A REVOLUÇÃO CONTINUA

Unidade fortalecida e ‘calma tensão’: comuneiros e comuneiras relatam ambiente interno na Venezuela

Agressão militar estadunidense acabou por unificar ainda mais as instituições do Estado e as organizações populares

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Mural em Caracas pede paz, enquanto o país se mobiliza contra a agressão estadunidense e pela liberdade do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e deputada nacional, Cilia Flores.
Mural em Caracas pede paz, enquanto o país se mobiliza contra a agressão estadunidense e pela liberdade do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e deputada nacional, Cilia Flores. | Crédito: Juan Barreto/AFP

Quando se fala em Venezuela, a mídia comercial alinhada aos Estados Unidos trata de reduzir o debate às disputas políticas no campo institucional, obviamente por sua enorme relevância no sistema de nações, no entanto, ignorando completamente que há 26 anos foi dada a largada de um projeto nacional de desenvolvimento que movimenta inúmeros setores da sociedade em torno da construção de um Estado comunal

Logo após a agressão militar estadunidense, a sessão da Alba Movimentos Venezuela, que reúne grande parte das organizações de base revolucionárias do país, emitiu um comunicado em que lista cinco tarefas estratégicas imediatas para enfrentar o momento, passando por ampliar a condenação nacional e internacional ao ataque; exigir a devolução ao território nacional do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e deputada eleita do país, Cilia Flores, sequestrados pelos Estados Unidos; defender e fazer cumprir a Constituição bolivariana; defender incondicionalmente e “com a própria vida” a soberania do país e “dar continuidade ao governo de transição comunal ao socialismo”. 

Ao contrário do que desejam os detratores da revolução bolivariana, o ataque militar ilegal deve unir ainda mais as organizações populares e as forças políticas revolucionárias, com foco na defesa da soberania nacional, como destaca Cira Pascual Marquina, pesquisadora e educadora popular da comuna El Panal.

“Após o ataque do imperialismo, o sequestro do nosso presidente e da primeira combatente, o que temos visto e vivido são mobilizações populares belas em apoio ao nosso governo, reivindicando a devolução do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, além de uma unidade inquebrantável interna do governo com as Forças Armadas e com o povo organizado”, avalia. 

“Por sua vez”, segue Cira, “as organizações populares e as comunas, das quais faço parte, estão organizadas e preparadas. As comunas são parte da milícia. A milícia é o espaço de união e expressão máxima da união cívico-militar. As comunas estão assegurando os territórios e garantindo que os espaços estejam sob o controle do povo. O poder popular tem um papel fundamental no presente para a defesa do projeto da soberania e da revolução, lado a lado com o governo revolucionário e com as Forças Armadas Nacionais Bolivarianas”, pontua.

Manifestações em Caracas condenam a agressão militar estadunidense e exige a devolução de Nicolás Maduro e Cilia Flores.
Manifestações em Caracas condenam a agressão militar estadunidense e exigem a devolução de Nicolás Maduro e Cilia Flores. – Federico Parra/AFP
| Crédito: Federico Parra/AFP

Cira afirma que o ataque ordenado pelo presidente dos EUA, Donald Trump não surpreendeu os setores politicamente mobilizados. 

“O ataque imperialista foi cruel e fora de qualquer marco legal internacional, mas nada surpreendente. Eles vinham anunciando o ataque à Venezuela, incluindo a nova doutrina de segurança nacional que aponta para uma mudança do imperialismo norte-americano em direção ao hemisfério e uma reativação da doutrina Monroe diante da crise de hegemonia do imperialismo norte-americano”, afirma. 

No mesmo sentido, Rome Arrieche, da comuna Miraflores, em Caracas, e membro do coletivo La Minka, conta que as organizações populares já prospectavam o cenário de uma intervenção armada no país devido à permanente ameaça dos Estados Unidos. 

“A situação atual na Venezuela, além de difícil, complexa e complicada, é algo que de certa forma já prevíamos. Este cenário chegou a ser considerado em muitos espaços de debate, discussão e militância venezuelana”, relata. 

Por outro lado, Arrieche afirma que as organizações populares avaliavam que, caso chegasse a esse extremo, haveria uma tentativa de impor um governo de direita, o que, para ele, passaria necessariamente pela neutralização não só do presidente da República, mas de todo o comando político e militar, que tem demonstrado ao longo da história recente lealdade ao projeto revolucionário. O que não aconteceu.

“Uma das possibilidades que sempre mencionamos era a de que o presidente fosse sequestrado e ocorresse uma mudança de comando. Ainda assim, acreditávamos que o sequestro não seria apenas de Maduro, mas que ele seria levado e acabariam com a maioria das figuras do comando. No entanto, o comando está intacto e cumpriu-se rigorosamente a Constituição sobre a sucessão, conforme estabelece a lei venezuelana”, considera o líder social.

Ana Maldonado, militante da Frente Francisco de Miranda, lembra que o próprio presidente Nicolás Maduro, durante uma alocução em setembro de 2025 em que denunciava a mobilização de tropas estadunidenses no Caribe, abordou diversos cenários e apontou os instrumentos de que dispunha o povo venezuelano para enfrentar uma situação de emergência. 

“Ele [Maduro] falou sobre o decreto de estado de comoção exterior entre setembro de 2025 e final de dezembro. Mencionou isso em várias oportunidades como um instrumento de defesa perante a ameaça militar dos Estados Unidos. Nós temos um amplo apego ao que dita nossa Constituição da República Bolivariana da Venezuela desde o processo constituinte de 1999. Sabemos o que fazer em caso de ausência temporária e absoluta de nosso presidente, sabemos como manter o fio constitucional”, afirma Maldonado, agregando, porém, que a Constituição não contemplava uma situação específica de sequestro após um ataque militar.

Ainda assim, relata a dirigente comuneira, a organização popular foi capaz de responder imediatamente à situação de emergência após a agressão estadunidense. 

“A Frente Francisco de Miranda está organizada em 4.500 núcleos de base comunitária. Desde o primeiro dia fizemos ações de organização, resistência e localização da população vulnerável para garantir que tivessem água, luz e remédios. Agrupamos-nos para fazer murais e pinturas para exigir a imediata libertação do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores em todas as redes, meios, ruas e paredes. Também nos somamos às mobilizações que ocorrem não somente em Caracas, mas em todo o país”, conta Maldonado.

‘Tensa calma’

Cira Pascual relata ao Brasil de Fato que desde o ataque militar dos EUA não houve nenhuma expressão pública de setores da oposição, e os atos que têm ocorrido internamente são justamente contrários à agressão e pela devolução do presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores. 

Internamente, temos um povo, um governo, Forças Armadas e uma milícia popular preparados e dispostos a defender a soberania. Esses têm sido dias de mobilização e não houve nenhuma expressão da oposição. Entendemos que este é um povo que em sua maioria é chavista, mas mesmo aqueles que não são chavistas se opõem à agressão imperialista. Setores muito minoritários celebraram, mas não houve expressão interna. Embora estejamos em um contexto de guerra, internamente há paz, estabilidade e um horizonte de construção de um projeto comunal de emancipação coletiva”, relata a militante. 

“Se você caminhar por Caracas, onde estou”, segue a comuneira, “você vai ver uma cidade tranquila onde o comércio está aberto. No primeiro dia o comércio não abriu, mas agora está tudo aberto. Há absoluta normalidade e um único governo com Delcy Rodríguez no comando neste momento, em um clamor coletivo pela devolução do presidente Nicolás Maduro”, descreve.

Por sua vez, Maldonado relata que “o ataque perpetrado por 150 naves supersônicas e 11 helicópteros atingiu o sistema elétrico e as comunicações em vários lugares da capital”, Caracas. “Isso vem sendo restabelecido, assim como progressivamente se tratou de restabelecer o espaço de defesa aérea e o transporte público, que já está completamente restabelecido. Desde o primeiro dia começou a ser garantido através de unidades dispostas por prefeituras e governos estaduais”, comenta.

Arrieche, por sua vez, relata uma “calma tensa”, com grandes mobilizações de setores que apoiam o processo revolucionário, sem registros de atos da direita. 

“Existe uma calma tensa, pois ninguém esperava que os gringos atuassem dessa maneira. A forma violenta e brusca da ação gerou um trauma em muitos venezuelanos. Sente-se o luto e a agressão no povo venezuelano. As pessoas não estão focadas em conflitos internos, mas sim em sentimentos de raiva. A Venezuela sofreu por muito tempo uma crise econômica imposta pelos gringos onde o foco é garantir o básico. Isso explica a tranquilidade que se observa nas pessoas. No entanto, é uma tranquilidade armada e disposta a lutar”, conta o comuneiro.

Massivas manifestações em Caracas em defesa da soberania venezuelana, da continuidade da revolução e da liberdade de Maduro e Flores.
Massivas manifestações em Caracas em defesa da soberania venezuelana, da continuidade da revolução e da liberdade de Maduro e Flores. – Ronaldo Schemidt/AFP
| Crédito: Ronaldo Schemidt/AFP

Embora reconheça os desafios do momento histórico, Arrieche lembra que as organizações populares vêm se preparando há anos para a defesa da soberania nacional e do projeto revolucionário.

“Isso é uma prova de como nos preparamos para esta contingência tão complicada. Isso reside precisamente na organização popular e na organização das pessoas. Trata-se de como superar tal situação e de como será manobrada daqui para frente a relação com os estadunidenses para evitar mais derramamento de sangue”, avalia Arrieche, agregando que tem havido e estão programadas novas mobilizações de apoio à presidenta interina Delcy Rodríguez e pela retorno ao país de Maduro e Flores durante todo o mês de janeiro.

“Os movimentos populares e organizações de base que não respondem diretamente à linha do partido estão organizados e se reunindo constantemente. Existe uma agenda coletiva para manter a unidade e a lealdade à companheira [Delcy] Rodríguez. Há organizações nos bairros, principalmente em Caracas, para enfrentar o que se chama de guerra prolongada ou permanente. A ação central é a mobilização permanente na rua para que se comunique e se fale”, completa.

“Todos os dias, desde domingo até o dia de hoje, houve mobilizações”, conta Ana Maldonado. “A primeira mobilização foi no domingo e temos fotos e vídeos. Depois, a instalação da Assembleia Nacional contou com um acompanhamento de uma mobilização popular na segunda-feira [5]. Ontem, terça-feira [6], houve uma massiva mobilização de mulheres, especialmente porque Cilia é uma mulher combatente que faz parte do movimento popular desde muito antes do comandante Chávez e foi advogada dele, não tendo perdido nenhum caso como advogada em todo esse tempo. Ou seja, ela não está ali somente como primeira dama sequestrada” ressalta a dirigente da Frente Francisco de Miranda, que ainda denuncia o papel da mídia pró-estadunidense na América Latina para promover a divisão interna. 

“Hoje há uma mobilização comuneira e se Trump acredita que está governando o país e disse à presidenta para reprimir mobilizações, isso não é verdade. Ela já as celebrou e as garantiu, assim como o nosso alto comando político militar. Tudo o que se possa difundir em relação a esta normalidade em unidade e mobilização permanente popular é muito importante porque as redes de notícias dizem que se está celebrando o sequestro do presidente ou mostram solidão nas ruas, desolação e desordem, o que não é verdade”, atesta Maldonado.

“Estamos fazendo uma mobilização permanente em cada comuna, circuito comunal, comunidade e bairro com cantos, poesias, acompanhamento integral e debates com argumentos que permitam blindar essa unidade e derrubar todos os mitos sobre este momento”, completa.

Confiança na direção política

Um aspecto destacado pelas organizações populares venezuelanas é a confiança na direção política, materializada, após a agressão militar, na figura de Delcy Rodríguez, a quem Ana Maldonado qualifica como “uma mulher leal e patriota”. “Aproveitamos esta oportunidade, para que se possa conhecer no exterior e também ao nível interno quem é Delcy Rodríguez em todas as suas dimensões”, propõe.

“Cada vez que o presidente Nicolás Maduro se referia a ela, chamava a de companheira ‘Delcy Eloína Rodríguez Gómez, uma companheira que teve diferentes responsabilidades ao longo de toda a revolução’. Ela é filha de Jorge Rodríguez, um dirigente revolucionário assassinado em 1976 pelos aparelhos repressivos da quarta República”, relata Maldonado. 

“Ela assumiu cargos de máxima responsabilidade em momentos de crise, como presidenta da Assembleia Nacional Constituinte, vice-presidenta Executiva e agora presidenta interina da Venezuela após o sequestro de nosso presidente Nicolás Maduro. Sua lealdade e sua alta competência para todas as responsabilidades exercidas se expressam na continuidade da luta e na unidade do chavismo perante as agressões externas”, rememora a líder social.

Futuro: “comuna ou nada”

Arrieche projeta um cenário de curto e médio prazo de novos ataques em diferentes níveis do regime estadunidense contra a Venezuela e a região, o que demandará maior coesão das forças populares. 

“O golpe foi muito duro, mas as forças estão se reagrupando sob o lema de pátria ou morte. Acreditamos que os ataques estadunidenses continuarão e que a Venezuela sofrerá novas agressões no futuro. Os planos dos estadunidenses no Caribe continuam e isso é apenas o começo. A perspectiva é que a situação escale nos níveis bélico, político, social e econômico, por isso devemos continuar nos preparando”, aponta.

Por outro lado, Cira lembra que os venezuelanos vêm sofrendo ataques há mais de duas décadas, desde quando decidiu construir seu processo político sem aceitar ingerência externa. E que mesmo em um contexto de agressão imperialista, mais que possível, é necessário pensar no futuro. 

Mulher chora durante manifestação pela liberdade de Nicolás Maduro e Cilia Flores, em Caracas, Venezuela.
Mulher chora durante manifestação pela liberdade de Nicolás Maduro e Cilia Flores, em Caracas, Venezuela. – Ronaldo Schemidt/AFP | Crédito: Ronaldo Schemidt/AFP

“O futuro é de luta. O imperialismo, através de Donald Trump, já disse que seu objetivo é mandar na Venezuela. Na Venezuela e em nenhum outro país se manda com bombardeios ou sequestros. O controle sobre o território é do povo e do Estado venezuelano. Isso implica que, enquanto há preparação para continuar defendendo a pátria, também há trabalho na organização territorial e no autogoverno com as comunas”, afirma. 

E são as comunas, precisamente, o farol que guia a atuação política das organizações populares venezuelanas. Territórios autogestionados, que organizam a coletividade a partir da realidade e das necessidades locais. Espaços de autogoverno criados a partir da Revolução Bolivariana.  

“As comunas são o exercício de autogestão popular e de democracia direta, participativa e protagônica. A Venezuela é um país profundamente democrático em muitos níveis, incluindo a democracia representativa formal. No entanto, esta sociedade é muito mais democrática porque a democracia chega até o território, ao bairro e ao campo através de autogovernos nos quais as pessoas decidem de forma assemblear como se organizar e resolver problemas. A comuna caminha sobre duas bases: a democracia direta expressa na assembleia, com a participação de todos e todas sem representação, e o controle direto sobre os meios de produção”, explica a fundadora da comuna El Panal. 

“As comunas possuem cada vez mais meios de produção cujo excedente não vai para a burguesia nem é propriedade estatal ou cooperativa, mas sim propriedade de todos os que vivem na comuna. O excedente é tributado à comunidade geral, que decide o que fazer com ele. Nosso horizonte a curto, médio e longo prazo é comunal e de democracia substantiva”, avalia Cira. 

“Enquanto lutamos pela soberania e dignidade do povo, construímos o projeto comunal para a construção do socialismo na Venezuela. Apesar da dor que carregamos pelo sequestro do nosso presidente e pelos mortos assassinados pelo imperialismo norte-americano, também carregamos esperança e sabemos que venceremos”, completa, agregando uma pitada de esperança ao projeto popular vilipendiado pela agressão imperialista.

“Eles não atingirão o objetivo. A Venezuela é uma ponta de lança e, por isso, a defesa da revolução bolivariana e da soberania venezuelana é fundamental não apenas para o povo da Venezuela, mas para toda a América Latina, o Caribe e para os povos do mundo que anseiam construir projetos soberanos”, finaliza a comuneira.

“Queremos dizer ao mundo que, com firmeza e valentia, declaramos que venceremos”, projeta Ana Maldonado.

Editado por: Nathallia Fonseca

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