Ensaio

A cidade das emoções desveladas

Viver é deixar que flores brotem à pele, pois à revelia do clichê, a poética urbana respira na mediocridade

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Pôr do sol em Porto Alegre
“Porto Alegre sabe ser uma amante impiedosamente doce e cruel” | Crédito: ana c.

Viver é deixar que flores brotem à pele, pois à revelia do clichê, a poética urbana respira na mediocridade.

Já tem algum tempo que a vida me pede um movimento e ─ tal qual a energia universal que move as galáxias e os desejos, eu me vejo num constante aproximar e afastar dos territórios que habito.

Na contramão da maioria das pessoas da minha idade, não procuro um lugar para ser para sempre. Cresci na fidelidade de Morais: que seja infinito, enquanto dure.

E é em clima de quem se despede que anseio viver tudo o que Porto Alegre pode me oferecer. Numa espécie de FOMO* de quem ainda não foi, antecipo as saudades, e rego as memórias que gostaria de ter. Vislumbro um futuro distante onde os encantos da capital gaúcha serão apenas uma lembrança: o manacá perfumado na esquina de casa, o som da boemia da Cidade Baixa, as cores do Guaíba no fim da tarde…

Ainda me impressiona como a cidade parece perceber que vou partir, me oferecendo pequenas doses de poesia cotidiana. Ou talvez seja a coincidência de ser verão e a presença do sol, que germina novas memórias nos dias passados aqui.

Porto Alegre sabe ser uma amante impiedosamente doce e cruel. Sensível, implacável e áspera, como um afeto que desliza no fio da navalha. Uma cidade que eu amo, e, ao mesmo tempo, odeio amar.

“Ou talvez seja a coincidência de ser verão e a presença do sol, que germina novas memórias nos dias passados aqui” | Crédito: ana c.

Tenho tateado a cidade com toda a minha pele, o que me coloca num lugar bem clichê. Me observo constantemente atestando o famoso esteriótipo da sapatão emocionada: entregue.

Não, não casei no segundo encontro. Não adotei um casal de gatos. Mas tenho derramado lágrimas desavergonhadas no meu dia a dia. Emocionada, sim. Sapatão, também.

Recentemente, fui ao teatro assistir ao Bailei na Curva, que estava em cartaz no Teatro Simões Lopes Neto. Entre o deslumbramento do espaço e a imersão tocante da narrativa, percebo que dificilmente me abandonará a aura de guria que cresceu numa cidade pequena, sem acesso à polvorosa cultural que me oferece hoje a Capital. Chorei.

Bailei na Curva
“Se o cinema é uma baba, o teatro é uma cuspida. Ali há apenas uma chance de fazer certo. E eu choro de emoção e também de admiração por quem, por mais de 40 anos aproveita as repetidas chances de o fazer arte com gosto, primor e técnica” | Crédito: ana c.

Essa cidade me transporta, diariamente, numa ponte entre passado e futuro.

Na minha infância, o mais perto que eu chegava do teatro era assistindo às propagandas das peças em cartaz na televisão. Hoje eu me levo à plateia e também ao palco e me deixo atravessar pelas artes cênicas, que me transbordam.

(Se em maio do ano passado, Porto Alegre e seus habitantes tiveram suas emoções submersas, hoje elas já podem ser desveladas para além o trauma. É preciso também transbordar os maremotos do peito)

No presente, um momento emblemático da história do nosso país, realizei um sonho de infância e assisto à produção teatral mais longeva da história da Capital.

O teatro é um tipo de magia peculiar. Simone Raslam, enquanto minha professora, uma vez, disse que, se o cinema é uma baba, o teatro é uma cuspida. Ali há apenas uma chance de fazer certo. E eu choro de emoção e também de admiração por quem, por mais de 40 anos, aproveita as repetidas chances de o fazer arte com gosto, primor e técnica.

Dei vazão às emoções ─ submersas ─ para me lavarem os olhos e o peito, num riso-choro quase incontrolável. Não sei se vocês já sentiram esse tipo de emoção numa peça, mas é algo que apenas o teatro proporciona. Uma sacudida. Um solavanco emocional. Uma ponte entre passado e presente. Uma manobra de desengasgo de algo enterrado lá no fundo.

Em recente passagem por Brasília, me surpreendeu que grande parte das produções artísticas de lá ainda versem sobre a pandemia, como uma maneira de elaboração coletiva deste trauma gigantesco. Em Porto Alegre, parece que tentamos, a todo custo, esconder os efeitos da enchente do ano passado. Como se pudéssemos maquiar a cidade, escondendo as marcas da lama, e assim também sumissem as consequências do descaso e das ausências. Sem pensar em reerguer as estruturas profundas, sem reconstruir de verdade. Apenas disfarçar o que aconteceu.

Porto Alegre precisa se entregar à sensibilização pela arte. Se permitir ser atravessada pela flecha potente da emoção, e viver a comoção genuína. Não há nada de errado em ser emocionada. Esta cidade precisa novamente de deixar tocar pelo sensível, pelo sutil, pelo encanto do que é, inclusive, rotineiro. Deixar-se chorar pelo belo, pelo sensível, pelo gracioso. Pela cor que o sol dá às flores, pelo som da roda de samba e pelo calor dos abraços.

Desvelar as emoções profundas escondidas em atos miúdos. E respirar na medianidade dos dias comuns

*FOMO: expressão em inglês para Fear of Missing Of – que signica medo de ‘ficar de fora’.

* ana c, de carolina, é comunicadora por vocação, produtora cultural por capricho e multiartista por essência. mulher lésbica, feminista e latinoamericana, escreve para dar sentido ao que sente.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Marcelo Ferreira

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