Editorial

Quem diria, finalmente o Brasil aprendeu a punir o golpismo

Num país marcado por 21 anos de ditadura, prender altos militares por tentativa de golpe é também honrar os que lutaram

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O ex-presidente Jair Bolsonaro
O ex-presidente Jair Bolsonaro | Crédito: Sergio Lima/AFP

Esta semana premiou o Brasil com um fato inédito e que já entrou para a história: a prisão de militares, generais de alta patente e de um ex-presidente da República por atentarem contra a democracia. 

Com o fim da ação penal sobre o núcleo crucial da trama golpista, o ministro relator do caso, Alexandre de Moraes, determinou o início do cumprimento de pena dos oito condenados por fazerem parte de uma organização criminosa que tramou mais um golpe de Estado. 

Não demorou muito para as prisões começarem a acontecer. Os generais Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira foram presos pelo próprio Exército e levados ao Comando Militar do Planalto, em Brasília (DF). Almir Garnier, almirante, a uma estação da Marinha. Braga Netto continuou onde estava, no comando da 1ª Divisão de Exército, no Rio de Janeiro (RJ). 

Entre os civis do grupo, Anderson Torres, ex-ministro da Justiça, foi passar uma temporada na Papuda. Já Alexandre Ramagem fugiu para os Estados Unidos, e a PF já está providenciando seu pedido de extradição

Finalmente, Jair Bolsonaro, o chefe da quadrilha, permaneceu onde estava desde sábado (22), quando foi preso preventivamente pela Polícia Federal por tentar violar a tornozeleira eletrônica. Mas essa é outra história.

Após a audiência de custódia, todas as prisões foram mantidas e confirmadas em plenário virtual pelos ministros da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) por unanimidade. É o fim. 

Para um país que viveu 21 anos de sombras sob um regime militar assassino, a prisão, pela primeira vez na história, de altos funcionários militares, que traíram seu mandato constitucional em nome de um projeto de poder e atentaram contra a democracia brasileira, será dedicada sempre aos que tombaram pelo caminho, como Rubens Paiva e Vladimir Herzog, e aos que resistiram com bravura e coragem inimagináveis para viver hoje esse momento histórico. 

A montanha pariu um rato e o general agora finge demência

Meti um ferro quente”, disse o capitão, ao ser flagrado com as calças curtas, prestes a fugir. “Curiosidade”, completou com voz sóbria, incomum ao tom histriônico do paciente. E detalhe: sem soluçar. 

Após cobrar um pouco mais de juízo, contou para a PF que estava sob efeito de remédios, mas a história não colou; Bolsonaro terá agora que cumprir os 27 anos e três meses de prisão, para os quais foi condenado. 

De outro lado, famoso por não ter papas na língua e por dizer o que pensa, o todo-poderoso general Augusto Heleno revelou que tem Alzheimer, um transtorno neurodegenerativo progressivo e fatal que se manifesta pela deterioração cognitiva e da memória. 

Longe de ser algo incomum para senhores de idade avançada e com hábitos não muito saudáveis, o que chamou a atenção foi a revelação de que o diagnóstico teria sido confirmado em 2018, antes mesmo de virar o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) de Bolsonaro.

A imagem de um senhor frágil e desmemoriado contrasta com a do ministro, que, em frente às câmeras, disse que era hora de “virar a mesa antes das eleições”, em evidente demonstração do espírito golpista que ocupou o Planalto entre 2019 e 2023, como o próprio STF afirma.

Foi na quarta-feira (26), durante cerimônia no Palácio Planalto para sancionar a lei que amplia a faixa de isenção do Imposto de Renda (IR), que o presidente falou pela primeira vez sobre as prisões dos condenados pela tentativa de golpe. 

“Esse país ontem deu uma lição de democracia ao mundo”, disse o presidente. “Democracia não é privilégio de ninguém, é um direito de 215 milhões de brasileiros. Portanto, eu estou feliz, não pela prisão de ninguém, estou feliz porque esse país demonstrou que está maduro para exercer a democracia na sua mais alta plenitude” completou.

Enquanto isso, as peças do xadrez da direita se movimentam como nunca para definir quem será o herdeiro ou herdeira do capital político do capitão que, embora desgastado, mantém meia dúzia de gatos-pingados na porta da Superintendência da Polícia Federal em Brasília. 

“Este é um momento em que a direita está em uma crise hegemônica porque aquele que era o polo hegemônico, que orientava, ainda que de maneira errática, porque Jair Bolsonaro nunca foi um estrategista, nunca foi alguém com trânsito entre os outros parlamentares”, analisou a cientista política e professora da UFRJ, Mayra Goulart, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Editado por: Rafaella Coury

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