O júri popular de Leo Luiz Ribeiro foi adiado depois que os advogados de defesa abandonaram o tribunal. Acusado de atropelar e matar Luís Ferreira da Costa, de 72 anos, durante uma manifestação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Valinhos, no interior paulista, Ribeiro seria julgado na última quarta-feira (26). A sessão foi reagendada para março de 2026.
Os advogados de defesa deixaram a sessão por discordarem da decisão da Justiça, que não permitiu a exibição de fotografias e vídeos, segundo informações do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP). O material havia sido juntado sem a antecedência prevista no artigo 479 do Código de Processo Penal.
Para o MST, no entanto, o conteúdo audiovisual teria a intenção de criminalizar o movimento para manipular a opinião pública. Integrante da direção estadual do MST em São Paulo, Gerson Oliveira informa que há, em Valinhos, uma articulação de políticos locais que atuam para promover a criminalização.
“Queriam que o júri validasse um conjunto de vídeos e imagens que apresentariam o MST como organização criminosa e que atropelamentos são acidentes corriqueiros. É como se o seu Luís merecesse morrer por ser trabalhador sem terra”, diz.
Em outubro, vereadores da cidade aprovaram uma moção de repúdio ao MST. Proposta pelo vereador Rafa Marques (PL), a manifestação informa que “Câmara Municipal expressa seu repúdio às ações do MST e declara o referido movimento como persona non grata no território de Valinhos”.
No dia do júri, cerca de 30 militantes organizaram uma manifestação diante do Fórum de Valinhos, para promover diálogo com a sociedade sobre os conflitos agrários e a lentidão na reforma agrária, segundo o MST.
“Chamamos todos e todas que se indignaram diante desse brutal assassinato para manifestar apoio durante o Tribunal do Júri para condenar Léo Ribeiro, réu confesso do trabalhador sem terra Luís Ferreira, e que aguarda em liberdade”, informava publicação no site oficial do movimento.
Seu Luís, como era conhecida a vítima, morava no acampamento Marielle Vive, em Valinhos, e foi atropelado em julho de 2019, durante uma manifestação pelo fornecimento de água e assistência escolar e de saúde para os acampados. Na ocasião, outras cinco pessoas ficaram feridas.
Após o crime, Ribeiro fugiu do local sem prestar socorro às vítimas. Ele foi preso em Atibaia (SP), a cerca de 60 quilômetros de Valinhos, após ter o carro identificado a partir de um vídeo gravado durante o atropelamento.
Em depoimento à Polícia Civil, que durou duas horas, o acusado alegou que acelerou a caminhonete por medo. A versão é contestada pelo MST, que alerta tratar-se de um crime intencional, e não um acidente, como argumenta a defesa.
Um dos vídeos incluídos no processo mostram exatamente o contrário da tese de acidente. Nas imagens, o carro avança sobre uma multidão de manifestantes, repentinamente freia e, quando há pessoas passando na frente do carro, entre eles, a vítima, o réu acelera e atinge com violência Luís.
Seu Luís tinha oito filhos, trabalhava como pedreiro e era aluno, prestes a se formar, na escola de alfabetização de jovens e adultos que funcionava no acampamento.
“Teve seu sonho arrancado, sua vida atrapalhada e não teve o direito do acesso à terra”, lamenta Kelvin Nicolas, da direção estadual do MST em São Paulo, em vídeo publicado no Instagram.
O Brasil de Fato tentou contato com os advogados de defesa de Léo Luiz Ribeiro, mas até o fechamento da reportagem, não houve retorno. O espaço segue aberto à manifestação.
