Eduardo Ferreira da Silva vivia um sonho seu e da família quando se formou no curso de medicina pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Nascido no bairro dos Bultrins, periferia de Olinda, foi criado pela mãe em um lar humilde e sempre foi dedicado aos estudos, no qual depositava a esperança de transformar a sua vida e a da família. Ao ingressar como cotista na federal, Eduardo se destacou novamente por sua aplicação nos estudos e, apesar dos três ônibus diários, manteve sempre as notas altas e produzia resumos das matérias para ajudar os colegas.
Na universidade, enfrentou os preconceitos que um ambiente acadêmico historicamente elitizado e branco traz para estudantes negros e periféricos como Eduardo. E as batalhas continuaram após se formar. Foi aprovado em dois programas de residência para clínica médica, na rede privada e no Hospital das Clínicas da UFPE – também como cotista. Não hesitou em escolher o segundo, pois considerava aquela sua segunda casa, pelo vínculo com a universidade que o formou.
Mas o ano de 2025 exigiu de Eduardo mais do que sua trajetória de esforço e empatia no exercício da medicina pode suportar. Aos familiares e amigos, ele relatou ter encontrado, naquela que seria sua “segunda casa”, um ambiente hostil, classista e com uma cultura de discriminaçãoem relação a sua cor e sexualidade. A convivência no ambiente teria sido, segundo pessoas próximas, gatilho para um extenuante processo de adoecimento mental para o jovem médico. Em suas redes sociais, Eduardo fez publicações relatando a situação. Até que, no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, ele foi encontrado morto, aos 26 anos.
A reportagem do Brasil de Fato ouviu, em condição de anonimato, profissionais que conviveram com Eduardo durante a graduação e a residência médica. Eles relatam episódios e condições do programa de residência com indícios de discriminação contra cotistas e, em especial, Eduardo. O Hospital das Clínicas é gerido pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).
Um dos primeiros episódios relatados teria ocorrido em março deste ano, quando o filho de um paciente do ambulatório de geriatria se recusou a ser atendido por Eduardo, usando motivações raciais. Um médico preceptor – profissional que atua como mentor dos residentes – assumiu o atendimento. Segundo familiares e colegas, a situação abalou Eduardo, em especial por nada ter sido feito em relação ao paciente, nenhuma reprimenda, apenas aceitando a escolha pela continuidade do atendimento com outro médico.
Sobre o caso, a assessoria do Hospital das Clínicas, em nota, afirma que a Coordenação da Residência Médica tomou conhecimento do ocorrido, afirmando em nota que Eduardo “foi acolhido pela equipe, o atendimento foi concluído pelo preceptor e o caso foi formalizado em registro. O residente recebeu apoio institucional e foi informado sobre a possibilidade de apresentar queixa-crime, o que ele recusou”.
Após o episódio, Eduardo passou a relatar a familiares e colegas estar recebendo um tratamento discriminatório durante a residência. Fontes internas do Hospital das Clínicas ouvidas pela reportagem afirmam ter testemunhado médicos “veteranos” do corpo profissional do hospital se declararem abertamente contra residentes cotistas. Cobranças diferenciadas e constrangimentos nos momentos de correção de erros são algumas das posturas apontadas.
Uma das pessoas ouvidas relatou que Eduardo chegou a passar cinco meses sem um feedback avaliativo que, de acordo com a fonte, deveria ser mensal. Também foram relatadas reprovações de cotistas em avaliações por não atingirem competência em “receber e aplicar feedback” por eles questionarem pontos do processo de residência.
Pessoas próximas a Eduardo afirmam que o médico levava essas questões de discriminação aos superiores. O Hospital das Clínicas, em resposta ao Brasil de Fato, diz que não há registros de denúncias formais protocoladas pelo residente na Ouvidoria do hospital, canal oficial de denúncias de assédio e violações de direitos dentro da instituição. Portanto, nunca houve instauração de qualquer processo administrativo.
Contudo, o HC afirma que, em uma reunião dos residentes do 1º ano, conhecidos como “R1”, Eduardo mencionou sentir discriminação contra cotistas. “A equipe abriu diálogo e o acolheu, mas ele não apresentou exemplos concretos de discriminação na residência”, diz a nota enviada à reportagem.
Já no segundo semestre de 2025, outro episódio foi descrito por familiares e amigos como agravador do seu processo de adoecimento psicológico. Postagens feitas por Eduardo no seu perfil pessoal numa rede social, como imagens de uma meia colorida e fotos suas na academia, geraram comentários pejorativos entre residentes do segundo ano, os chamados “R2”, que acompanham os R1 em discussões médicas dos casos atendidos. Eduardo relatou que foi informado de que estaria “queimado” entre os R2 por expor sua vida pessoal. Ele considerava estar sofrendo uma perseguição de cunho racista e homofóbico.
Logo após este episódio, Eduardo começou a fazer denúncias públicas nas suas redes sociais sobre tais episódios que considerava discriminatórios dentro do Hospital das Clínicas. “Eu sempre achei que sofreria racismo no HC – isso é de praxe, a gente sofre em todo lugar e lutamos contra isso de uma forma orgânica. Mas homofobia? Pelos meus pares? Eu estou sendo retaliado por meus colegas por estar postando ‘coisas gays’ demais. (…) Esse sou eu, Eduardo Ferreira da Silva, homem preto, gay e que estou no meu espaço. Qualquer retaliação a mais por ser gay, por ser negro, haverá medidas cabíveis”, disse Eduardo em vídeo publicado no dia 1º de novembro.
Poucos dias após esta publicação, ainda no início de novembro, outro fato chamou atenção de amigos. Familiares foram mobilizados e, ao se dirigirem à casa em que o jovem vivia sozinho, no bairro da Várzea, o encontraram intoxicado. Ele foi atendido na UTI do Hospital das Clínicas (HC) para uma desintoxicação, sendo liberado dias depois. Eduardo saiu do hospital para a casa da mãe, onde passou alguns dias, ainda perceptivelmente instável.
Na casa da mãe, o jovem teve alguns episódios de surto. Num deles, o Samu foi acionado e Eduardo foi levado novamente ao HC, que não o recebeu por não possuir emergência psiquiátrica. A ambulância se dirigiu ao Hospital Psiquiátrico Ulysses Pernambucano, na Tamarineira, onde o jovem, segundo relatos, foi bem atendido. De volta à casa da mãe em Olinda, o médico convenceu a família que estava pronto para retornar para a sua casa na Várzea. Familiares se revezam numa espécie de vigília no local, mas não conseguiram evitar o desfecho que interrompeu a vida do jovem.
Familiares lamentam o desfecho da história de Eduardo e criticam a postura do HC durante este período. “O Hospital das Clínicas só veio entrar em contato conosco, dizendo que lamentavam, após a crise de Eduardo e depois que as coisas foram para internet. ‘Lamentam’ o que? Ele tinha um sonho de dar um novo lar para a mãe dele. Mas acabaram com o sonho dele e o nosso sonho, da família”, se queixa Irene Ferreira, tia de Eduardo e parente com quem o jovem tinha uma relação muito próxima. “Não temos como tê-lo de volta, mas queremos mudanças lá dentro. Isso não pode ficar impune”, completa Irene.
Se você ou alguém que você conhece está passando por momentos difíceis, é recomendável que procure ajuda no Centro de Atenção Psicossocial (Caps) mais próximo da sua casa ou, em caso de surto, no Hospital Ulysses Pernambucano (avenida Conselheiro Rosa e Silva, nº 2130, Tamarineira, Recife). Outra opção é entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), por chat ou telefone (disque 188 gratuitamente).
Confira a íntegra da nota enviada pelo Hospital das Clínicas ao Brasil de Fato:
O Hospital das Clínicas da UFPE esclarece que passou a adotar o sistema de cotas nos programas de residência médica a partir do Edital Enare 2024, cumprindo todas as regras do processo seletivo, já que a instituição adere integralmente ao Enare. No edital de 2025, foram reservadas 30% das vagas para candidatos autodeclarados pardos, negros, pessoas com deficiência e outros grupos minoritários.
Embora não exista uma preparação específica voltada exclusivamente para residentes cotistas, o hospital ressalta que sempre recebeu, de forma natural e sem conflitos, alunos cotistas da graduação, o que demonstra a integração consolidada dessas políticas no ambiente institucional.
O canal oficial para denúncias de discriminação, assédio ou violações de direitos no HC-UFPE é a Ouvidoria, amplamente divulgada e disponível a todos os profissionais e usuários. Não há registros de denúncias formais apresentadas pelo residente Eduardo, motivo pelo qual não houve instauração de procedimento administrativo referente a esse tema.
A Coordenação da Residência Médica tomou conhecimento apenas do ocorrido em 19/03/2025, quando o residente Eduardo foi desrespeitado pelo filho de uma paciente no ambulatório de Geriatria. Ele foi acolhido pela equipe, o atendimento foi concluído pelo preceptor e o caso foi formalizado em registro. O residente recebeu apoio institucional e foi informado sobre a possibilidade de apresentar queixa-crime, o que ele recusou.
Não houve conhecimento institucional sobre comentários pejorativos nas redes sociais, portanto não houve encaminhamento. Em 29/04/2025, durante reunião com os residentes do primeiro ano (R1), Eduardo mencionou sentir discriminação contra cotistas. A equipe abriu diálogo e o acolheu, mas ele não apresentou exemplos concretos de discriminação na residência.
Após as denúncias públicas feitas por Eduardo, a instituição adotou medidas imediatas para oferecer suporte, incluindo contato direto com o residente, encaminhamento para Psicologia e Psiquiatria, acompanhamento da Comissão de Residência Médica (Coreme) e da equipe do programa, além de apoio prestado à família. Um médico da Clínica Médica acompanhou o primeiro episódio crítico. Posteriormente, foi aberta sindicância para apurar todos os fatos e ouvir as partes envolvidas.
O hospital informa ainda que, diante do caso, reforçou e aprimorou seus mecanismos internos voltados ao ensino e ao cuidado com residentes e estudantes. Entre as medidas implementadas estão a criação de uma comissão interna permanente para recebimento e apuração de denúncias de assédio e discriminação, a definição de fluxos específicos para investigação desses casos e o fortalecimento das ações de prevenção, alinhadas à campanha institucional permanente “Tolerância Zero ao Assédio”.
