VOZES ORIGINÁRIAS

Raul Ellwanger apresenta Cantata Sete Povos nesta segunda (1º) no Clube de Cultura em Porto Alegre

Suíte popular de 12 canções narra a saga dos Guarani e padres jesuítas nos séculos 17 e 18 nas Missões

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O espetáculo integra a programação do projeto A Voz da Aldeia, que alia cultura e solidariedade, com foco na cultura dos povos Mbyá Guarani e apoio à comunidade Tekoa Pekuruty
O espetáculo integra a programação do projeto A Voz da Aldeia, que alia cultura e solidariedade, com foco na cultura dos povos Mbyá Guarani e apoio à comunidade Tekoa Pekuruty | Crédito: Luiz Ávila

O Clube de Cultura, em Porto Alegre, recebe nesta segunda-feira (1º), às 20h, a apresentação da Cantata Sete Povos, uma suíte composta pelo músico gaúcho Raul Ellwanger (compositor, cantor e violonista), com a participação de Thiago Colombo (violão).

O espetáculo integra a programação do projeto A Voz da Aldeia, que alia cultura e solidariedade, com foco na cultura dos povos Mbyá Guarani e apoio à comunidade Tekoa Pekuruty, duramente atingida pela enchente de maio de 2024.

O projeto A Voz da Aldeia foi aprovado pelo edital emergencial da Lei Rouanet RS, dentro do Programa Retomada Cultural RS, do Ministério da Cultura, e conta com o patrocínio do Itaú Unibanco. A iniciativa busca promover a rica cultura dos povos Mbyá Guarani, com ênfase na comunidade Tekoa Pekuruty, localizada em Eldorado do Sul, às margens da BR 290, que sofreu o impacto direto da enchente.

Programação solidária

O evento no Clube de Cultura (Rua Ramiro Barcelos, 1853 – Bom Fim) reúne exposição, apresentação musical e roda de conversa. A programação inicia às 17h, com exposição e venda de artesanato Mbyá Guarani.

O acesso ao espetáculo se dá por meio do ingresso solidário no valor de R$ 30,00, que será destinado integralmente para as aldeias participantes do projeto.

Após o show, haverá a roda de conversa “A situação dos Povos Indígenas no RS”. O painel contará com a participação de lideranças Mbyá Guarani e Kaingang, além de professores/as das escolas das aldeias.

A Obra: Cantata Sete Povos

A Cantata Sete Povos é uma suíte popular de 12 canções que narra a saga das comunidades Guarani e padres jesuítas nos séculos 17 e 18, na região das “Misiones”, no noroeste do atual Rio Grande do Sul.

O roteiro é formatado como 12 “cenas históricas”, em uma arquitetura de canções independentes que se unem para formar um arcabouço claro e pedagógico. As canções descrevem a infância, o trabalho, as crenças, as contradições, a interação entre europeus e americanos, a resistência de indígenas e curas, as batalhas e as longas heranças deixadas, que são uma raiz fundadora de toda a região do rio da Prata e Uruguai.

Entre as doze canções estão: Invocação Guarani, Indiozinho Sepé, Réquiem da Traição, Chacina do Caiboaté e Brado Guarani.

Musicalmente, a Cantata inspira-se em ritmos sul-americanos, como toadas, milongas, chacareras e chimarritas. A composição se afasta de gêneros folclóricos exclusivamente brasileiros, em reconhecimento ao fato de que a saga sociocultural abrangia o âmbito americano em seu conjunto. A obra também encontra inspiração na tradição da Misa Criolla de Ariel Ramirez, na Missa Luba e na Missa da Terra Sem Males, de Dom Pedro Casaldáliga, bem como na própria forma suíte da música erudita.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato RS, com Raul Ellwanger fala mais sobre a criação da Cantata Sete Povos.

Brasil de Fato RS: A Cantata Sete Povos é descrita como uma suíte que retrata a saga dos Guarani nas Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul entre os séculos 17 e 18. O que te motivou a focar especificamente nesse período de 1680 a 1755?

Raul Ellwanger: A partir de 1680 é quando os Guarani conseguem ter um pouco de paz e tempo para tentar realizar a utopia sua e dos jesuítas, com a diminuição da atividade dos bandoleiros paulistas, escravagistas.

Eles tiveram tempo de trabalhar, construir, plantar, estudar, tocar alaúde, e ter a sua vida normal, depois de muitos anos de perseguições e de um exílio completo que tiveram que fazer, voltando para a região da Argentina e cruzando o rio Uruguai.

A obra musical de Raul Ellwanger refere-se ao período entre 1682 e 1756, no qual os jesuítas expandiram sua evangelização pela região central da América do Sul | Crédito: Foto: Luiz Ávila

Este é o período em que eles realmente materializam um projeto social, econômico, cultural e religioso. Isso me serviu de parâmetro para delimitar essa saga, que é muito maior do que simplesmente esses anos, mas ali se sintetiza um começo, um crescimento, a plantação, o gado, a cultura, as roupas, os amores, e as ironias com os padres.

Eles estavam perfeitamente normais e se tornando inclusive uma certa potência econômica, até ocorrer uma coisa completamente alheia e estranha: uma decisão daqueles impérios ibéricos de mandá-los de volta para o outro lado do rio Uruguai. Por não obedecerem, eles foram massacrados por esses impérios.

Como foi concebida a narrativa para encaixar temas tão específicos e dramáticos como Réquiem da Traição e Chacina do Caiboaté dentro desse arcabouço de canções independentes?

A arquitetura da cantata foi feita de uma maneira bem misteriosa para mim, pois eu não tinha nenhum plano ou corte temporal específico para cada assunto. Simplesmente me entreguei totalmente à inspiração. Tampouco foi uma coisa cronológica.

Cada momento ou episódio mais dramático ou interessante foi me chamando a atenção. Por exemplo, as ironias que há na canção O Homem de Roma, que mostra o espanto do indígena ante os hábitos daqueles religiosos, que não gostam de namorar, não gostam de tomar aguardente, e não tomam banho.

Até agora me surpreende muito como a obra foi se armando. No fim, eu acho que formou um bom painel, um bom leque, quase um visual com cenas, uma espécie de episódios cênicos que dão sentido. Aí sim, no fim eu tive que buscar uma cronologia: botei o menino no começo, botei o chefe militar mais para o fim. Parece que deu certo, deu uma liga, e a cantata involuntariamente teve começo, meio e fim.

As 12 canções da cantata inspiram-se em ritmos sul-americanos, incluindo toadas, milongas, chacareras e chimarritas, e em tradições como a Misa Criolla de Ariel Ramirez e a Missa Luba. Como foi o processo de integrar esses ritmos e formas musicais?

Já no barroco europeu, a forma cantata, assim como a suíte, baseava-se em danças populares, como a country dance (que virou a contradança) ou o scotch (que virou o nosso xote gaúcho e nordestino).

Pensando nos indígenas da nossa América Latina e em toda a influência que eles tiveram, juntamente com as populações africanas, na nossa música popular, rítmica, dança, sensualidade e poesias, eu pensei em fazer algo que abrangesse um pouco dessa riqueza musical da América Latina.

Não fiz um ensaio técnico, dizendo “isto aqui é um chamamé, isto aqui é uma milonga”. Chamamos isso de aires: um ar de milonga, um ar de chimarrita. São várias linguagens, algumas muito velhas, que são um privilégio que a gente tenha por que vêm de muitas origens, como a chimarrita, que é portuguesa, não sendo nem africana nem sul-americana.

Essa variedade rítmica e misturada nos enriquece e permitiu que a cantata tivesse momentos mais dramáticos, mais meditativos, mais guerreiros, ou algum momento mais devocional, como a invocação aos deuses no começo. Tentei que a música refletisse o conteúdo daqueles quadros e episódios, por exemplo, a Batalha de Caiboaté, que tem essa melancolia da milonga gaúcha.

A obra é muito inspirada na Missa Crioula, na Cantata Santa Maria de Iquique do Chile, e na Missa dos Quilombos do Brasil, de Dom Pedro Casaldáliga. A ideia foi que a variedade musical e estilística servisse para acentuar o conteúdo das letras.

A gravação da Cantata Sete Povos em CD incluiu partituras e cifras completas para quinteto e contou com músicos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA). Qual é o principal objetivo de disponibilizar essa amostra com partituras e cifras completas? Foi para incentivar novas montagens ou adaptações?

Tanto no meu site quanto no CD físico, a cantata está disponibilizada com todos os arranjos das 12 canções para cada um dos instrumentos delas. São mais de 70 partituras baixáveis em PDF para que a cantata possa ser tocada e cantada por qualquer formação.

Está a cifra básica (que pode ser tocada no piano, violão ou harpa), a partitura de cada instrumento que fez os arranjos, a melodia com sua letra subdividida, e a cifra harmônica. A intenção é que ela seja tocada, que seja difundida. Por exemplo, que uma escola de Ijuí ou um grupo coral de Jaguarão possam baixá-la, imprimir e começar a tocar.

Eu procurei fazer uma coisa bonita, cantável, agradável e que tivesse uma grande função didática. As canções são completamente independentes e valem por si mesmas.

Essa foi a intenção: que a obra se difunda e se multiplique. Eu espero que, agora, nos 400 anos (no ano que vem), a cantata seja incorporada por entidades musicais, universidades e prefeituras, para que possa divulgar e ajudar na educação dos jovens sobre a nossa história, uma parte muito ocultada e cheia de preconceitos.

Quais são os principais desafios em apresentar a Cantata Sete Povos por uma orquestra e como essa adaptação permitirá sua utilização que vão desde pequenos eventos didáticos até apresentações em grandes cenários?

A Cantata Sete Povos está baseada numa lógica da simplicidade. É uma música descritiva e didática. Ela quer contar essa história, considerando que não existe nenhuma obra que tente fazer isso.

Como ela já tem os arranjos escritos, a adaptação para uma orquestra sinfônica é simples: a voz que nos arranjos está para um violino pode ser tocada por vários violinos. É uma questão apenas de dimensão e tamanho.

Seria muito lindo se a OSPA ou a Orquestra da ULBRA, por exemplo, tomassem e executassem esta obra, convidando cantores, e também fizessem outros arranjos ou adaptassem os existentes. A obra foi formatada para se adaptar a diferentes formatos, podendo ser utilizada desde pequenos eventos didáticos até apresentações em praças públicas e grandes cenários.

Escrito e dirigido por Omar L. Barros Filho, a partir de argumento de Paulo de Tarso Riccordi, o projeto da Cantata Sete Povos é uma realização do Instituto Latinoamerica | Crédito: Foto: Luiz Ávila

Não há nenhum protagonismo da minha parte; esta é uma obra que, modestamente, é um presente que estou dando. Estou procurando devolver ao meu estado os privilégios que tive na minha educação, no meu percurso, na minha música, e todos os aprendizados no Brasil, Chile, Argentina e Uruguai, colocando isso à disposição da comunidade musical e cultural.

Não há um grande desafio. Há um trabalho a fazer que, para os músicos, é normal e natural: adaptar as cinco partituras de cada canção para formações maiores ou diferentes. A melodia, a harmonia e a letra, essas não dá para mexer. Mas as demais partes, canções e estilos, que floresçam mil flores, que outras coisas se somem à Cantata Sete Povos – aqui temos cantatas de 700 povos.

Como se dá a união da Cantata Sete Povos, que trata da história das Missões no passado, com o foco atual na solidariedade e na situação da comunidade Mbyá Guarani Tekoa Pekuruty?

Eu opino que nós, os brasileiros, temos uma grande dívida histórica com os escravizados africanos e com os indígenas. As comunidades continuaram carregando preconceitos, estigmas, carências e deficiências, mesmo após o fim da escravidão mais brutal.

É admirável que, ao longo dos séculos, eles tenham conseguido manter suas culturas, sabedoria, música, medicina, religiões, cantorias, hábitos alimentares e agricultura. Essa é uma conquista histórica maravilhosa que esses povos oprimidos conseguiram fazer ante uma civilização brutalmente destrutiva, como foi principalmente o Império brasileiro e a Colônia Portuguesa.

Ao observar situações de penúria que eu e a equipe visitamos em São Miguel, Lomba do Pinheiro e Eldorado hoje, e comparando isso com o fulgor e o esplendor que foi a civilização guaranítica no Rio Grande do Sul, aumenta-se esse doloroso respeito por aqueles que lutaram por essas culturas e ainda conseguem manter suas identidades, seus sonhos e sua busca das terras sem males.

Se a cantata servir para orientar, educar e mostrar isso na realidade atual, ela já cumpriu sua função. Tupã, Ñanduá, Jesus Cristo, os jesuítas, todas as religiões, todos os poderes e todos os orixás continuam velando pelas comunidades que o Brasil herdou e que são um privilégio dentro do nosso leque cultural hoje.

Editado por: Marcelo Ferreira

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