TERRITÓRIO EM MARCHA

Marcha Zumbi e Dandara une resistência e memória para marcar o 20 de Novembro em Porto Alegre

Movimento negro gaúcho exige reparação já e denuncia racismo estrutural e genocídio

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A Marcha Independente Zumbi Dandara 2025 foi convocada com o lema “Povo negro contra a chacina nas periferias e na Palestina”, exigindo desmilitarização das polícias e denunciando o genocídio da juventude negra
A Marcha Independente Zumbi Dandara 2025 foi convocada com o lema “Povo negro contra a chacina nas periferias e na Palestina”, exigindo desmilitarização das polícias e denunciando o genocídio da juventude negra | Crédito: Rafa Dotti

A Marcha Independente Zumbi e Dandara completou 20 anos reforçando seu papel como um dos atos políticos mais significativos do Rio Grande do Sul. Traduzindo a memória de luta do povo negro em ação direta, o evento aconteceu na noite desta quarta-feira (19), pelo segundo ano consecutivo da data do 20 de Novembro ser celebrada como feriado nacional.

A programação de 2025, construída pelo Novembro Antirracista Unificado, confirmou a centralidade da marcha como um espaço de articulação entre movimentos sociais, coletivos culturais, sindicatos e parlamentares comprometidos com o enfrentamento ao racismo estrutural.

Concentração iniciou às 17h na Esquina Democrática, no centro de Porto Alegre – Foto: Rafa Dotti

A Marcha Independente Zumbi Dandara 2025 foi convocada com o lema “Povo negro contra a chacina nas periferias e na Palestina”, exigindo desmilitarização das polícias e denunciando o genocídio da juventude negra. Desde às 17h, a Esquina Democrática recebeu a concentração do ato, que abriu com uma roda de capoeira e um palco aberto para intervenções artísticas.

Performance da atriz e bailarina Adriana Rodrigues foi uma das apresentações culturais – Foto: Rafa Dotti

Às 19h, a marcha iniciou após uma performance da atriz e bailarina Adriana Rodrigues, seguida do rapper Robin, e do grupo Brazil Estrangeiro, que apresentou uma homenagem a Oxum. Segurando a faixa da abertura estavam crianças, à frente Patrícia de Lurdes Peres da Rosa, a Mãe Paty, do Yle de Oxum, do Quilombo Família de Ouro, também representando Oxum. O percurso foi acompanhado por violão de sete cordas de Everton Barbosa, cavaquinho de Tiago e interpretações de Guaíra Soares, Roberta Moura, Ana Sauri e Jucélia, com repertório de sambas e canções engajadas na luta antirracista.

A faixa de abertura foi carregada por crianças – Foto: Rafa Dotti

Diversos coletivos culturais enriqueceram o ato com cantos e ritmos afrocentrados, guiados pelo GT Cultural da Marcha Zumbi e Dandara, reiterando que resistência também se faz com arte. Para Luiz Mendes, representante do Coletivo Sindical Antirracista e do Movimento Negro Unificado (MNU), a marcha reafirma um compromisso histórico iniciado em 2005, quando a mobilização foi inspirada pela Marcha Zumbi + 10, em Brasília. Ele destaca que o ato é uma síntese do que o movimento defende há décadas: “lutar a favor de uma reparação efetiva para o povo negro brasileiro”.

Mãe Paty do Quilombo Família de Ouro, também representou Oxum na abertura da marcha – Foto: Rafa Dotti

Genocídio e violência estrutural colocam urgência nas ruas

A denúncia do genocídio da população negra permaneceu como eixo estruturante da marcha. A violência policial nos territórios periféricos, associada a operações de grande letalidade no Rio de Janeiro e ao massacre contínuo do povo palestino, ampliou a dimensão política do ato deste ano. O relatório “Pele Alvo: crônicas de dor e luta”, da Rede de Observatórios da Segurança, registrou que 3.066 pessoas negras foram mortas pela polícia no ano passado, representando 86,2% das vítimas de letalidade policial. O Rio Grande do Sul seguia em 2023 como líder nacional no assassinato de pessoas negras.

Grupos de capoeira também participaram da caminhada – Foto: Rafa Dotti

A vereadora Grazi Oliveira (Psol) relaciona esse cenário à própria estrutura do Estado, afirmando que o papel da luta antirracista é “culpabilizar o Estado pelas mortes cotidianas do nosso povo”. Para ela, a máquina estatal é programada para produzir violência contra os corpos negros, reforçando a necessidade de vigilância sobre políticas públicas capturadas pela militarização. Essa crítica ecoou durante o ato, quando Grazi alertou: “Nós precisamos estar atentos. A política social está sendo ocupada pelo militarismo. Chega de comandante, chega de policial ou brigadiano ou qualquer militar ocupando o espaço da nossa política”.

Márcia Teresinha Fernandes, coordenadora suplente nacional do MNU, reforça que a violência se expressa também na condição social do povo negro, marcada pelo estigma permanente que os transforma em suspeitos preferenciais. Segundo ela, essa realidade produz “uma doença psicológica que o próprio racismo nos faz”, reforçando a urgência de políticas profundas de reparação. Luiz Mendes sintetizou a indignação coletiva com a afirmação: “Parem de nos matar. O que aconteceu no Rio de Janeiro é mais um genocídio da população negra brasileira, e a gente luta contra isso”.

Reparação, cotas e disputa por direitos

A luta por reparação histórica esteve presente nas falas e faixas – Foto: Rafa Dotti

A luta por reparação histórica esteve presente em todo o trajeto da marcha. Para Peróla Sampaio (PT), que assumiu mandato na Câmara Municipal durante a Semana da Consciência Negra, a política de cotas precisa ser compreendida sem estigmas. Ela defende que, ao falar sobre ações afirmativas, é essencial reforçar que cotas “não são esmola, são reparação”. O debate sobre a PEC da Reparação, defendida por sindicatos da educação e outros setores, reapareceu nas ruas como tentativa de instituir um reconhecimento formal da dívida histórica que o país tem com o povo negro.

Para Peróla Sampaio (PT), que assumiu mandato na Câmara Municipal durante a Semana da Consciência Negra, a política de cotas precisa ser compreendida sem estigmas – Foto: Rafa Dotti

Márcia Fernandes celebra os avanços recentes na inclusão de jovens negros nas universidades públicas, afirmando que essa ampliação tem permitido à comunidade “sair um pouco da marginalidade”. Para Niara Dy Luz, presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e da União Estadual dos estudantes, o ingresso de estudantes negros no ensino superior produz um sentimento de pertencimento que transforma gerações. Ela recorda o impacto coletivo de registrar em foto a presença de corpos negros em espaços historicamente brancos: “É um reencontro. A gente às vezes é o único na sala, e estar juntos lembra que nada disso é individual”.

Marcha percorreu as ruas do Centro até o Largo Zumbi dos Palmares – Foto: Rafa Dotti

Diversos movimentos sindicais e populares participaram da marcha, como a Central Única dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul (CUT/RS), a Sindicato dos técnico-administrativo da UFRGS, UFSCPA e IFRS (Assufrgs), o Coletivo Sindical Antirracista, o Sindicato dos Professores e Funcionários de Escola do Rio Grande do Sul (Cpers Sindicato), o Movimento Contra a Privatização da Trensurb, o Sindicato dos Servidores Públicos Federais do Rio Grande do Sul (Sindiserf), o Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários), o Sindicato dos Servidores da Justiça do Rio Grande do Sul (Sindjus), o Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal e do Ministério Público da União no Rio Grande do Sul (Sintrajufe), o Sindicato dos Administradores do Estado do Rio Grande do Sul (Semapi), a União de Negros pela Igualdade (Unegro) e o Movimento Negro Unificado (MNU). Todos reforçaram que a educação, o serviço público e a organização popular são frentes fundamentais para barrar retrocessos e consolidar políticas de reparação.

Servidores da Ufrgs, UFSCPA e IFRS também estavam presentes na marcha – Foto: Christofer Dalla Lana

Crítica radical ao Estado, ao capital e ao militarismo

A radicalidade política marcou a fala dos movimentos negros, que apontaram a impossibilidade de superar o racismo sem enfrentar a estrutura econômica que o sustenta. O coletivo Maré Negra, representado por Brian Melo Rodriguez, relacionou a repressão no Brasil a processos globais de desumanização, afirmando que é indispensável denunciar também o massacre da população palestina, território onde “um povo racializado está sendo exterminado”.

Diversos coletivos levaram suas faixas, cartazes e mensagens para a marcha – Foto: Rafa Dotti

A vereadora Karen Santos (Psol) afirmou que não é possível esperar transformações profundas apenas pela via institucional. Ela defende que lutar por políticas públicas dentro da atual estrutura econômica é insuficiente. “Não tem política pública dentro dessa estrutura de Estado sem uma revolução.” Santos apontou a necessidade de retomar projetos históricos como reforma agrária, titulação de quilombos e reforma urbana, lembrando que “há prédios vazios enquanto famílias negras vivem em periferias vulnerabilizadas”.

Bruna Rodrigues (PCdoB), deputada estadual, destacou que o enfrentamento deve ser permanente e coletivo para “derrotar a extrema direita, para derrotar aqueles e aquelas que massacram o nosso povo”. As parlamentares Luciana Genro (Psol), Fernanda Melchionna (Psol), Maria do Rosário (PT), Pedro Ruas (Psol) e Roberto Robaina (Psol) também estiveram presentes, reforçando apoio institucional.

Um Rio Grande do Sul negro que resiste

A radicalidade política marcou a fala dos movimentos negros, que apontaram a impossibilidade de superar o racismo sem enfrentar a estrutura econômica que o sustenta – Foto: Rafa Dotti

A mobilização reafirmou um território que, embora marcado pelo apagamento histórico, é profundamente negro. O Rio Grande do Sul abriga a maior concentração de terreiros e quilombos urbanos do país, e é o berço da data do 20 de Novembro, formulada por Oliveira Silveira e pelo Grupo Palmares. A deputada federal Reginete Bispo (PT), que atuou para garantir a sanção do feriado nacional, ressalta que o legado de Zumbi e Dandara pertence ao Sul, mesmo que tentem apagá-lo.

Elis Regina Duarte Gomes, presidenta estadual da Unegro, afirma que existe um “Rio Grande do Sul negro que foi até agora escondido debaixo do tapete” e que segue enfrentando um racismo profundo. Ela recorda que a escravidão no estado foi marcada por condições brutais, com expectativa de vida de apenas seis anos para pessoas escravizadas nas charqueadas. Nos dias atuais, afirma, a prática não desapareceu completamente, lembrando casos recentes de trabalho escravo em vinícolas, garagens e até na Cidade Baixa.

A intolerância religiosa também foi denunciada, especialmente pela perseguição a quem “toca tambor” ou acende fogo em casas de matrizes africanas – Foto: Rafa Dotti

A intolerância religiosa também foi denunciada, especialmente pela perseguição a quem “toca tambor” ou acende fogo em casas de matrizes africanas. A narrativa reafirma que a repressão ao povo negro se articula no corpo, no território e na espiritualidade.

Educadores do estado destacam luta antirrascista – Foto: Rafa Dotti

O percurso da marcha simboliza uma retomada da cidade. Como explica Elis Regina, o deslocamento parte do Centro, atravessa a “parte alta da cidade, teoricamente branca”, e segue ao Largo Zumbi dos Palmares, local que foi uma antiga colônia africana expulsa pelo capital imobiliário. Reginete Bispo resumiu o sentimento coletivo: “Se o Brasil tem solução, essa solução está nas nossas mãos”.

Um ato que transforma memória em futuro

Referências do povo negro foram lembradas em cartazes – Foto: Rafa Dotti

Aos 69 anos, Eva Terezinha da Silva, moradora do bairro Liberdade, em Novo Hamburgo, participou da marcha e destacou a importância do ato para o enfrentamento ao racismo e às violências que atingem diferentes segmentos da população.

Eva conta que decidiu participar pela identificação com a causa e pela receptividade que encontrou. “Gostei da caminhada porque fui muito bem recebida. Adorei estar no meio do povo”, afirmou.

A denúncia do genocídio da população negra permaneceu como eixo estruturante da marcha – Foto: Rafa Dotti

Ativa nas redes sociais, ela diz que utiliza a internet para combater o racismo e defender grupos historicamente discriminados. “Eu não aceito preconceito contra pessoas LGBT, contra idosos, contra pessoas com deficiência. Muita gente maltrata essas pessoas, e eu estou lutando contra isso”, declarou.

Para ela, marchas como a realizada hoje são fundamentais para fortalecer a luta por respeito e igualdade. “Eu sou contra o racismo e estou aqui para isso”, resumiu.

Editado por: Katia Marko

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