Parte dos recursos destinados à preservação ambiental deve ser destinada à agricultura familiar, garantiu o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome do Brasil, Wellington Dias, na tarde desta segunda-feira (10), primeiro dia da programação oficial da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém, capital do Pará.
“Além dos recursos da área social, da área de apoio ao pequeno agricultor com vários fundos, agora vamos poder trabalhar também com fundos da área ambiental”, declarou Dias, em entrevista ao Brasil de Fato, após a abertura do evento ministerial com o debate O papel fundamental do combate à fome e à pobreza para a justiça climática, na programação oficial da COP30. “E isso vai permitir ampliar o atendimento do Brasil e do mundo”, diz.
No debate, o ministro reforçou a relação entre crise climática e a fome, lembrando que a agricultura familiar é um caminho saudável para a produção de alimentos, garantindo a preservação dos biomas.
“Enfrentar a fome e a pobreza e diminuir a desigualdade é enfrentar a crise climática. Garantir que ninguém seja deixado para trás é o que define o futuro verdadeiramente sustentável”, ressalta o ministro, lembrando que aqueles que produzem alimentos e protegem os territórios estão no grupo dos mais afetados pelos efeitos devastadores da crise climática.
“São as populações mais pobres, os pequenos produtores, povos indígenas, comunidades tradicionais, são as mulheres, as crianças (…) que sentem primeiro e mais fortemente a perda de alimento e meios de vida, e insegurança hídrica, impactos sobre a saúde e vulnerabilidade econômica”, lista Dias.
Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que aproximadamente 8,2% da população mundial — cerca de 673 milhões de pessoas — tenham enfrentado a fome em 2024.
Os fenômenos climáticos extremos, como as secas prolongadas e intensas na região Amazônica em 2024, ou o tornado que atingiu o Paraná na última sexta-feira (7), dificultam cultivos e destroem roçados, aumentando a insegurança alimentar.
“As pessoas perdem seus sistemas alimentares, locais de trabalho, quando tem uma enchente, quando tem um tufão ou um furacão, agravado pela mudança do clima, como aconteceu agora no Paraná, onde uma cidade inteira foi arrasada com perdas de vida. Elas ficam mais vulneráveis”, aponta Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, que participou do debate.
A COP30 teve início nesta segunda-feira, após os dois dias de Cúpula do Clima, em 6 e 7 de novembro. Entre os principais anúncios feitos na cúpula, estão o Compromisso de Belém pelos Combustíveis Sustentáveis, que pretende quadruplicar o uso de combustíveis alternativos até 2035, a criação de uma coalizão internacional de mercados de carbono e o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), proposto pelo Brasil para remunerar países que mantêm suas florestas preservadas.
A resposta está no campo
Na plateia, representando o Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC), Adriano Ferreira, da direção nacional, veio de Alagoas para participar da COP30. Ao fim do debate, ele pediu a palavra e ressaltou a relação entre agricultura familiar e justiça climática.
“A gente precisa gritar ao mundo que só existe justiça climática se houver proteção dos territórios tradicionais, dos indígenas, mas também dos camponeses que estão na terra produzindo o alimento para alimentar o povo brasileiro”, diz.
Participando de uma convenção do clima pela segunda vez – a primeira foi em Baku, no Azerbaijão, em 2024 – Ferreira celebrou a maior presença popular em 2025, em Belém.

“A gente percebe que essa COP tem a maior participação das pessoas”, afirma. Para ele, o debate sobre o clima precisa considerar a proteção das comunidades.
“Mas existe aí um desafio ainda muito grande, né? Porque muitas vezes, em nome do progresso, em nome da energia renovável, as empresas transnacionais chegam no nosso território e acabam, muitas vezes, não respeitando o modo de ser camponês”, lamenta.
