ARTIGO

Jards Macalé: o favorito do seu favorito

Sinto agora que Macalé continua comigo, continua com todos que foram tocados por ele

No audio source provided.
Ilustrar texto de opinião
Jards Anet da Silva, conhecido como Jards Macalé, nasceu em 3 de março de 1943, no estado do Rio de Janeiro | Crédito: José de Holanda/Divulgação

Jards Macalé morreu na segunda-feira e, desde então, eu tenho tentado escrever algo que consiga tocar minimamente o tamanho que ele tem na minha vida. Não é fácil. Macalé nunca foi um artista simples de explicar, e talvez por isso mesmo ele seja tão fundamental. Para mim, falar dele agora é como tentar segurar a água com as mãos. A gente tenta, mas sempre escapa um pouco. E ainda assim eu preciso escrever, porque sinto que se eu não disser alguma coisa, fica faltando um pedaço de mim e da história da música brasileira.

Eu sempre achei que Macalé era o artista favorito do seu artista favorito. O cara que influenciava quem iria influenciar o resto do mundo. Um artista que caminhou pelas bordas com a dignidade de quem sabe que ali, e só ali, é possível criar algo realmente novo. Ele nunca buscou o centro, nunca quis aplauso fácil, nunca se deixou moldar por conveniência. Escolheu a margem, e por causa disso mudou a linha do horizonte.

Falar de sua vida é falar de um menino da Tijuca cercado de samba, de piano, de vizinhos lendários, de batuques e valsas que o formaram antes mesmo que ele pudesse perceber. É falar de um jovem em Ipanema, apelidado quase por brincadeira, que já carregava uma inquietação musical tão profunda que nenhuma escola daria conta. É falar de um artista que estudou como poucos, que mergulhou em jazz, seresta, samba-canção, que dialogou com mestres enquanto criava sua própria gramática.

Macalé com sua ousadia desafiava e não cabia em rótulos banais. Foi passando pelo cinema, teatro, trilha sonora, por experimentações radicais, por discos que mudaram minha vida e a de muita gente. E, mesmo assim, parecia carregar sempre uma certa dor, uma certa beleza difícil, uma insistência em dizer o que precisava ser dito mesmo quando o mundo não queria ouvir. E talvez seja por isso que eu me agarro tanto à música dele.

É muito difícil escolher qual canção de Macalé me pega mais forte. De tantas que me fizeram rir, chorar, amar e até perder o fôlego, poucas me atravessam tão fundo quanto Movimento dos Barcos e Soluços. Essas duas músicas revelam duas almas que conviviam dentro dele e que convivem dentro de mim também quando escuto.

Movimento dos Barcos é o Macalé da alma visceral, aquele que sangra em silêncio e transforma a dor em beleza. Tem algo nela que suspende o tempo, como se a música respirasse devagar para não deixar a gente despencar. Toda vez que eu ouço, sinto que o mar dentro de mim muda de lugar. Já Soluços é o Macalé da alma do amor, do afeto que ele oferecia com uma delicadeza que só quem conhece a dureza da vida é capaz de entregar. Uma canção que abraça sem pedir nada em troca. Essas duas músicas, juntas, mostram o porquê de sua obra ter esse poder tão difícil de explicar. Ele sabia ser tempestade e calmaria ao mesmo tempo.

Eu sei que não existe artista perfeito, e talvez o grande barato de Macalé seja justamente isso. Ele nunca precisou ser perfeito. Precisou ser verdadeiro. Mesmo quando tropeçou, mesmo quando atravessou crises profundas, mesmo quando quase colocou a própria vida em risco, como naquela história em que João Gilberto tocou No Rancho Fundo até ele adormecer. Ele viveu a música com uma intensidade que às vezes beirava o insuportável e, assim, produziu algumas das obras mais bonitas e mais radicais que o Brasil já ouviu.

Eu também sei que o Brasil nunca soube muito bem o que fazer com ele. O país adora os que se encaixam, mas não sabe lidar com quem não aceita caber em lugar nenhum. Macalé era esse corpo estranho, esse artista inquieto demais, indomável demais, criativo demais. E talvez seja por isso que a morte dele doe tanto. Porque a gente perde alguém que empurrava a cultura para frente, mesmo quando ninguém pedia. Alguém que lembrava que a música não existe para ser confortável. Existe para abrir brechas, criar perguntas, inventar mundos.

Sinto agora que Macalé continua comigo, continua com todos que foram tocados por ele. Não só pela obra, mas pela postura. Ele me ensinou que arte não é lugar de medo, que o risco é a única forma de honestidade. Me ensinou que existe beleza no caos e que existe força na fragilidade. Me ensinou que, mesmo quando tudo parece desabar, ainda existe o movimento dos barcos, esse ir e vir misterioso que mantém a gente vivo.

Talvez o Brasil ainda vá demorar para entender quem ele foi de verdade. Mas não tem problema. Macalé nunca precisou que o entendessem. Ele só precisava que o escutassem. E agora, mais do que nunca, é isso que eu vou continuar fazendo. Porque enquanto houver alguém disposto a ouvir, ele nunca vai embora de verdade. É, meu amigo, você se foi e deixou aqui tanta música, melodia e caminhos que me faz me perguntar se realmente você foi embora, porque o que parece de verdade é que você continua tão vivo e tão forte que a passagem foi só um até logo, nunca mais comerei da farinha do desprezo, assim como sei que meu segredo sempre será o fato de não chorar e ser um rapaz esforçado, parado, calado, quieto, não corro, não choro, não converso. Massacro meu medo. Mascaro minha dor, pois já sei sofrer. E o principal, não preciso de gente que me oriente. E se você me pergunta como vai, respondo sempre igual, tudo legal.

*Ítalo Aquino é professor de história e doutorando na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Pesquisa as relações de trabalho no campo brasileiro, especialmente na Paraíba no período de 1958-1964.

**A opinião contida neste texto não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Apoie a comunicação popular, contribua com a Redação Paula Oliveira Adissi do jornal Brasil de Fato PB
Dados Bancários
Banco do Brasil – Agência: 1619-5 / Conta: 61082-8
Nome: ASSOC DE COOP EDUC POP PB
Chave Pix – 40705206000131 (CNPJ)

Editado por: Carolina Ferreira

|

Newsletter