Depois de 53 anos de espera e insistência junto ao governo federal, finalmente Sônia Haas, a irmã caçula de Joao Carlos Haas Sobrinho (Doutor Juca), que foi assassinado pelas forças da repressão na região do rio Araguaia em 1972, recebeu das mãos da ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil, Macaé Evaristo, a nova certidão de óbito do João Carlos. O ato foi em Brasília, na quinta-feira (4), data comemorativa dos 30 anos da criação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).
Emocionada , Sônia Haas disse ao Brasil de Fato RS que o momento é “muito importante para a luta dos familiares, uma conquista, depois de tantos anos”. Para ela, a ação “reforça a democracia e firma o quanto esta memória é fundamental para a sociedade brasileira”. Ela lembrou que quatro dos seis irmãos de João Carlos ainda estão vivos e esperavam este reconhecimento juntamente com seus pais: Ildefonso Haas e Ilma Linck Haas.
Nota divulgada pela CEMDP afirma que a certidão de óbito retificada reconhece oficialmente que, ao contrário do que a ditadura divulgou, foi uma “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro contra os dissidentes políticos durante o regime ditatorial instaurado em 1964”.
João Carlos Haas Sobrinho, médico nascido em São Leopoldo (RS), em 1941, foi uma das vítimas da ditadura. Deixou um legado humanitário, salvando centenas de vidas nas regiões de Porto Franco (MA) e Xambioá (TO), entre 1967 e 1972, quando foi assassinado, no mês de setembro, na Guerrilha do Araguaia. A certidão de óbito de desaparecidos políticos é regulamentada pela Lei nº 9.140/1995 e pela Resolução nº 601 do CNJ (2024), e foi recebida por Sônia Maria Haas, em nome da família.
Doutor Araguaia
O documentário Doutor Araguaia, produzido por Sônia Haas, pode ser assistido no YouTube da TG Economia Criativa. O filme resgata a memória do médico João Carlos Haas Sobrinho, desaparecido pela ditadura e eternizado como símbolo de coragem, solidariedade e resistência. A escolha da data foi em homenagem ao aniversário do médico e guerrilheiro gaúcho.
“Se estivesse vivo, ele teria completado 84 anos no dia 24 de junho e poderia ter salvo inúmeras vidas”, afirma Sônia Haas.
Ela explica que, conforme a apuração e as entrevistas feitas para o filme, foi descoberto que João, mesmo com recursos precários, cuidou e salvou um “número incontável de vidas” entre 1964 e 1972. “Sua atuação fez com que fosse amado e respeitado pelos camponeses que, além da pobreza, também sofriam diretamente com as arbitrariedades e descaso do regime de exceção”, destaca.
Produzido no Tocantins e dirigido por Edson Cabral, o documentário resgata a trajetória do jovem gaúcho que trocou os consultórios da elite por um hospital improvisado no interior do Maranhão e, mais tarde, se tornou o médico da Guerrilha do Araguaia, até ser morto pelo regime militar em 1972. Seu corpo nunca foi encontrado.
Doutor Juca

Nascido em São Leopoldo, João Carlos teve formação jesuíta, estudou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e foi presidente do centro acadêmico. Após o golpe militar, foi preso por sua liderança estudantil e, ao sair da prisão, iniciou uma trajetória de dedicação à medicina social. Viveu em Porto Franco (MA) e Xambioá (TO), onde salvou centenas de vidas com atendimento gratuito e humanizado bem antes da criação do SUS.
Seu engajamento político se intensificou: participou de treinamentos na China e, com o codinome “Dr. Juca”, atuou como o único médico da Guerrilha do Araguaia. Foi morto em 30 de setembro de 1972, pelo Exército. Seu corpo nunca foi localizado. Em 2019, sua família obteve o reconhecimento oficial do Estado brasileiro como responsável por seu assassinato.
