VOZES DA RUA

Livro ‘Cicatrizes da Rua’ narra trajetória de sobrevivência de mulher que viveu a adolescência nas ruas

Obra de Michelle Aparecida Marques dos Santos será lançada nesta quinta-feira (18), na Casa Alice

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Michelle Aparecida Marques dos Santos transforma sua trajetória de rua, violência e superação em literatura autobiográfica
Michelle Aparecida Marques dos Santos transforma sua trajetória de rua, violência e superação em literatura autobiográfica | Crédito: Luiz Abreu

O livro Cicatrizes da Rua, da autora Michelle Aparecida Marques dos Santos, chega ao público como um relato autobiográfico de quem viveu a experiência extrema da rua, da violência e da dependência química desde a adolescência.

Com lançamento marcado para esta quinta-feira (18), às 19h, na Casa Alice, em Porto Alegre (RS), a obra reúne memórias de uma trajetória marcada por violações, perdas e resistências, narradas a partir do ponto de vista de quem sobreviveu a elas. Publicado pela Libretos Editora, o livro tem 120 páginas e será comercializado por R$ 60.

A narrativa acompanha o percurso de Michelle desde os anos em que viveu nas ruas, passando pela dependência de substâncias psicoativas, pelos abusos sofridos em diferentes esferas – familiar, institucional e social – até a perda da guarda dos filhos. Ao longo do livro, esses episódios são apresentados sem idealizações, construindo um retrato direto das marcas deixadas pela exclusão social e pela violência cotidiana enfrentada por mulheres em situação de rua.

Violência estrutural e exclusão social como pano de fundo

Embora seja um relato pessoal, Cicatrizes da Rua dialoga com um contexto social mais amplo. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada indicam que a população em situação de rua no Brasil ultrapassa 280 mil pessoas, com crescimento expressivo na última década. Mulheres representam uma parcela menor desse total, mas estão mais expostas a violências físicas, sexuais e institucionais, além de enfrentarem obstáculos adicionais no acesso a políticas públicas de saúde, assistência social e moradia.

Nesse cenário, a trajetória de Michelle evidencia como a exclusão se constrói de forma cumulativa. A violência policial, a criminalização da pobreza, a ausência de políticas de cuidado e a dificuldade de acesso a tratamento para dependência química aparecem no livro como elementos estruturais que aprofundaram sua vulnerabilidade. Ao mesmo tempo, a autora relata como a permanência em vínculos comunitários e de trabalho foi decisiva para sua sobrevivência.

Escrita como alerta e testemunho

Para a autora, a escrita do livro cumpre um papel de alerta, especialmente para jovens e adolescentes. Segundo Santos, a obra busca provocar reflexão sobre o uso de drogas, incluindo substâncias legalizadas como álcool, comprimidos e tabaco, ressaltando a dificuldade de romper com a dependência após o início do consumo. Essa intenção aparece ao longo do texto de forma direta, sem tom didático ou moralizante, a partir da própria vivência narrada.

O livro também se dirige a leitores de diferentes idades e contextos sociais. Ao apresentar sua história sem se colocar como heroína, Santos constrói uma narrativa que, segundo ela mesma, evidencia a encruzilhada enfrentada por quem chega ao limite da própria existência: resistir ou desistir. No relato, resistir não aparece como um ato isolado de força individual, mas como um processo longo, atravessado por recaídas, dor física e emocional, e pela reconstrução gradual de vínculos.

Boca de Rua e a construção da palavra

Um dos eixos centrais da trajetória narrada em Cicatrizes da Rua é a relação de Michelle com o jornal Boca de Rua, veículo produzido por pessoas em situação de rua e vinculado à Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação. Mesmo durante os períodos mais críticos de sua vida, a autora manteve vínculo com o jornal por mais de duas décadas, experiência que, segundo o relato, foi fundamental para a construção de sua identidade, autonomia e capacidade de expressão.

Hoje, além de seguir ligada ao Boca de Rua, Michelle atua como padeira no Clube de Pães Amada Massa e como facilitadora social no projeto Todos na Rua. Essas atividades, descritas no livro, fazem parte do processo de reconstrução material e simbólica de sua vida, que inclui a conquista da moradia e a retomada de projetos pessoais e profissionais.

Produção editorial coletiva

A publicação de Cicatrizes da Rua é resultado de uma parceria entre a Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação e a Editora Libretos, com financiamento do Instituto Koinós. A edição de texto é assinada por Rosina Duarte, a coordenação editorial por Clô Barcellos e o design gráfico por Cristina Pozzobon. A apresentação do livro é da escritora, farmacêutica bioquímica e curadora da literatura negra na Feira do Livro de Porto Alegre, Lilian Rocha.

Segundo a organização do projeto, a proposta editorial buscou preservar a voz da autora, mantendo a crueza do relato e respeitando a forma como Michelle escolheu contar sua história. A contracapa do livro destaca esse aspecto ao definir a obra como um grito capaz de despertar quem observa a realidade da exclusão social à distância, ressaltando que a autora não esteve à beira, mas no fundo do abismo.

Literatura como memória e denúncia

Ao transformar suas feridas em palavras, Michelle inscreve sua experiência no campo da literatura de testemunho, contribuindo para a memória coletiva sobre a vida nas ruas no Brasil. A obra se soma a outras produções que buscam romper o silêncio em torno das violências enfrentadas por populações marginalizadas, ampliando o debate público sobre políticas de cuidado, acesso a direitos e responsabilidade do Estado.

Cicatrizes da Rua chega ao público não apenas como um livro autobiográfico, mas como um documento social que explicita as marcas deixadas pela desigualdade. Ao narrar o processo de transformar feridas em cicatrizes, a obra aponta para a possibilidade de reconstrução, sem apagar a dor, e convida o leitor a olhar para a realidade da rua a partir de quem a viveu por dentro.

Editado por: Katia Marko

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