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Maduro é valente e preparado para enfrentar isso com dignidade, diz ex-vice de Hugo Chávez

Elías Jaua conversou por telefone com o Brasil de Fato, pediu apoio do Brasil e disse que povo venezuelano está nas ruas

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Maduro
Elias Jaua também foi chanceler do presidente Nicolás Maduro em 2013 | Crédito: Juan Barreto/AFP

Dois dias após a agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela na madrugada do último sábado (3), que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores, o ex-vice-presidente venezuelano Elías Jaua concedeu uma entrevista exclusiva por telefone ao Brasil de Fato.

Vice do ex-presidente Hugo Chávez e chanceler durante os primeiros anos do governo Maduro, Jaua afirmou que o presidente sequestrado pelos EUA “está preparado” para enfrentar a situação.

“Ele [Maduro] é um homem valente. Isso é o que posso dizer. Um homem com uma formação para enfrentar esse tipo de situação com dignidade”, afirmou.

O ex-vice-presidente da Venezuela ainda destacou que Maduro e Flores “são vítimas de um sequestro” e que “isso não pode ser aceito em um mundo onde deveria imperar os princípios do direito internacional humanitário”.

Sem luz elétrica, ainda por consequência dos ataques estadunidenses, Jaua falou à reportagem da região central da capital Caracas e garantiu que o povo está mobilizado na capital, pois “a alma venezuelana está ferida, mas não vencida”.

Jaua também pediu o rechaço do Brasil e do México, “que têm um papel fundamental, uma liderança na América Latina”, ao ataque dos EUA e ao sequestro do presidente. “Já não se trata da defesa de um governo ou de um projeto político. Se trata da defesa da independência de um país soberano, desse país viver em paz”, pontuou.

Leia a entrevista na íntegra

Brasil de Fato: Quais são suas impressões sobre o ataque? E qual é o objetivo de Trump com o sequestro de Maduro?

Elías Jaua: Obrigado pela oportunidade de me comunicar com o povo do Brasil nesse momento tão grave na história da Venezuela. O ataque, como é bem sabido, corresponde a uma decisão arbitrária que coloca em evidência mais uma vez o desmonte do sistema de direito internacional, de todas as normas e convênios que haviam surgido depois da Segunda Guerra Mundial. Não há justificativa de legítima defesa, não há decisão de nenhum organismo multilateral, o que há é uma decisão unilateral do presidente dos EUA de agredir um país soberano. De bombardear uma cidade densamente povoada como Caracas, com mísseis de alta tecnologia, drones, aviões e produzir uma invasão com uma dezena de helicópteros e tropas especiais para assassinar soldados venezuelanos e sequestrar o chefe de Estado, presidente Nicolás Maduro, e sua esposa Cilia Flores.

É um fato de suma gravidade, não apenas para a Venezuela, mas também para a convivência entre nações, para o sistema internacional do direito. Estamos diante de uma agressão bárbara, desumana, perigosa para a estabilidade e a paz do mundo.

O governo no último comunicado parece ter aprofundado a disposição ao diálogo. Não que seja incomum, isso Maduro já vinha fazendo, mas as palavras “cooperação” e “trabalho conjunto” chamam a atenção nesse momento. Qual a sua avaliação sobre esse comunicado e, na sua opinião, qual deveria ser a postura do governo?

Desde o período do Comandante Chávez até hoje, essa foi a postura da Venezuela. Em primeiro lugar pela autoridade moral que temos de não ser um país agressor. Nem contra os EUA, nem contra ninguém. Nós nunca agredimos ninguém em toda a nossa história. A única guerra estrangeira que participamos foi a nossa guerra de independência, que serviu para nos liberarmos do domínio espanhol e constituir uma república independente sob a liderança do grande venezuelano, nosso pai libertador Simón Bolívar.

Nesse momentos temos que entender que a Venezuela é um país com dignidade e com capacidades militares, com convicção da defesa de sua independência e soberania. Mas também com a consciência de que estamos enfrentando alguém que não tem nenhum respeito pelo direito internacional nem pelo direito internacional humanitário. Eu acredito estar claro pelo que o governo nacional expressou, o diálogo e o entendimento são fundamentais para preservar a vida do povo venezuelano. Nós, do chavismo, como força política, sempre tivemos como a prioridade preservar a vida do povo venezuelano. Desde a expressão “por agora”, do Comandante Chávez, quando ele se levantou no dia 4 de fevereiro de 1992, quando preferiu se entregar antes de um maior derramamento de sangue. E essa tem sido a conduta da Revolução Bolivariana ao longo desses 30 anos.

Como estão as ruas? Os movimentos populares estão mobilizados? Há unidade em torno da defesa da revolução?

A alma venezuelana está ferida, mas não vencida. Nosso povo tem uma dignidade gigante e assumiu isso com muita dor. A Venezuela nunca havia sido agredida militarmente nos últimos 125 anos. Portanto, nós, como geração, não conhecíamos um fato como esse. Ver e ouvir que em uma madrugada o céu da capital e de outros povoados da costa venezuelana foram impactados por mísseis de alta tecnologia, aviões de última geração, ver o choro das crianças, das mulheres, nos dói profundamente. A morte dos valentes soldados que morreram em defesa da pátria e os civis que foram assassinados vilmente por esse ataque covarde. Mas acima disso está nossa fortaleza, como uma nação que lutou a vida toda por sua liberdade.

O povo venezuelano está processando tudo o que aconteceu. Mas tem a firme convicção de que quer viver em paz. Essa é a maior vontade que se expressa na maioria do povo. Esperamos que a comunidade internacional acompanhe ao povo venezuelano nessa aspiração de independência e paz.

É possível um retorno de Maduro? Em um caso de vacância confirmada, você se arrisca a projetar um cenário eleitoral?

O que posso dizer é uma especulação, o meu sentimento como companheiro, como amigo do presidente Nicolás Maduro e se sua esposa, Cilia Flores. Eles têm que ser libertados. Eles devem voltar ao seu país. Eles são vítimas de um sequestro. Isso não pode ser aceito em um mundo onde deveria imperar os princípios do direito internacional humanitário.

Uma pergunta, se me permite, em um nível mais pessoal: você que conviveu muito tempo com o presidente Nicolás Maduro e o conhece intimamente. Como imagina que ele esteja vivenciando esses momentos de seu sequestro e prisão nos EUA? Vemos muitas fotos dele sorrindo: o que explica essa atitude do presidente?

Ele é um homem valente. Isso é o que posso dizer. Um homem com uma formação para enfrentar esse tipo de situação com dignidade.

Como vê a postura do Brasil nesse momento?

É difícil indicar qual deve ser a postura de qualquer outro governo. O Brasil tem um papel fundamental, uma liderança na América Latina, assim como o México. Para levantar sua voz em defesa da independência da Venezuela. Já não se trata da defesa de um governo ou de um projeto político. Se trata da defesa da independência de um país soberano, desse país viver em paz.

O direito da Venezuela administrar suas riquezas naturais para seu desenvolvimento harmonioso. Esperamos do Brasil e de todos os países do mundo que atuem para que esse precedente criado não fique impune, ao menos na reação política, na comunidade internacional, que deve interromper a tempo a arbitrariedade sem limites que o presidente dos EUA está exercendo.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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