121 MORTES NO RIO

A desigualdade social como uma variável para criminalidade

'Não é através do ódio e violência que se resolve uma problemática como essa'

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Imagens de corpos enfileirados na comunidade da Penha, no Rio de Janeiro, chocou o mundo
Imagens de corpos enfileirados na comunidade da Penha, no Rio de Janeiro, chocou o mundo | Crédito: Pablo Porciuncula/AFP

Nos últimos dias, o Brasil mais uma vez foi destaque nos noticiários internacionais acerca da violência a qual o país e os seus cidadãos vivenciam de forma rotineira e habitual, não sendo nada incomum encontrarmos manchetes no que se refere a criminalidade, desigualdade e violência institucionalizada. Porém, desta vez a violência resultou em 121 mortes em uma favela no Rio de Janeiro. Entre elas 4 policiais e 117 criminosos.

O acontecimento causou um efeito de cisão na população e na política nacional. Uma parte alega que sim, foi de boa índole e a polícia não fez mais que o seu trabalho. Em falas de influencers, jornalistas, populares e os próprios políticos afirmam que “as únicas vítimas eram os policiais, a maior faxina da história”. No outro lado, pessoas sensibilizadas pelas mortes de todos os envolvidos e se questionando até quando?

Faço-me a mim e a todos os leitores a refletirem de forma crítica: por que isso ocorre? Até quando a nossa política irá aplaudir de pé e dizer que a criminalidade é uma questão de escolha? O quão forte pode ser a influência política na opinião popular? Qual o nosso papel como cidadão brasileiro? Qual o papel das políticas públicas?

De fato, as ciências sociológicas e psicológicas nos dão subsídios teóricos para enunciar que a criminalidade não vem a ser desenvolvida somente por fatores ambientais, pois o fenômeno da criminologia é um campo complexo na qual existem inúmeras variáveis para explicação do crime. Entretanto, é possível afirmar que sim, que o ambiente tem uma enorme influência no comportamento que desvia as normativas e condutas sociais, principalmente quando ocorre a marginalização social.

O Brasil desde sempre sofre com o fenômeno chamado desigualdade social onde basicamente a sociedade se divide entre: aqueles que têm acesso ao máximo para viver e se desenvolver, e aqueles que tem o mínimo para tentar sobreviver.  Não é incomum encontrarmos sujeitos de nível socioeconômico desfavorecido no mundo do crime.

Um ponto que chama atenção é o momento em que a lista de mortos é divulgada. Comove que a maioria eram jovens negros e pardos. Frente a isso, reflito: isto também nos daria indícios sobre a desigualdade étnico-racial e marginalização desta população no Brasil? Isto não seria mais uma variável a ser vista e indagada pelas políticas públicas de educação e desenvolvimento no país? Pois, ao que parece, a política esta mais preocupada em exacerbar o ódio para a população e ainda ser vista como competentes no exercício falho que é a política nacional.

Por fim, questiono: toda esta ação policial e propagação do ódio irá acabar com a criminalidade e a violência no país? Será que todos os problemas sociais foram resolvidos? Sem dúvida que não. Não é através do ódio e violência que se resolve uma problemática como essa, pelo contrário, quanto mais a violência é exteriorizada, maiores são as chances dela se expandir.

Acredito que o nosso papel como cidadão brasileiro é lutar pela educação e inclusão das pessoas. É compreender que extinguir a criminalidade em uma sociedade é quase que impossível, e não são os números de mortes que vão estabelecer uma sociedade mais pacífica. À medida que compreendemos e olhamos com sensibilidade a problemática sociocultural atual envolvida, nos colocamos como cidadãos críticos que lutam pelo direito à educação e bem-estar social no país.

*Marindia Pischek Pereira é psicóloga formada pela Universidade de Passo Fundo e mestranda em Psicologia da Justiça e do Comportamento Desviante pela Universidade Católica Portuguesa

** Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Marcelo Ferreira

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