A ausência de um compromisso explícito com a eliminação dos combustíveis fósseis no documento final da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) marcou negativamente o balanço da conferência.
Para Ricardo Baitelo, gerente de programas do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema), a omissão já era esperada diante das resistências geopolíticas, mas mantém a urgência por iniciativas concretas fora do texto oficial.
“Tendemos a concordar que o texto final deixou a desejar, é um texto sem afirmações fortes da necessidade que o mundo tem de reduzir as emissões de gases de efeito estufa”, afirmou, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. Segundo ele, o papel da presidência brasileira, que ainda tem um mandato de 50 semanas, será determinante para compensar o recuo diplomático.
Baitelo destacou, por outro lado, que o presidente da COP, André Corrêa do Lago, se comprometeu publicamente a implementar mecanismos de transição para além dos combustíveis fósseis e para reduzir o desmatamento. “Já tivemos a criação de um fundo para florestas, ou seja, uma iniciativa fora dessa necessidade do consenso”, disse, citando a expectativa por novas ações até abril, quando a Colômbia sediará a conferência inédita sobre transição dos combustíveis fósseis.
O texto final da COP30 prevê triplicar o financiamento global para adaptação até 2035, mas Baitelo alerta que o valor seguirá muito abaixo das necessidades. “Os recursos para adaptação nunca vão ser suficientes, assim como os recursos para mitigação”, apontou. O pesquisador lembrou que, no último ano, apenas uma fração dos US$ 1,3 trilhão pedidos foi viabilizada em razão da competição com crises econômicas, prioridades militares e agendas domésticas. “A adaptação sofre historicamente de estar sempre atrás, sempre despriorizada”, lamentou.
Participação popular
A COP30 também ficou marcada pelo retorno das mobilizações sociais em um país democrático, após três edições em regimes não democráticos. Para Baitelo, isso trouxe avanços simbólicos importantes. “Tivemos a volta da Marcha [pelo Clima] depois de muitos anos, foi um dos momentos mais emblemáticos dessa COP”, opinou. Ele destacou ainda que a Cúpula dos Povos recebeu a presidência da conferência para entregar as reivindicações sociais.
Ele também mencionou conquistas específicas, como, “no caso dos afrodescendentes, a primeira vez que eles foram reconhecidos em quatro dos textos finais da COP, isso é bastante importante”. Apesar disso, o pesquisador lembrou que o espaço oficial continuou restrito. “Em termos do ambiente formal de negociação, ele continua bastante exclusivista, restrito às próprias delegações”, indicou.
Atuação do IEMA
O Iema participou de mesas e debates em diferentes pavilhões, tratando de obstáculos técnicos, econômicos e sociais da transição energética. “Foram discussões muito boas, tentando trazer essa problemática, o que precisamos para fazer a transição”, resumiu Baitelo. Ele destacou que mesmo energias limpas, como eólicas e solares, têm gerado impactos sociais e ambientais que precisam ser considerados.
O instituto levou relatórios e pesquisas voltados para orientar decisões públicas e fortalecer o controle social. “Fazemos relatórios e pesquisas para que eles sejam apropriados pela população, pelos tomadores de decisão e pelos impactados desses empreendimentos”, explicou.
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