Mais do que a forma, o que devemos olhar com atenção na eleição de Zohran Mamdani à Prefeitura de Nova Iorque é o conteúdo de sua campanha. Sim, ele soube usar bem a rede social do momento. Mas, sobretudo, ele soube ouvir as demandas das pessoas. Mamdani colocou no debate político as questões que apertam o calo da população novaiorquina: inflação alta dos aluguéis, políticas de suporte à economia do cuidado e acesso ao transporte público de qualidade.
E vou além: Mamdani acertou não só porque ele disse o que devia ser dito, mas porque ele mobilizou a população — e não foi só na internet, foi também nos sindicatos, nas ruas e nos grupos de representação. Ele não teve medo, nem modulou o seu discurso para que fosse palatável aos especuladores, rentistas e empresários da cidade. É tempo de reagirmos às ofensivas do mercado financeiro, que pressiona pelo lucro infinito e que jamais aceita o bem-estar social. Zohran Mamdani nos ensina a ter coragem.
A missão que nós socialistas temos no século 21 não é fácil, vivemos em um tempo de totalitarismo refinado e em que não há espaço para o contraditório. Não parece haver outra possibilidade de sociedade que não a capitalista e a desigualdade social, para muitas pessoas, parece algo realmente natural. A ponto de que qualquer proposta de implantação da menor política assistencialista nos parece utópica hoje em dia. Porém, é possível transformar a realidade, mesmo que leve tempo. É o que nos diz a eleição municipal de Nova Iorque: temos que manter o nosso ideal vivo e os corações esperançosos.
Até aqui, a minha trajetória me ensinou que as batalhas dentro da instituição sempre serão difíceis, mas que a minha principal arma é a ação coletiva. Compreendi que a mobilização não pode parar com o fim do processo eleitoral, ela deve ser contínua. Pensando nisso, encarei mais um grande desafio no último mês de outubro: pautei a Tarifa Zero na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Apresentei o PL 1518/2025, que propõe a isenção tarifária e a meta de substituir toda a frota de ônibus da cidade por veículos elétricos.
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Essa é uma caminhada árdua, mas não estou só e sei que muitas pessoas ainda se somarão a essa batalha. A Tarifa Zero não é uma utopia. Diversas cidades ao redor do mundo já tiraram o projeto do papel, é o caso de Dunquerque e Montpellier, na França; Belgrado, capital da Sérvia; Tallin, capital da Estônia; e de todas as cidades de Luxemburgo. Outras testam a política, como no caso de Nova Iorque, onde alguns bairros já têm ônibus gratuito — projeto, inclusive, proposto por Mamdani durante a pandemia na Assembleia do Estado. E as discussões avançam em Paris e Londres.
Aqui no Brasil são 170 cidades que oferecem a isenção tarifária pelo menos parcialmente. Magé, no Rio de Janeiro, Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza, e Balneário Camboriú, em Santa Catarina, são exemplos de municípios que implantaram a Tarifa Zero de forma integral, tanto no total de linhas, quanto de bairros atendidos e de dias da semana. São Paulo, Brasília e Belém, por sua vez, são casos em que as prefeituras adotaram a Tarifa Zero pelo menos em alguns dias da semana.
Com união, é possível vencermos essa batalha. Nós podemos implantar a Tarifa Zero integral, em todos os modais, em todos os bairros e horários. A isenção tarifária é justiça social, porque desonera a população (que hoje paga duas vezes pelo transporte público: via impostos e via tarifa). Mas também garante o direito à cidade e o direito de ir e vir. Chegou a hora da Tarifa Zero. Podemos fazer do Rio a vitrine do Brasil e exemplo para o mundo também pelo que temos de melhor: a nossa mobilização.
