O governo da Bolívia anunciou nesta segunda-feira (8) o restabelecimento oficial das relações diplomáticas com Israel, após o último rompimento em 2023, durante o governo do Movimento ao Socialismo (MAS). A relação entre os dois países já havia sido suspensa anteriormente em 2009, sob Evo Morales, também em protesto contra ofensivas militares israelenses em Gaza.
A medida foi formalizada em Washington, capital estadunidense, com a presença do chanceler boliviano Fernando Aramayo e do ministro de Economia e Finanças Públicas, José Gabriel Espinoza. Pelo lado israelense, participou o ministro das Relações Exteriores, Gideon Sa’ar.
A iniciativa foi impulsionada pelo presidente boliviano Rodrigo Paz, eleito em outubro, que tem defendido a reaproximação com aliados estratégicos no Ocidente como parte de sua política externa. O gesto é interpretado como um movimento de realinhamento com os Estados Unidos e seus parceiros, em contraste com os posicionamentos históricos dos governos do MAS.
Durante a cerimônia, Sa’ar afirmou que os dois países encerram “um capítulo longo e desnecessário de separação” e anunciou a troca de embaixadores, visitas oficiais e a criação de uma agenda bilateral de cooperação. Em seu discurso, destacou áreas que interessam diretamente ao governo israelense, como gestão hídrica, agricultura, inovação e segurança. “Queremos ajudar o novo governo boliviano e o povo da Bolívia”, afirmou, mencionando o papel da agência de desenvolvimento israelense, Mashav, em futuras parcerias.
O chanceler também relembrou que Israel foi representado na posse de Rodrigo Paz e afirmou que a renovação dos laços com a Bolívia é uma “pedra angular” da política israelense para América Latina em 2026. “Vamos trabalhar juntos em projetos de impacto concreto para as duas nações”, disse, citando o combate ao “narco-terrorismo” como uma das frentes de atuação conjunta.
Bolivia e Israel restablecen plenamente sus relaciones diplomáticas y abren una nueva etapa de cooperación estratégica. 🇧🇴🤝🇮🇱
— Cancillería de Bolivia 🇧🇴 (@MRE_Bolivia) December 10, 2025
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A Bolívia havia cortado relações com Israel em 2023, sob o governo de Luis Arce, acusando o país de cometer crimes contra a humanidade na Faixa de Gaza. Antes disso, em 2014, Evo Morales já havia revogado a isenção de vistos para cidadãos israelenses e declarado Israel como “Estado terrorista”.
O novo governo, ao contrário, eliminou em dezembro a exigência de visto para turistas de Israel e destacou a abertura de “uma nova era de ciência, cooperação e benefícios mútuos”.
Desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023, países como Colômbia, Nicarágua e Belize romperam laços em protesto contra as ações israelenses. Em sentido oposto, o chanceler Gideon Sa’ar afirmou que renovar os vínculos com a Bolívia é parte central da política externa de Israel para a região em 2026. Ele destacou visitas recentes à Argentina e ao Paraguai como sinais desse esforço e declarou que a cooperação com o governo de Rodrigo Paz poderá abrir portas para projetos voltados a “impacto concreto” em territórios estratégicos.
Ruptura à esquerda e virada à direita
A retomada das relações com Israel ocorre apenas um mês após Rodrigo Paz assumir a presidência, encerrando quase duas décadas de governos liderados pelo MAS. A eleição do novo presidente, do Partido Democrata Cristão, foi marcada pela fragmentação do campo progressista, pela crise econômica e pelo impedimento judicial da candidatura de Evo Morales.
No primeiro turno, realizado em agosto, as candidaturas associadas à esquerda somaram pouco mais de 7% dos votos, pulverizados entre nomes como Andrónico Rodríguez e Eduardo del Castillo. Morales, impedido de concorrer, defendeu o voto nulo, que atingiu quase 20% dos votos válidos. No segundo turno, em outubro, Paz derrotou o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, da extrema direita, com 54,49% dos votos.
Desde então, o novo governo tem adotado medidas como o fechamento do Ministério da Justiça e a retirada de subsídios que garantiam preços populares para o pão e outros serviços básicos. As decisões têm gerado mobilizações em cidades como La Paz e El Alto, com protestos contra aumentos nas contas de energia e água, além da escassez de combustíveis no interior do país.
Internamente, setores populares e sindicais denunciam que as primeiras ações de Paz favorecem o empresariado e aprofundam a vulnerabilidade econômica da maioria da população. Em paralelo, cresce o mal-estar com sua aliança com os Estados Unidos e com a retórica de privatizações e austeridade.
