Apesar da importância da Bahia na vitória eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a 22ª edição da Caminhada da Liberdade, realizada em Salvador (BA) na última quinta-feira (20), Dia da Consciência Negra, não contou com o apoio estrutural do governo federal. “Pelo terceiro ano consecutivo, não conseguimos ter apoio. Tenho certeza que o presidente Lula não está sabendo que seus auxiliares não estão dando à Bahia a importância devida”, apontou o presidente do Fórum de Entidades Negras da Bahia (Fenaba), Raimundo Bujão.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele citou a repercussão nacional da homenagem à atriz Zezé Motta em 2023 e reiterou que a Caminhada é hoje “a maior manifestação do país no 20 de Novembro”. “Estamos celebrando o feriado que o presidente Lula sancionou. E, no entanto, seus auxiliares não conseguem entender, inclusive, o presidente da Fundação Cultural Palmares [João Jorge Rodrigues], a importância que nós temos enquanto povo negro nesse país”, criticou.
O presidente do Fenaba ressaltou o papel histórico dos blocos afro na formação identitária do povo negro. “A maior contribuição do Brasil para a afirmação da identidade e da cultura são os blocos afros”, afirmou. Segundo ele, ignorar esse legado é um erro político grave. “Cegar-se para o papel dos blocos afros é uma cegueira que não podemos deixar continuar”, defendeu.
Na avaliação de Bujão, não há democracia sem a contribuição central do povo negro, especialmente no Nordeste, onde o PT costuma ter maioria de votos. “Quem sustenta o projeto da esquerda é a população negra”, afirmou. Por isso, ele reforçou que espera uma mudança de postura do governo federal. “Espero que o presidente Lula chame a atenção dos seus auxiliares para essa indiferença com a Bahia”, declarou.
Edição mais surpreendente
A 22ª Caminhada da Liberdade foi marcada por um forte simbolismo político e uma homenagem internacional. Bujão conta que, apesar da ausência de apoio do governo federal, a mobilização deste ano foi “a edição mais surpreendente” da história do ato.
Segundo ele, mesmo sob um “aguaceiro inimaginável”, mais de 15 mil pessoas acompanharam o cortejo que saiu do Ilê Aiyê, no bairro do Curuzu, até o Pelourinho. “A chuva não foi capaz de tirar o brilho, nem interromper a nossa trajetória. As pessoas estavam ali em uma missão”, disse. Bujão destacou que, enquanto shows de artistas foram cancelados em Salvador, a Caminhada seguiu sem interrupção.
A figura do presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré, foi o centro das homenagens deste ano, com repercussão internacional. “A figura de Ibrahim Traoré atraiu as atenções para além do que nós imaginávamos”, disse Bujão, que ressaltou o impacto do lema “Descolonizar a África e libertar o Brasil”. “Foi um tema extremamente contagiante, enriquecedor, e as pessoas realmente atenderam nosso chamado”, celebrou.
Para ele, a luta burquinense contra o domínio externo das riquezas africanas tem um paralelo direto com o Brasil. “Somos a maioria da população encarcerada, desempregada e em condições frágeis de vida. Isso tem tudo a ver com o histórico da escravidão”, comparou. O dirigente relatou inclusive que pessoas de outros países viajaram a Salvador motivadas pelo tema, citando um encontro no local com um casal vindo do Vietnã.
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