Adaptação do Setor de Saúde às Mudanças Climáticas. A proposta foi anunciada na COP30 pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que destacou o objetivo de reforçar a resiliência e a adaptação do setor de saúde às mudanças climáticas.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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