O 2º Encontro Estadual e a 1ª Feira de Agricultoras Familiares da Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS) reuniram mulheres do campo de todas as regiões do estado, na comunidade Daltro Filho, em Tenente Portela (RS), na quinta-feira (13). Ao final das atividades, que marcaram o encerramento de um ciclo de mobilização, formação e debates realizados ao longo dos últimos meses, foi apresentada a Carta das Mulheres Agricultoras Familiares.
A carta reúne reivindicações, análises e compromissos assumidos pelas participantes, a partir de escutas e discussões nas bases sindicais, na defesa de uma sociedade mais igualitária, sustentável e que coloque a vida no centro das políticas públicas. Com o tema “Mulheres: Geradoras e Guardiãs da Vida” e o lema “Vida e Agricultura Familiar”, o encontro reforçou o papel fundamental das mulheres no cuidado com a terra, na produção de alimentos e na organização das comunidades rurais.
O documento destaca a agricultura familiar como identidade e ponto de partida da ação coletiva das agricultoras. “Na produção de alimentos, no manejo responsável do meio ambiente, nas plantas medicinais e na cooperação solidária está a nossa força transformadora”, ressalta trecho da carta.
Além de reafirmar o protagonismo das mulheres, a carta traz um diagnóstico sobre os desafios enfrentados nos territórios: violência de gênero, desigualdade nas relações de trabalho, discriminação, sobrecarga doméstica e impactos de um modelo produtivo que aumenta custos e gera dependência crescente de insumos químicos. As participantes também alertam para as perdas e vulnerabilidades causadas pelos eventos climáticos extremos, que “ceifam vidas, geram perdas produtivas e colocam as famílias em situação de vulnerabilidade”.
O documento reivindica políticas públicas estruturantes, integradas e com perspectiva interseccional, que apoiem a transição para sistemas agroalimentares sustentáveis e fortaleçam a autonomia das mulheres no campo.
Construção coletiva em todas as regiões
O encontro estadual consolidou um trabalho desenvolvido de forma descentralizada, com encontros em municípios de todo o Estado. Para a coordenadora de mulheres da Fetraf-RS, Cleonice Back, o processo demonstra a força da organização coletiva.
“Esse encontro só foi possível pelo conjunto de parcerias e pelo trabalho das coordenações regionais e municipais. Tivemos um sucesso de público, um evento maravilhoso que fechou o ciclo de debates nos municípios, onde nossas mulheres agricultoras tiveram a oportunidade de falar dos desafios que enfrentam, do modelo produtivo e dessa preocupação profunda com a saúde e com a vida”, disse.
Back reforçou que a defesa de uma agricultura familiar sustentável é central para garantir qualidade de vida e renda às famílias: “Nós queremos continuar no campo produzindo alimentos com qualidade de vida, autonomia e renda. Queremos que a agricultura familiar seja um lugar bom de viver e, para isso, precisamos cuidar da vida, da saúde e do planeta.”
O coordenador-geral da Fetraf-RS, Douglas Cenci, avaliou o encontro como um marco para a organização sindical das mulheres. “Essa mobilização é fundamental para fortalecer a organização das mulheres e avançar na conquista de direitos, dignidade e respeito. Cada mulher que esteve aqui é protagonista das lutas e conquistas que estão sendo construídas. Isso é motivo de orgulho para a agricultura familiar.”
Feira estadual evidencia diversidade produtiva

A 1ª Feira Estadual de Agricultoras Familiares também ganhou destaque ao reunir agroindústrias, produtos coloniais, artesanato e experiências agroecológicas. Foi um espaço de comercialização, de troca de saberes e de valorização da autonomia econômica das mulheres que sustentam a produção em suas propriedades e comunidades.
Ao final do evento, a tônica foi de reconhecimento e continuidade da luta. A carta resumiu esse sentimento ao afirmar que “é urgente a construção de uma sociedade que priorize o cuidado à vida”.
A carta
Cofira abaixo a íntegra da carta do 2° Encontro Estadual de Mulheres Agricultoras Familiares:
Nós, mulheres agricultoras familiares da FETRAF-RS, reunidas em nosso 2° Encontro Estadual, por meio de nossos coletivos, expressamos nesta carta a força, os anseios e os compromissos que nos movem na construção de uma sociedade mais justa, igualitária e promotora da vida.
Chegamos a este segundo encontro após um amplo processo de diálogo, formação e mobilização, que fortaleceu nossa organização e ampliou a voz das mulheres agricultoras familiares.
Escolhemos como tema deste encontro “Mulheres: geradoras e guardiãs da vida”, e como lema “Vida e Agricultura Familiar”, reafirmando que o futuro da humanidade depende de uma virada cultural capaz de colocar o cuidado com a vida humana e ecológica em primeiro lugar.
Nós, mulheres, somos guardiãs desse saber e queremos contribuir ativamente com essa transformação.
A Agricultura Familiar é o nosso ponto de partida, fomos percursoras e protagonistas na agricultura, e é como agricultoras familiares que nos reconhecemos e que nos inspiramos na arte de cuidar da vida. Na produção de alimentos, no manejo responsável do meio ambiente, no uso das plantas medicinais, na cooperação solidária e na resiliência cotidiana está a nossa força transformadora.
Neste encontro, manifestamos também nosso repúdio às violências que atingem as mulheres no campo (físicas, psicológicas, patrimoniais ou simbólicas) e que ameaçam nossas vidas.
O silenciamento, o preconceito, a desigualdade de gênero e a sobrecarga de trabalho, frutos de um sistema patriarcal e machista, precisam ser combatidos por todas e todos. Não retrocederemos. Basta de Feminicídios! Queremos e lutaremos juntas e juntos por uma vida livre de violências.
Vivemos ainda os efeitos cada vez mais severos das mudanças climáticas, que têm causado perdas humanas, econômicas e sociais, afetando fortemente a agricultura familiar e a vida nas comunidades rurais. Esses eventos extremos são resultado do descuidado da sociedade com a natureza, e sem uma ação efetiva e urgente, as consequências serão ainda mais graves.
O modelo produtivo hegemônico, centrado no uso intensivo da terra, de insumos químicos e na lógica do lucro e dominação, tem degradado o meio ambiente, comprometido a saúde humana e aumentado o custo de vida das famílias agricultoras.
Como defensoras e promotoras da vida, reafirmamos a urgência da transição sustentável do modelo produtivo, que devem priorizar a diversificação, a sustentabilidade, o respeito ao trabalho e, principalmente, à saúde. É alarmante o aumento dos casos de câncer, afetando sobretudo as mulheres, vítimas de um modelo que envenena o corpo e a terra.
Transformar essa realidade exige ação coletiva e imediata. É fundamental o comprometimento do poder público nas três esferas com políticas que garantam saúde integral, assistência técnica, acesso ao crédito, combate efetivo às violências, apoio à produção sustentável, autonomia econômica e valorização das mulheres agricultoras familiares.
Da mesma forma é imprescindível o engajamento de toda sociedade e das organizações, inclusive do movimento sindical, na garantia de espaço, voz e vez para que as mulheres ocupem espaços de liderança e construção política. Precisamos de uma mudança cultural profunda, entre homens e mulheres, para construir uma sociedade que priorize o cuidado e a vida em todas as suas formas.
Seguimos, juntas, gerando e guardando a vida. Seguimos, mulheres agricultoras familiares, plantando resistência, igualdade e esperança.
