A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (ALRS) realizou uma sessão solene para celebrar a Semana da Consciência Negra e prestar homenagem a personalidades e entidades que trabalham pela valorização e desenvolvimento da comunidade negra gaúcha, entregando o Troféu Deputado Carlos Santos e a Medalha Zumbi dos Palmares.
O evento, coordenado pelas deputadas Laura Sito (PT) e Bruna Rodrigues (Federação PT/PCdoB), foi marcado tanto pela celebração da trajetória dos homenageados quanto pelo debate político sobre desigualdade e sub-representação da população negra no estado.
A sessão, embora importante, não contou com o plenário lotado, o que levou Bruna Rodrigues a dizer que queria ver o espaço repleto de colegas que compreendessem a potência da data. A deputada afirmou que os homenageados, escolhidos pelos 55 parlamentares, são faróis de luz em suas comunidades e destacou especialmente a escritora Eliane Marques, cuja produção tem sido fundamental para mulheres negras que enfrentam criminalização e negação de direitos.
A presença da bancada negra na Assembleia foi destacada como um marco recente e tardio. O deputado Matheus Gomes (Psol) lembrou que, enquanto a ALRS completará 190 anos em 2025, a bancada negra tem apenas dois anos e 11 meses de existência, fato que, segundo ele, revela a profundidade das desigualdades históricas.
Bruna Rodrigues ressaltou que, apesar de a população negra compor a maioria do povo brasileiro e 23% dos habitantes do Rio Grande do Sul, ela segue sendo minoria nos espaços de poder. Para Gomes, essa desigualdade não se limita ao plano simbólico, mas se expressa nas condições concretas de vida, na educação, no trabalho e na renda.

O deputado Dr. Thiago Duarte (União Brasil), falando também em nome de parlamentares do PDT e do PSDB, elogiou a trajetória dos homenageados, afirmando que representam modelos de persistência e trabalho. O deputado Thiago Semo (MDB) destacou que os números apresentados sobre a desigualdade racial são uma afronta e relatou episódios de racismo que testemunhou em sua própria convivência, reforçando que o problema atravessa todas as esferas sociais.
Um dos momentos mais tensos da sessão foi a crítica contundente ao orçamento destinado pelo governo Eduardo Leite ao combate ao racismo. Matheus Gomes denunciou que o valor reservado é de apenas R$ 100 mil, o que, “diante dos quase 500 municípios gaúchos, não faz nem cócegas no problema”. Bruna Rodrigues reforçou o absurdo afirmando que isso equivale a R$ 16,00 por mês, questionando como a vida negra pode valer tão pouco na peça orçamentária. Para Gomes, o racismo no Rio Grande do Sul decorre de condições materiais profundamente enraizadas e não se resolve com discursos vazios.
Os 55 parlamentares escolheram os agraciados, destacando trajetórias de grande impacto nas áreas social, cultural, política, educacional e esportiva. Os homenageados do Troféu Carlos Santos foram Álvaro Rosa da Costa, ator e compositor com forte presença no cinema gaúcho, Eliane Marques, escritora e tradutora reconhecida, o Comitê de Desenvolvimento do Loteamento Dunas, que atua há quase quatro décadas como referência comunitária em Pelotas, a Ialorixá Índia Jaciara de Bará, liderança na luta contra a intolerância religiosa, Cristiano dos Santos Cardoso, advogado (UFPel), empresário e ex-vereador com destacada atuação em Jaguarão, sua cidade natal, Sérgio Leandro da Rosa, cineasta independente de Venâncio Aires, e Fernanda Oliveira da Silva, professora adjunta do curso de História e professora permanente do Programa de Pós-Graduação em História da Ufrgs, com produção acadêmica direcionada para áreas como Pós-Abolição, Racialização, Raça e Escrita da História, na reinterpretação da história brasileira a partir da perspectiva negra.
Já a Medalha Zumbi dos Palmares contemplou o delegado Cleiton Silvestre Munhóz de Freitas (Política), Érico Oliveira Leote (Social), Wagner Tavares (Esportiva), Liliana Cardoso (Cultural), Marielda Medeiros (Educacional), Itanajara de Oxum (Religiosa) e Daniela da Rosa (Jurídica). As falas dos parlamentares ressaltaram que essas trajetórias mostram que a origem humilde não impede conquistas quando existem oportunidades e políticas afirmativas.
As homenagens, no entanto, não esconderam a necessidade de ações concretas e políticas estruturais. Gomes criticou o que chamou de antirracismo liberal do governo estadual e defendeu investimentos nas áreas mais impactadas pela desigualdade, como saúde, moradia e educação, lembrando que Porto Alegre tem mais de 400 comunidades periféricas segundo o IBGE.
Bruna Rodrigues afirmou que sonha com um futuro em que a população negra não precise ter um protocolo para existir e em que o Estado reconheça suas responsabilidades na superação do racismo. Gomes encerrou destacando que o 20 de Novembro só existe graças à ação política negra de figuras como Zumbi, Dandara e Manoel Padeiro, e que a luta atual exige organização, consciência e enfrentamento político para que a igualdade racial no Rio Grande do Sul avance de forma real.
