sem compromisso

Texto final da COP30 frustra pela ausência de metas para eliminar combustíveis fósseis, aponta pesquisador

Presidência criou fundo para florestas e prometeu implementar caminhos para transição, apesar do recuo no texto final

No audio source provided.
Presidente da COP, André Corrêa do Lago, abraça ministra Marina Silva no encerramento da COP30
Presidente da COP, André Corrêa do Lago, abraça ministra Marina Silva no encerramento da COP30 | Crédito: Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR

A ausência de um compromisso explícito com a eliminação dos combustíveis fósseis no documento final da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) marcou negativamente o balanço da conferência.

Para Ricardo Baitelo, gerente de programas do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), a omissão já era esperada diante das resistências geopolíticas, mas mantém a urgência por iniciativas concretas fora do texto oficial.

“Tendemos a concordar que o texto final deixou a desejar, é um texto sem afirmações fortes da necessidade que o mundo tem de reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, afirmou, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. Segundo ele, o papel da presidência brasileira, que ainda tem um mandato de 50 semanas, será determinante para compensar o recuo diplomático.

Baitelo destacou, por outro lado, que o presidente da COP, André Corrêa do Lago, se comprometeu publicamente a implementar mecanismos de transição para além dos combustíveis fósseis e para reduzir o desmatamento. “Já tivemos a criação de um fundo para florestas, ou seja, uma iniciativa fora dessa necessidade do consenso”, disse, citando a expectativa por novas ações até abril, quando a Colômbia sediará a conferência inédita sobre transição dos combustíveis fósseis.

O texto final da COP30 prevê triplicar o financiamento global para adaptação até 2035, mas Baitelo alerta que o valor seguirá muito abaixo das necessidades. “Os recursos para adaptação nunca vão ser suficientes, assim como os recursos para mitigação”, apontou. O pesquisador lembrou que, no último ano, apenas uma fração dos US$ 1,3 trilhão pedidos foi viabilizada em razão da competição com crises econômicas, prioridades militares e agendas domésticas. “A adaptação sofre historicamente de estar sempre atrás, sempre despriorizada”, lamentou.

Participação popular

A COP30 também ficou marcada pelo retorno das mobilizações sociais em um país democrático, após três edições em regimes não democráticos. Para Baitelo, isso trouxe avanços simbólicos importantes. “Tivemos a volta da Marcha [pelo Clima] depois de muitos anos, foi um dos momentos mais emblemáticos dessa COP”, opinou. Ele destacou ainda que a Cúpula dos Povos recebeu a presidência da conferência para entregar as reivindicações sociais.

Ele também mencionou conquistas específicas, como, “no caso dos afrodescendentes, a primeira vez que eles foram reconhecidos em quatro dos textos finais da COP, isso é bastante importante”. Apesar disso, o pesquisador lembrou que o espaço oficial continuou restrito. “Em termos do ambiente formal de negociação, ele continua bastante exclusivista, restrito às próprias delegações”, indicou.

Atuação do IEMA

O Iema participou de mesas e debates em diferentes pavilhões, tratando de obstáculos técnicos, econômicos e sociais da transição energética. “Foram discussões muito boas, tentando trazer essa problemática, o que precisamos para fazer a transição”, resumiu Baitelo. Ele destacou que mesmo energias limpas, como eólicas e solares, têm gerado impactos sociais e ambientais que precisam ser considerados.

O instituto levou relatórios e pesquisas voltados para orientar decisões públicas e fortalecer o controle social. “Fazemos relatórios e pesquisas para que eles sejam apropriados pela população, pelos tomadores de decisão e pelos impactados desses empreendimentos”, explicou.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

|

Newsletter