Direitos Humanos

Quando a cidadania é abandonada no Rio de Janeiro

Segurança pública que não entrega dignidade é apenas violência com outro nome, defende a deputada Dani Monteiro (Psol)

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Moradores reúnem corpos da Chacina ocorrida na Penha em 28 de outubro na Praça São Lucas
Moradores reúnem corpos da Chacina ocorrida na Penha em 28 de outubro na Praça São Lucas | Crédito: Eusébio Gomes/TV Brasil

A Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (CDDHC/Alerj) carrega em seu próprio nome a síntese de tudo que defendemos. Não existe defesa possível dos direitos humanos sem a garantia plena da cidadania e tampouco há cidadania que se sustente onde os direitos fundamentais são negados. Para mim, eles andam de mãos dadas. E é por isso que, quando o Estado promove operações para retirar barricadas, cria cenários de “tomada de poder” de fachada ou transforma territórios inteiros em zonas de guerra, mas não assegura a retomada da cidadania da população favelada, ele aprofunda violações em vez de corrigi-las. Ou seja, é mera maquiagem de cidadania. Caros leitores, segurança pública que não entrega dignidade é apenas violência com outro nome.

Neste mês em que o mundo volta os olhos para os direitos humanos, reforçamos a centralidade do debate sobre acesso à cidade, justiça territorial, racismo ambiental e dignidade cotidiana. No dia 10 de dezembro, quando celebramos o Dia Internacional dos Direitos Humanos, publicamos o Relatório Anual da CDDHC, documento que reúne dados, análises e reflexões construídas ao longo de 2025. Os números são contundentes, mas a mensagem é evidente de que há um padrão persistente de violações que recai, quase sempre, sobre as mesmas pessoas: trabalhadoras, negras, periféricas e majoritariamente jovens. A cidadania, no Rio, chega para uns, mas continua abissalmente distante para muitos.

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Não estou inventando a roda, muito menos falando em fórmulas mágicas. É o feijão com arroz que funciona. Garantir cidadania é garantir acesso ao saneamento básico, à cultura, à educação, à mobilidade, à saúde mental, à água, ao território e ao pertencimento. É romper com a lógica que naturaliza sofrimento e desigualdade. Quando falamos de segurança pública, falamos também de escola aberta, de direitos culturais vivos efervescentes e de oportunidades reais para a juventude. Não há prevenção de violência sem políticas que formem, acolham e deem horizonte. As favelas não precisam de ocupações cinematográficas marketeiras. Precisam de políticas permanentes.

É importante reconhecer que, apesar da bravata que muitas vezes domina o debate público, soluções reais só aparecem quando o Estado abandona o improviso, inclusive quando mente falando sobre investir em inteligência, e assume a responsabilidade de construir políticas públicas de longo prazo, fundamentadas em evidências, diálogo e compromisso com justiça social. Este é o caminho que buscamos trilhar na Comissão. Registrar, fiscalizar, mediar, produzir dados, insistir para que as instituições funcionem e para que o Estado responda às pessoas que dele dependem para viver com dignidade.

Encerramos dezembro reafirmando um princípio que move nossa luta: direitos humanos não são abstratos, estão dispostos aos nossos olhos. São práticas concretas que moldam o presente e o futuro. A segurança pública que desejamos para o Rio passa pela escola, pela cultura, pela moradia, pelo transporte e pelo direito de existir sem medo. É a cidadania que vai tirar o Rio desse buraco. Não é só sobre enfrentar a violência. É sobre construir pertencimento e futuro. Seguiremos apresentando propostas pontuais e viáveis, porque cidadania não pode ser promessa. Tem que ser garantia, sempre ao lado da população que insiste em resistir e transformar o nosso estado.

*Dani Monteiro é deputada estadual (Psol/RJ) e presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj.

**Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Juliana Passos

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