Na tarde desta quinta-feira (20), Dia da Consciência Negra, as ruas do bairro da Liberdade, em Salvador, ecoaram a luta por vida, justiça e direitos para o povo negro. A tradicional Caminhada da Liberdade chegou a sua 22ª edição e reuniu milhares de pessoas que marcharam do Curuzu ao Pelourinho em defesa da luta antirracista.
Organizada pelo Fórum de Entidades Negras da Bahia (Feneba), a mobilização trouxe o tema Descolonizar a África é libertar o Brasil, e prestou homenagem a Burkina Faso, país da África Ocidental que se tornou referência internacional por sua busca recente por autonomia política e econômica.
“Burkina Faso simboliza a luta contra o controle externo das riquezas africanas e a afirmação de um caminho próprio de desenvolvimento, o que ecoa na trajetória histórica da população negra baiana. Ao reunir blocos afro, organizações culturais e o Movimento Negro Unificado (MNU), a Caminhada da Liberdade cria um elo entre África e Bahia, reforçando que a emancipação de um povo só é possível quando suas narrativas e seus recursos deixam de estar submetidos ao domínio colonial”, aponta o Fórum.
O ato também contou com participação de blocos e entidades como Ilê Aiyê, Muzenza, Os Negões, Aganjú, Okámbi, Cortejo Afro, Movimento Negro Unificado e Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro (Fenacab). Também estiveram presentes parlamentares e representantes de entidades sindicais, como Elizabete Sacramento, coordenadora-geral do Sindicato dos Petroleiros e Petroleiras da Bahia (Sindipetro-BA).
“Na 22ª Caminhada da Liberdade, sentimos mais uma vez a força que nasce quando o nosso povo ocupa as ruas com consciência, coragem e memória. Estar ao lado de companheiros e companheiras de luta, no Dia da Consciência Negra, é reafirmar quem somos, de onde viemos e para onde queremos levar este país”, destacou a dirigente, por meio das redes sociais.
Homenagem à Ibrahim Traoré
O homenageado de destaque da caminhada foi presidente burquinense Ibrahim Traoré, que, inspirado no legado do revolucionário Thomas Sankara, tem construído uma política de resistência ao neocolonialismo e de defesa da identidade e soberania do país e do continente africano.
“Essa façanha que Ibrahim Traoré está fazendo na África Ocidental, na região do Sahel, está contagiando toda a África”, destacou Raimundo Bujão, presidente do Feneba, em entrevista à Rádio Educadora FM.
O dirigente também destacou um dos motivos pelos quais o Fórum decidiu homenagear o líder de Burkina Faso neste ano.
“Primeiro por ser um jovem, e a juventude brasileira precisa entender que, se hoje ela tem tido acesso à universidade, tem as cotas, isso foi uma luta do movimento negro, uma luta de muitos que não estão mais entre nós. E é preciso que essa juventude retorne para a sociedade, para o seu povo, o conhecimento que a luta organizada do movimento negro propiciou”, apontou.
Sahel: Pátria ou Morte
A revolução em curso no Sahel é tema do documentário Sahel: Pátria ou Morte, lançado em setembro deste ano. Produzido pelo Brasil de Fato em parceria com a Assembleia Internacional dos Povos (AIP), o filme aborda a resistência popular e os novos caminhos de desenvolvimento trilhados por Burkina Faso, Níger e Mali após passarem por levantes civis e militares nos últimos anos.
O documentário apresenta os pilares que sustentam “a independência real” desses países e é fruto de duas viagens do Brasil de Fato à região. A obra se propõe a desmistificar a propaganda francesa, apresentada em veículos hegemônicos, de que Burkina Faso, Mali e Níger passam por processos autoritários e sem suporte popular.
Sahel: Pátria ou Morte está disponível no canal do Youtube do Brasil de Fato.
