Um dos temas centrais da 30ª Conferências das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), a criação do chamado ‘mapa do caminho’ — ou roadmap, documento com um cronograma de ações para que os países abandonem a dependência de combustíveis fósseis — está travado.
Com o incêndio que atingiu uma parte da Zona Azul, na tarde desta quinta-feira (20), as definições ficam ainda mais nebulosas na reta final das negociações, cujos resultados terão impacto no futuro do planeta.
Eram 13h35 quando Cláudio Ângelo, coordenador de política internacional do Observatório do Clima, conjunto de organizações ambientais, declarou à reportagem do Brasil de Fato que, até aquele momento, o mapa do caminho estava travado.
“A presidência [da COP30] está tentando reverter isso. Mas não me espantaria se a gente chegasse na nova versão do texto sem esse roadmap”, informou, sobre a proposta final da conferência. Menos de uma hora depois, a Zona Azul — área onde acontecem as negociações entre os países — foi evacuada por causa do incêndio.
A proposta do mapa do caminho parou nas mãos dos países que formam o bloco LMDC (sigla de Like-Minded Developing Countries, algo como países em desenvolvimento com pensamentos semelhantes). Arábia Saudita e Índia, dois países influentes nesse debate, compõem o agrupamento, junto da Indonésia, Paquistão, Argélia, Bangladesh, Bielorrússia, Butão, Cuba, China, Egito, Irã, Malásia, Mianmar, Nepal, Paquistão, Filipinas, Sri Lanka, Sudão, Síria, Vietnã e Zimbábue.
Na manhã desta quinta-feira, o secretário-geral da ONU, António Guterres, reforçou a urgência de que os países construam o documento.
“O mundo precisa abandonar os combustíveis fósseis de forma justa e ordenada. Na COP28, em Dubai, esse entendimento avançou”, disse, em coletiva de imprensa. “Agora, os governos precisam garantir que os trabalhadores e comunidades dependentes de petróleo e gás tenham capacitação, proteção e novas oportunidades”, declarou.
Em coletiva de imprensa, o enviado especial da COP30, Marcelo Behar, estava mais otimista sobre os rumos das negociações e ressaltou que o principal ponto em debate nesta reta final é o mapa do caminho. O plano já conta com adesão de mais de 80 países e tem apoio do governo brasileiro. O enviado não conseguiu detalhar em que nível está o mapa e quais são os rumos dele no momento.
“São apresentadas várias versões, vários números, vários prazos. Eu acho que o que importa é a gente começar a levar isso a sério”, declarou Behar, minutos antes de as chamas começarem e o espaço ser evacuado. “E o mais importante é cada país saber onde está e qual é o filme da sua saída e como vai começar a fazer a reversão dos não-renováveis para os renováveis”, disse.
Ele explicou que o foco das negociações agora é organizar prazos e metas para a elaboração desse mapa. Behar, no entanto, ponderou que o tema encontra resistência, principalmente dos países economicamente dependentes do petróleo — aqueles que compõem o LMDC.
“Os países que têm soluções, como nós, têm uma pressa maior, não só porque oferecem a solução, mas porque conseguem fazer a transição, já tá melhor mapeado”, disse, em menção ao Brasil que, embora seja produtor de petróleo, tem investido em outras fontes de energia. “Então, a gente agora tem que fazer com que esse mapa funcione para todo mundo e incorpore no tempo que os outros precisam. Mas para sair de um lugar em que o mundo ficou por muito tempo: o de não saber ao certo quando ia acontecer qualquer coisa”, contextualizou.
Na conversa com o Brasil de Fato, Ângelo, declarou que “tudo pode mudar, tudo vai mudar. Mas neste momento os roadmaps estão fora da mesa”. Menos de meia hora depois, tudo, de fato, mudou. Agora, negociadores e demais participantes esperam as próximas orientações da ONU a respeito do acesso ao espaço da COP para dar prosseguimento aos debates.
Um comunicado oficial da ONU, enviado no início da noite, informa que somente serão retomadas nesta quinta-feira atividades de negociação “assim que o local for avaliado minuciosamente e considerado totalmente seguro pelas autoridades de saúde e combate a incêndios”.
“Não prevemos qualquer atividade na plenária esta noite e, naturalmente, garantiremos que a atividade na plenária de amanhã [sexta-feira] seja aberta a todas as Partes e Observadores, e também seja transmitida ao vivo”, informa o comunicado.
Sobre o incêndio
O incêndio atingiu o Pavilhão dos Países, próximo ao hall de entrada da Zona Azul, uma das áreas mais restritas do evento e onde acontecem as principais reuniões de negociação.

O fogo, que foi controlado em poucos minutos, resultou na evacuação total dos espaços oficiais da Zona Azul. Em poucos minutos, pesquisadores, funcionários, jornalistas e os negociadores enviados pelos países deixaram o prédio.
“Hoje é um dia triste aqui para a COP30. A gente estava esperando texto novo da presidência, esperando as plenárias, tanto a plenária do povo marcada para essa tarde, quanto a plenária da presidência marcada pro comecinho da noite”, lamentou Carolina Pasquali, diretora executiva do Greenpeace.
As chamas começaram por volta das 14h e foram controladas, segundo informações oficiais, em seis minutos. Ninguém ficou gravemente ferido. No local, 13 pessoas foram socorridas por terem inalado muita fumaça.
O espaço foi evacuado com muita velocidade e as atividades foram suspensas. A Zona Azul é uma área que fica sob comando da ONU. Após o incêndio, o governo brasileiro assumiu a coordenação do espaço.
A presidência da COP avalia o impacto do incêndio e as condições para o retorno às atividades. De acordo com o Corpo Bombeiros, a causa do incêndio foi, provavelmente, uma pane elétrica.
