O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na noite de terça-feira (16) que a Venezuela está “completamente cercada” e determinou um “bloqueio total” a navios e embarcações petroleiras que já são alvo de sanções. O governo de Maduro classificou como uma “ameaça temerária e grave” o posicionamento da Casa Branca.
Os movimentos indicam uma intensificação na escalada de agressões que Washington tem realizado contra Caracas desde agosto deste ano. A cientista política e analista internacional Ana Prestes afirmou ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, que a qualificação do Estado venezuelano como um “governo estrangeiro patrocinador do terrorismo” é extremamente grave.
A especialista critica ainda a lentidão da comunidade internacional, que “já deveria ter reagido” por meio de organizações como a ONU ou a União Europeia. “É uma provocação patrocinada pelos EUA com justificativas absolutamente fantasiosas e frágeis do ponto de vista do direito internacional, não tem amparo. Estamos vendo um mundo refém”, reforça.
Ainda segundo a especialista, a ação é mais um capítulo desastroso da política externa estadunidense, que age como um “imperador do mundo” ao mesmo tempo em que ignora crises como a da Ucrânia e os constantes descumprimentos do cessar-fogo por Israel na Palestina.
No entanto, Prates aponta que, dentro dos próprios Estados Unidos, há reações significativas no Congresso e na imprensa, que questionam a falta de transparência dos ataques – que já resultaram em cerca de 95 mortes – e começam a detalhar as motivações políticas por trás deles, como a intenção de impor uma aliada no poder na Venezuela. Este cenário, segundo ela, cria um “precedente perigosíssimo para todos os países da América Latina”.
Confira a entrevista na íntegra a seguir:
Brasil de Fato: Essa ofensiva, marcada pelo anúncio do bloqueio total a petroleiros sancionados, deixa claro que o interesse primordial dos Estados Unidos está no petróleo venezuelano? Qual é o peso estratégico das reservas venezuelanas de mais de 300 bilhões de barris nessa investida estadunidense?
Ana Prestes: É simplesmente a maior reserva de petróleo do mundo, é sobre isso que estamos falando. Então, tem um impacto muito forte. Além de ser um dos maiores exportadores ativos nesse sistema do petróleo mundial. Já atingiu inclusive o preço do petróleo, que estava sendo negociado a 56 dólares o barril, já aumentou para mais de 1.3% e a tendência é que esse impacto seja ainda maior.
O que eu considero mais grave nessa atitude de Washington é que eles falam que a Venezuela está roubando os Estados Unidos, nos termos da publicação de Donald Trump na Truth Social. Ele cita esse roubo e que é preciso ressarcir os Estados Unidos, incluindo o óleo, as riquezas, petróleo da Venezuela… como se fosse deles. É algo muito contundente por parte dos Estados Unidos.
Segundo Trump, a Venezuela está usando os seus campos de óleo e de petróleo para financiar o seu governo, que ataca a segurança nacional dos Estados Unidos através do narcoterrorismo. Essa é a nova configuração que eles criaram.
Não apenas o narcotráfico de drogas, como também o narcoterrorismo, porque esse dá um componente político de comercialização e tráfico de drogas, tráfico humano, assassinatos, sequestros, eles pontuam dessa forma. A Casa Branca ainda acrescenta que estão mandando criminosos e pacientes psiquiátricos para os EUA para cometerem crimes lá dentro. Trump mistura tudo em uma narrativa para justificar o bloqueio a todos os petroleiros que estiverem entrando ou saindo das águas territoriais venezuelanas.
E como o próprio Trump fala: é a maior armada e o maior ataque naval à América do Sul.
Essa ofensiva é marcada por um bloqueio total de petróleo sancionado, por um país completamente cercado por forças militares de outra nação. O que isso pode causar à imagem internacional de Donald Trump? Qual é a sua expectativa para isso tudo? E em relação à comunidade internacional, deveriam reagir, já que é um ataque à soberania de uma nação?
Com certeza, já deveriam ter reagido com algum comunicado, seja de alguma instância das organizações internacionais, seja no âmbito do sistema ONU, seja de outras organizações de peso, como a própria União Europeia, porque está havendo uma flagrante violação ao direito internacional.
É uma provocação patrocinada pelos EUA com justificativas absolutamente fantasiosas e frágeis do ponto de vista do direito internacional, não tem amparo. Estamos vendo um mundo refém.
Como o próprio presidente Lula falou uma vez, “o Trump não pode ser imperador do mundo”. E ele está agindo como o imperador do mundo. Ele faz isso ao mesmo tempo em que estão ocorrendo outras situações sensíveis, como a tentativa de se chegar a uma resolução na Ucrânia e a própria questão da Palestina, com a violação ao acordo de cessar-fogo de forma sistemática por Israel.
Então é visto como mais uma ação desastrosa e de impacto bélico dos Estados Unidos numa região que é uma zona de paz.
A América do Sul, com todos os problemas internos que possam existir, ainda não tem nenhum conflito fronteiriço ativo. Não há nenhum ataque que parta da América Latina, da América do Sul para nenhum país do mundo e esse tem sido um esforço mesmo com todas as dificuldades que há com o processo de integração da América Latina, que tem sido atingido por essa onda da extrema direita, de governos reacionários que têm alcançado o poder. Você tem uma região que é reconhecida mundialmente como uma região de paz, quando comparada às outras regiões do mundo.
Hoje temos Gustavo Petro [presidente da Colômbia] que tem sido bastante reativo e de forma presente nessa situação da Venezuela, até porque ele também está sendo atacado por Trump, como o chefe de estado narcoterrorista, assim que o Trump se refere a ele.
Não é esperado também alguma reação da Organização dos Estados Americanos (OEA), por ser um braço direito do Secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio. Hoje, não temos nenhum organismo multilateral que tenha um poder de reação a essa investida dos EUA nas águas sul-americanas, no mar do Caribe, na costa pacífica e nas margens territoriais da Venezuela.
Aproveitando que você cita essas reações, os senadores dos Estados Unidos submeteram funcionários de alto escalão a um intenso interrogatório sobre as operações no Caribe. Operações que resultaram em cerca de 95 mortes, 26 embarcações destruídas. Além disso, o líder democrata do Senado [Chuck Schumer], chegou a questionar a falta de transparência do próprio governo sobre esses ataques. Então, essa reação, afinal, pode mudar algo?
Dentro dos Estados Unidos há uma reação muito interessante, porque há protestos de rua e há reação no Congresso. Há questionamentos sobre quais critérios os EUA estão seguindo, mas não há informações sobre. Existe uma justificativa geral, de que estão combatendo o narcoterrorismo, que se mistura com o fentanil, sendo que não há registros de saídas por parte da América do Sul e sim do México.
Utilizam também no discurso que as embarcações estão levando drogas para dentro dos EUA, atacando a cidadania, sendo um motivo para essa estratégia de segurança nacional, que está contida no documento divulgado em novembro, colocando os países da América do Sul como se fossem dirigidos por governos narcoterroristas.
A partir dessa narrativa, vemos reações dentro do Congresso estadunidense, na imprensa, que vem detalhando e apontando as motivações políticas e não só comerciais em relação ao petróleo, por exemplo, a vontade de Donald Trump de ter Maria Corina Machado, uma aliada no comando da Venezuela. Ou seja, enxergamos um precedente perigosíssimo nessas ações para todos os países da América Latina.
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