“Sonhe. Tenha até pesadelos, se necessário for. Mas sonhe.” A frase de Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, dá o tom do espetáculo Pagu, empresta teus olhos, que estreia nesta quinta-feira (18), no Teatro Municipal de São Leopoldo, Região Metropolitana de Porto Alegre, com duas sessões, às 16h e às 20h. A entrada é gratuita, com sugestão de doação de um pacote de absorventes, que será destinado a entidades que atendem pessoas que menstruam.
A montagem apresenta fragmentos da obra e da trajetória de Pagu, jornalista, escritora, artista revolucionária e figura central do Modernismo brasileiro. O espetáculo tem direção da jornalista Cátia Cylene, com codireção de Luiza do Carmo, e marca também a atuação de Cátia em cena, dando vida à autora.
A encenação articula trechos de poemas, fragmentos de prosa e passagens biográficas, combinados a canções, projeções de imagens e dança contemporânea.
Nascida em 1910, em São João da Boa Vista (SP), e falecida em 1962, em São Paulo, Pagu teve participação marcante no Movimento Antropofágico, sob influência de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Em 1933, publicou Parque Industrial, considerado o primeiro romance proletário da literatura brasileira, no qual denunciou a exploração e as condições precárias de trabalho das mulheres, críticas que, segundo Cylene, seguem atuais.
Da pesquisa ao palco
A ideia do espetáculo surgiu a partir de uma esquete montada em 2023. A partir dessa experiência, Cylene conta que sentiu vontade de aprofundar a pesquisa sobre a vida e a obra de Pagu. “Depois da esquete que montamos em 2023 fiquei querendo mergulhar nas produções de Pagu e na sua vida”, afirma. Segundo ela, cada descoberta sobre a trajetória da autora, a efervescência criativa, a visão libertária, as lutas políticas e as violências sofridas, aumentava o desejo de trazê-la para a cena.
O processo criativo foi construído de forma coletiva e interdisciplinar. De acordo com a diretora e atriz, a linguagem do espetáculo nasceu do diálogo entre as diferentes áreas artísticas envolvidas. “A gente foi pensando juntos, pesquisando e montando. Todos têm muita liberdade para explorar seu potencial e compor durante os ensaios”, relata.
Sonhos, pesadelos e transformação social
A frase “Sonhe. Tenha até pesadelos, se necessário for. Mas sonhe!” ocupa um lugar central na dramaturgia. Para Cylene, ela expressa o pensamento e a postura política de Pagu. “Essa é uma sentença que expressa muito do que buscava a Pagu. Sonhar com um mundo melhor, buscar essa transformação, essa justiça social tão desejada por ela, é o que nos causa certa identificação”, diz.
A diretora relaciona essa ideia às reflexões de Paulo Freire, ao lembrar que toda transformação política envolve disputas e contra-sonhos. Na vida de Pagu, esses embates se materializaram de forma extrema: ela foi presa 23 vezes ao longo da vida. “Pagu sonhou muito e correu atrás dos seus sonhos, assim como viveu pesadelos imensos durante as 23 ocasiões em que esteve presa, mas sempre se reinventou, nunca desistiu da luta”, destaca.
Homenagem a Ari Meneghini
A estreia de Pagu, empresta teus olhos também é marcada por uma homenagem póstuma ao ator, professor e companheiro de Cátia Cylene, Ari Meneghini, falecido em agosto. O espetáculo é o último projeto escrito por ele em parceria com a diretora.
Segundo Cylene, a presença de Ari atravessa todo o processo criativo e a cena. “O Ari está presente com a gente no palco o tempo todo”, afirma. Ela relata que, durante os ensaios e apresentações, ela e o ator Nico, que também atuava com Ari em outros trabalhos, frequentemente se perguntam como ele conduziria determinadas cenas. “Seguidamente comentamos o que o Ari faria em determinada cena em Pagu, qual movimento, qual intenção, como colocaria o corpo.”
A saudade, segundo Cylene, se manifesta de diferentes formas. “São muitos atravessamentos, de uma saudade que horas só emociona, horas dói, mas que sei que só se faz presente por tudo que ele construiu e nos ensinou nas artes cênicas e em nossas vidas.”

Atualidade de Pagu e mundo do trabalho
Para a diretora, a força de Pagu hoje está na permanência de suas críticas sociais. Ao longo do processo, o roteiro passou por cortes e ajustes, mas a diretora acredita que o espetáculo oferece pistas importantes sobre a vida e a obra da autora, especialmente para quem ainda não a conhece. “A peça traz alguns indicativos, assim como algumas ideias e críticas sociais que ela já desenvolvia e que estão completamente atuais”, conta.
Os paralelos entre Parque Industrial e a realidade das mulheres trabalhadoras do Vale do Sinos aparecem de forma direta. Cylene lembra denúncias recentes feitas por sindicatos da categoria calçadista, envolvendo restrições ao uso de banheiro durante o expediente.
“Quando a gente lê sobre denúncias do Sindicato das Sapateiras e Sapateiros a respeito do impedimento de trabalhadoras de usarem banheiro durante horário de expediente, de grávidas fazerem xixi nas roupas, por esta restrição desumana, isso tudo se assemelha ao que Pagu conta em Parque Industrial”, aponta. Para ela, essas semelhanças mostram que “as críticas são atuais” e que “Pagu segue moderna”.
Memória, apagamento e o papel da arte
Durante a pesquisa, a autobiografia de Pagu teve impacto decisivo na criação do espetáculo. “A autobiografia da Pagu mostra muito das dores, do sofrimento que ela viveu”, afirma a jornalista, destacando que esse material ajuda a compreender a origem de poemas densos e marcantes, como Nothing.
Para a diretora e atriz, o teatro tem um papel fundamental na preservação da memória de figuras históricas que sofreram apagamento. Segundo ela, cada obra artística dedicada a essas personalidades pode despertar o interesse por suas ideias e produções, ajudando a reconstruir caminhos históricos e a compreender o presente.
É nesse sentido que o título Pagu, empresta teus olhos se afirma como um convite. A proposta é olhar o mundo de hoje a partir da visão crítica construída por Pagu entre as décadas de 1930 e 1960, um olhar que, segundo Cátia Cylene, segue absolutamente necessário.
