Mobilidade urbana

Aumento do Bilhete Único Intermunicipal vai afetar prestação de serviços de saúde

Reajuste não é medida meramente técnica e modifica cotidiano dos trabalhadores

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Aumento da passagem intermunicipal
Aumento da passagem intermunicipal a partir de dezembro prejudica trabalhadores que mais dependem do transporte coletivo | Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O reajuste do Bilhete Único Intermunicipal (BUI) — que subirá de R$ 8,55 para R$ 9,40 a partir de 19 de dezembro — não é um número frio escrito no Diário Oficial. É um golpe direto no orçamento, na rotina e até na permanência dos profissionais da saúde em seus postos de trabalho. Falo especialmente da enfermagem, categoria que carrega o Sistema Único de Saúde (SUS) nas costas e que será, mais uma vez, obrigada a pagar a conta de uma política tarifária desconectada da realidade.

O governo justifica o aumento de 9,94% citando custos operacionais e equilíbrio fiscal. Mas quem equilibra a vida do técnico de enfermagem que pega três conduções para chegar ao hospital? Quem equilibra a rotina da auxiliar que troca de município entre um plantão e outro? Quem equilibra o orçamento da enfermeira que, mesmo com nível superior, luta todos os meses para garantir comida na mesa dos filhos?

Quando falamos de enfermagem, estamos falando de uma categoria que muitas vezes acumula dois empregos para sobreviver. São profissionais que podem gastar R$ 350, R$ 400 ou até mais por mês apenas para se deslocar. O aumento tarifário, portanto, não é mero ajuste: é um baque no salário, já corroído pela inflação e pela falta de valorização histórica.

E o impacto não para no bolso individual. Há um efeito silencioso — e perigosíssimo — sobre a qualidade da assistência à população. Quando o transporte fica mais caro, muitos profissionais passam a recusar plantões distantes, a reduzir cargas horárias ou até a desistir de vagas fora do seu município porque simplesmente não conseguem mais pagar para trabalhar. Isso significa escalas desfalcadas, equipes sobrecarregadas e tempo de espera maior para quem precisa de atendimento de urgência.

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Um aumento de tarifa pode parecer, ao governo, uma medida técnica. Mas na prática ele atravessa corpos cansados, jornadas exaustivas e o cotidiano de quem salva vidas diariamente. A enfermagem trabalha de madrugada, em feriados, quando todos descansam — e depende do transporte público para cumprir essa missão. Sem políticas tarifárias sensíveis à realidade desses trabalhadores, o Estado empurra a categoria para o limite, e esse limite, mais cedo ou mais tarde, estoura na ponta: no atendimento ao cidadão.

É preciso responsabilidade social na definição de qualquer reajuste. Não se pode buscar equilíbrio fiscal sacrificando exatamente quem mantém o sistema funcionando. A enfermagem já enfrenta sobrecarga, adoecimento físico e mental, assédios institucionais e uma luta permanente para garantir direitos. Colocar mais esse peso no orçamento desses profissionais é uma escolha política — e é uma escolha errada.

O que o Estado deveria estar discutindo é justamente o contrário: subsídio específico para trabalhadores essenciais, ampliação do BUI para categorias que seguram a estrutura do SUS, investimento em transporte público de qualidade e políticas que permitam que o profissional de saúde chegue ao trabalho com dignidade e segurança.

Não podemos naturalizar que quem cuida do Rio de Janeiro seja punido por políticas que não consideram a realidade do trabalho em saúde. A enfermagem não pode continuar arcando com os custos de um Estado que depende dela para existir. E eu seguirei denunciando cada retrocesso, cada ataque e cada tentativa de aprofundar desigualdades.

Cuidar de quem cuida não é slogan: é obrigação constitucional, social e moral. E esse compromisso não pode ser abandonado.

*Deputada estadual Lilian Behring (PCdoB-RJ) é enfermeira, defensora da saúde pública e da dignidade profissional

**Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Juliana Passos

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