O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentou e Kiev um novo plano de paz de 28 pontos para encerrar a guerra da Ucrânia. Os termos do documento foram divulgados por diversos veículos de comunicação e sua autenticidade foi confirmada por autoridades ucranianas e dos EUA.
A proposta inclui o reconhecimento da Crimeia, Donetsk e Lugansk, como territórios russos, e a divisão das regiões de Kherson e Zaporozhzhye na atual linha de frente. O plano também prevê a “reintegração da Rússia à economia global”, medidas para restaurar a Ucrânia e a garantia de que o país não entrará na Otan. Os termos são vistos como muito favoráveis às demandas de Moscou.
Em pronunciamento nesta sexta-feira (21), o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky disse que o país se vê em um dilema diante da proposta de Trump, representando “um dos momentos mais importantes” da história da Ucrânia.
“Agora a Ucrânia pode enfrentar uma escolha muito difícil: ou a perda da dignidade ou o risco de perder um parceiro-chave. Ou os difíceis 28 pontos ou um inverno extremamente difícil, o mais difícil de todos, e outros riscos. Uma vida sem liberdade, dignidade e justiça — e ainda ter que confiar em alguém que já nos atacou duas vezes”, disse Zelensky.
O presidente ucraniano também pediu união ao povo ucraniano e acrescentou que ele trabalhará para alcançar uma paz digna, em colaboração com a Europa e os Estados Unidos. “Não traímos a Ucrânia em fevereiro de 2022 e não o faremos agora”, completou Zelensky.
A Casa Branca defende que a resolução é boa tanto para Moscou quanto para Kiev. “Não vou discutir os detalhes deste plano, pois ele está em andamento e sujeito a mudanças, mas o presidente o apoia. É um bom plano tanto para a Rússia quanto para a Ucrânia, e acreditamos que ele deva ser aceitável para ambos os lados, e estamos trabalhando arduamente para concretizá-lo”, disse a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt.
Já o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que a Rússia não recebeu oficialmente o plano de paz de 28 pontos da administração dos Estados Unidos. Sem entrar em detalhes, ele disse que o Moscou deseja que as negociações sobre a Ucrânia sejam bem-sucedidas e, portanto, a Rússia não as conduzirá “de forma ostensiva”.
O que diz o plano de Trump?
Entre os termos dedicados à situação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o plano de paz prevê que seja realizado um diálogo entre a Rússia e a aliança militar ocidental, mediado pelos EUA, para resolver todas as questões de segurança e criar condições para a redução da escalada, “a fim de garantir a segurança global e ampliar as oportunidades de cooperação e desenvolvimento econômico futuro”.
O documento propõe a limitação das Forças Armadas da Ucrânia a 600 mil militares e estabelece que o país receberá “garantias de segurança confiáveis”. No entanto, o plano não dá detalhes como seriam estas garantias, apenas afirma que, se Moscou invadir a Ucrânia novamente, além de uma “resposta militar robusta e coordenada”, todas as sanções contra o país serão restabelecidas.
Ao mesmo tempo, a proposta estabelece que a Ucrânia concorda em consagrar em sua Constituição que não ingressará na Otan, e a organização concorda em incluir em sua carta uma cláusula declarando que a Ucrânia não será admitida [na aliança] no futuro.
Disputa territorial e sanções
A proposta de Trump prevê que as regiões da Crimeia, Lugansk e Donetsk sejam reconhecidas como território russo, inclusive pelos EUA. Já as regiões de Kherson e Zaporozhzhye — que foram anexadas pela Rússia em 2022, mas não são plenamente controladas por Moscou — seriam divididas a partir da atual linha de contato no campo de batalha.
Neste caso, a Rússia renunciaria territórios capturados que controla fora das quatro regiões ucranianas e da Crimeia. Já a Ucrânia retirará tropas da parte da região de Donetsk que atualmente controla, formando nessas áreas uma zona de segurança (ou “zona tampão”) sob o controle russo.
No que diz respeito às sanções contra a Rússia, o documento sugere que Moscou seja gradualmente reintegrada à economia internacional com uma parcial suspensão das restrições econômicas. A reabilitação da economia russa no cenário mundial contaria com um convite para Moscou se reintegrar ao G8.
Além disso, os US$ 100 bilhões em ativos russos que atualmente estão congelados pelos países do Ocidente seriam investidos na reconstrução da Ucrânia, com os EUA recebendo 50% dos lucros. A Europa contribuiria com outros US$ 100 bilhões. O plano também prevê que os ativos russos congelados restantes sejam investidos em um fundo de investimento EUA-Rússia e usados para projetos conjuntos.
O acordo também estabeleceria eleições na Ucrânia 100 dias após a assinatura. Com todas as partes concordando com o plano de paz e assinando o documento, o cessar-fogo entrará em vigor imediatamente.
