A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) em Belém (PA) ampliou a participação popular e levou pautas periféricas, indígenas e quilombolas para as negociações climáticas. Mas não conseguiu frear o peso das grandes corporações e das potências que atuam para bloquear decisões centrais, especialmente o fim dos combustíveis fósseis, denunciou o ativista climático Matheus Fernandes, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Segundo ele, a conferência realizada no Brasil mobilizou setores sociais como não se via desde as primeiras COPs. “Essa foi uma COP prometida como a COP da verdade”, afirma. Fernandes celebra que o encontro marcou o retorno da Marcha Global, ampliou a presença de povos tradicionais e tornou a Green Zone “um espaço, de fato, popular e de democratização da temática de meio ambiente”. Ainda assim, critica que “a verdade está na mão da população, do povo”, enquanto os resultados oficiais permanecem insuficientes.
O ativista aponta que, apesar da força dos movimentos, a estrutura da COP continua pouco permeável à sociedade civil. “Não podemos esquecer que estamos falando de um processo das partes, um processo que foi historicamente construído, não pensando diretamente nesse apelo popular”, diz. A limitação de credenciais por organização, segundo ele, afetou principalmente movimentos de base do Sul Global.
Lobby de empresas
As críticas ao peso das corporações no processo diplomático se repetiram durante toda a conferência. “Essa conferência, primeiramente, precisa ser um movimento anticapitalista; falar de justiça climática, sobre justiça racial e, principalmente, social”, defende.
Ele afirma que o ambiente da COP se tornou “um grande negócio, corporação, network”, com forte presença de empresas como Vale e Petrobras. “Empresas têm índices muito grandes prejudiciais dentro da pauta de meio ambiente e, mesmo assim, estão ali com dinheiro e trazendo sempre a sua pauta”, caracteriza.
Fernandes lembra que, enquanto delegações discutiam financiamento no Brasil, a Arábia Saudita e os Estados Unidos realizaram reuniões paralelas em Nova York, nos Estados Unidos, minando decisões centrais. Para resumir o cenário, ele cita a frase do sindicalista e ativista Chico Mendes (1944-1988): “Ecologia sem luta de classe é jardinagem”.
Combustíveis fósseis
O ponto mais crítico, segundo o ativista, foi a exclusão da proposta de eliminação dos combustíveis fósseis do texto final. “Saímos de uma COP sem a inclusão no texto do fim dos combustíveis fósseis”, lamenta. Ele recorda que países latino-americanos, especialmente a Colômbia, estavam preparados para defender a medida em plenária, mas foram barrados.
A presidência da COP30 apresentou um “mapa dos caminhos” para manter o tema vivo ao longo do próximo ano, mas Fernandes alerta para o risco de um adiamento contínuo. A primeira conferência paralela pelo fim dos fósseis, marcada para 27 e 28 de abril de 2026, reunirá 80 países e é vista por ele como um espaço decisivo para pressionar a agenda oficial.
Falta voz e financiamento
Para o ativista, “o movimento social já tem soluções prontamente para serem aplicadas, mas seguimos com o mesmo desafio, que é ter dinheiro e também voz dentro dessas discussões”, afirma. Ele destaca a importância das experiências apresentadas na COP por povos da Amazônia e organizações de base, com foco em território, demarcação, adaptação e justiça climática.
Mesmo com frustrações, Fernandes defende que a mobilização popular da COP Amazônica terá um impacto no futuro. “Saímos de uma COP com uma expectativa muito grande. Os problemas não foram resolvidos ainda, e seguimos nessa luta”, declara.
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