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Quem paga a conta pelo despreparo das empresas de energia elétrica é a população

É preciso questionar o modelo de gestão que prioriza interesses privados em detrimento de um serviço essencial

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Academia em são paulo no escuro durante apagão em dezembro de 2025
Estabelecimento comercial em São Paulo (SP) atingido por apagão após fortes chuvas em dezembro de 2025 | Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

O ano é 2025, mas a notícia poderia ser de 2024, 2023 ou 2022. A cada temporada de chuvas e ventos fortes, com o agravamento das mudanças climáticas e o despreparo das empresas de energia, milhões de brasileiros voltam a ficar no escuro.

Mais uma vez, o exemplo concreto vem de São Paulo, onde, ao longo desta segunda semana de dezembro, bastaram algumas horas de chuva e ventania para expor a fragilidade da rede de distribuição de energia elétrica, deixando mais de 1,5 milhão de famílias na capital e na região metropolitana sem eletricidade — sempre previsão de retorno do serviço. 

Neste ano, não adiantou nem mesmo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) determinar às distribuidoras de energia elétrica, em especial do Sul e Sudeste, que mantivessem um plano de contingência atualizado para atendimento emergencial frente ao alerta climático.

Com isso, a agência acreditou resolver o quadro conjuntural do setor elétrico, mas o problema é muito mais profundo: as mudanças do clima colocam em xeque toda a estrutura do sistema elétrico — da geração à transmissão, passando pela proteção e culminando na distribuição de energia. 

Soma-se a isso o fato de que o setor foi, em grande medida, privatizado ao longo dos últimos anos, o que exige questionar não apenas a falta de preparo, mas também um modelo de gestão que prioriza interesses privados em detrimento de um serviço que deveria ser essencial, universal e acessível a toda a população, portanto público.

A privatização do setor elétrico resultou na redução do quadro de funcionários — realidade observada na maioria dos estados onde o processo foi concretizado. Em situações como a ocorrida em São Paulo, com quedas de árvores, cabos rompidos e transformadores danificados, as empresas não dispõem de equipes suficientes para restabelecer o serviço com a agilidade necessária.

Esse problema se soma à urgência de adaptação das redes, não apenas na distribuição, mas em todo o sistema elétrico. Para isso, seriam necessários investimentos robustos, que as empresas privadas têm evitado realizar. Pelo contrário, no atual desenho tarifário do setor, os custos dessa adaptação acabariam sendo repassados diretamente às contas de luz da população.

Enquanto isso, o Plano Clima para adaptação — coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) em articulação com o Ministério de Minas e Energia (MME) — propôs, entre suas ações, a realização de estudos sobre o aumento da resiliência do sistema elétrico frente às mudanças climáticas.

Contudo, a fonte de recursos indicada é o orçamento público, dentro da previsão orçamentária do próprio MME. Mais uma vez, o ônus recairia sobre a sociedade, enquanto as concessionárias se eximem da responsabilidade de investir.

O futuro próximo, no entanto, abre uma janela de possibilidades. Entre 2026 e 2031, 19 concessionárias de energia — entre elas EDP, Light, Coelba, CPFL, Cosern e Enel São Paulo — terão seus contratos vencidos. Esse será um momento estratégico para avaliar, de forma ampla e participativa com toda a sociedade, o balanço do modelo adotado nos últimos 30 anos e decidir os rumos futuros do setor elétrico e já está na mesa da Aneel em analisar e renovar, mas sem uma discussão ampla.

O fato é que, ano após ano, o cenário se repete, e não apenas na capital paulista. O que se revela é uma perigosa simbiose entre as mudanças climáticas, a privatização e a vulnerabilidade estrutural do sistema elétrico. Sem equipes suficientes, sem investimentos adequados e com um modelo de gestão que transfere riscos e custos para a população, os serviços de energia seguirão cada vez mais comprometidos — ampliando desigualdades e aprofundando as mazelas sociais.

*Cássio Cardoso Carvalho é assessor político do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc)

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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