Contra imperialismo

Especialistas analisam impactos dos ataques dos EUA à Venezuela para o Ceará

Uma das preocupações apontadas diz respeito à democracia e às eleições deste ano no Brasil

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Mobilização popular no entorno do Palácio Miraflores, sede do governo venezuelano | Crédito: Federico PARRA / AFP FacebookWhatsAppEmailXCompartilhar O bombardeio aéreo do governo Donald Trump, dos EUA, na madrugada deste 3 de janeiro de 2026, ao território venezuelano, para sequestrar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cília Flores, a fim de forçar pelas armas uma mudança de regime, viola a soberania da América Latina e tem um profundo significado para o Brasil e o mundo. A intervenção armada, e também a reação venezuelana em curso, marcam uma inflexão nas relações internacionais em escala mundial. O governo bolivariano segue de pé. Antes de tudo, o ataque militar na Venezuela marca uma nova etapa da guerra imperialista de intervenção e espoliação da América Latina sob o Corolário Trump. A guerra híbrida que se prolongava há mais de 25 anos culminou nessa madrugada em uma ação militar direta e sem máscaras. Consiste em uma tentativa de derrubar o projeto de independência política do povo venezuelano e representa um recado aos demais povos e governos da região de que devem se manter subordinados e dependentes de Washington pela via do terror, do medo, da instabilidade institucional promovida pelos Estados Unidos. Os alvos dos bombardeios explicitam uma tática precisa de atingir a unidade cívico-militar, principal base de sustentação do governo bolivariano. O objetivo estratégico não está oculto. O establishment estadunidense quer atingir dois objetivos com um único movimento. Por um lado, eliminar um governo independente que dá exemplo de resistência ao imperialismo na região para apropriar-se diretamente das riquezas naturais e energéticas venezuelanas, especialmente das maiores reservas provadas de petróleo do mundo. Por outro, quer impedir que a China, país eleito rival hegemônico, importe esse importante combustível e fonte de energia para o desenvolvimento, sendo que o país asiático é o destino de 80% das exportações venezuelanas. Vejamos como a tática dos bombardeios desse dia 3 de janeiro revelam a estratégia estadunidense. Alguns dos locais foram o Forte Tiúna e a base aérea de La Carlota, o Comando-Geral da Milícia Bolivariana (ao lado do Quartel da Montanha) e o Porto de La Guaira. Esses lugares representam uma mensagem muito clara: atingir simultaneamente as bases de sustentação civil e militar do governo bolivariano da Venezuela e afetar, indiretamente, a China. Em primeiro lugar os alvos das Forças Armadas. Os bombardeios atingiram o Forte Tiúna e a Base Aérea de La Carlota. O Forte Tiúna, principal e mais importante instalação militar da Venezuela, localizado em Caracas, sede do Ministério da Defesa, do Comando Estratégico Operacional da Força Armada, da Academia e a Universidade Militar Bolivariana, o Batalhão Ayala, a Corte Marcial e os tribunais militares. Atacar esse alvo significa que os EUA ativaram um plano para derrubar o principal centro de decisão militar estratégica do governo venezuelano. A Base Aérea de La Carlota, localizada no coração de Caracas, é um aeroporto militar e centro logístico de comando para operações para a proteção da Capital do país. É ponto de entrada e saída de equipamentos e tropas para a defesa do centro político, sendo também importante instalação de defesa da Capital. Com isso, os ataques vulnerabilizam duas das principais instalações militares da capital venezuelana. Em segundo lugar, o Comando Geral da Milícia Bolivariana é a sede da resistência civil armada. Responsável pela defesa territorial em união cívico-militar, mobilizando a população civil em apoio às FAN regulares. A Milícia bolivariana tem mais de 4 milhões de alistados, podendo esse contingente ser duplicado, com formação em técnicas de guerra assimétrica. Sua sede fica a poucos metros do Quartel da Montanha, ou Quartel do 4F, lugar histórico para a Revolução Bolivariana. Foi de lá que Hugo Chávez liderou uma rebelião contra o neoliberalismo, em 4 de fevereiro de 1992. Localizado no seio da mais tradicional e uma das mais populosas comunidades ou favelas caraquenhas, o complexo 23 de Janeiro, é o local que abriga os restos mortais do líder Hugo Chávez. Com vista frontal, está posicionado a menos de dois quilômetros do centro do poder político nacional venezuelano, o Palácio Presidencial de Miraflores. Esse lugar é um dos principais espaços simbólicos da resistência do povo venezuelano e também um dos pilares de sustentação popular ao governo bolivariano, abrigando população trabalhadora da Capital. Junto com os militares leais, os civis populares reverteram o golpe de estado consumado em 11 de abril de 2002. Finalmente, em terceiro lugar destaco o bombardeio do Porto de La Guaira, distante apenas 31 quilômetros da Capital e localizado nas adjacências do principal aeroporto do país, o Aeroporto Internacional de Maiquetía. La Guaira não é o principal porto de exportação de petróleo. Sua função principal é abastecer com suprimentos médicos, bens de consumo e manufaturados a capital venezuelana. Bombardear o Porto de La Guaira significa um recrudescimento ao bloqueio comercial e neutralização de uma fonte de abastecimento da Capital do país, que concentra o poder político, militar e social venezuelano. É um sinal que preparam condições para um asfixiamento posterior e prolongado, dando continuidade ao bloqueio e cerco que já estava em vigor, mas com maior violência. Em pesquisas anteriores encontrei evidências históricas de que o governo bolivariano da Venezuela tem como pilar fundamental a unidade cívico-militar, representada sobretudo pelo subproletariado urbano e pelos militares bolivarianos. O ataque militar estadunidense desta madrugada atinge o coração das forças mais fundamentais de sustentação tanto civis quanto militares do governo venezuelano. É, portanto, uma tentativa armada aberta de derrubada do regime bolivariano. Mas o governo não caiu. Segue com apoio interno e externo. O presidente Maduro e sua esposa, Cília Flores, foram sequestrados e estão a caminho dos EUA. Segundo o general Dan Caine, chefe do Estado Maior estadunidense, estão sendo levados de navio para serem “julgados” por “narcoterrorismo” nos EUA, um crime não tipificado no Direito Internacional e uma flagrante ilegalidade, além de um ato brutal e imoral de violação de direitos humanos e da soberania venezuelana. Resistência de militares e do povo A reação e resistência venezuelana também deve ser analisada em seu significado histórico já nessas primeiras horas. Militares leais e o povo estão se mobilizando em todas as partes do país. A liderança da resistência está sendo protagonizada politicamente por uma mulher, a vice-presidenta Delcy Rodríguez, uma mulher socialista. E pelo ministro do Interior, Justiça e Paz, Diosdado Cabello, que lidera as forças militares leais. A rede Telesur de televisão transmite os manifestos de apoio popular e militar e o pedido das ruas de devolução e regresso de Maduro e Cília ao país. É bom lembrar que o povo venezuelano protagonizou a guerra de independência no início do século 19. Entregou enorme sacrifício à causa da libertação da América e venceu. E derrotou também inúmeras tentativas de golpe de Estado. Porém, um ataque militar desta magnitude é uma novidade em mais de 100 anos de história do país. Essa violência imperialista pode representar uma inflexão histórica em toda a região. O ataque está provocando um rechaço imediato de governos de diversos países e movimentos sociais ao redor do mundo. Todos repudiando os ataques e denunciando sua ilegalidade, que fere o direito internacional, e são atos brutais e imorais. O presidente Lula, a presidenta Claudia Sheinbaum, do México, e o presidente Gustavo Petro, da Colômbia, lideram como presidentes de países latino-americanos um forte repúdio, junto com Cuba. O presidente Emmanual Macron declarou que o sequestro do presidente Maduro viola a legislação internacional. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, diz que a violação do direito internacional por parte dos EUA é inaceitável. O MST convocou manifestações de apoio ao povo venezuelano no Brasil. É momento de todos e todas defendermos a soberania do povo venezuelano e rejeitarmos firmemente a intervenção imperialista na América Latina. * Historiadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato. Facebook WhatsApp Email X Compartilhar Editado por: Katia Marko Após sequestrar Maduro, Trump diz que EUA vão administrar Venezuela e controlar petróleo Internacional Ataque à soberania Após sequestrar Maduro, Trump diz que EUA vão administrar Venezuela e controlar petróleo Venezuelanos saem às ruas contra ataques dos EUA e sequestro de MaduroInternacional Apoio popular Venezuelanos saem às ruas contra ataques dos EUA e sequestro de Maduro Alba, MST e movimentos populares repudiam ataque à Venezuela e convocam manifestaçõesInternacional Repercussão Alba, MST e movimentos populares repudiam ataque à Venezuela e convocam manifestações Relatos de uma noite de terror: como os ataques dos EUA impactaram a população de CaracasInternacional Golpe Relatos de uma noite de terror: como os ataques dos EUA impactaram a população de Caracas BDF Newsletter Seu e-mail Seu nome Escolha as listas que deseja assinar: Editorial BdFPonto
Mobilização popular no entorno do Palácio Miraflores, sede do governo venezuelano. | Crédito: Federico PARRA / AFP

O mundo continua assistindo e aguardando os desdobramentos do ataque dos Estados Unidos à Venezuela, na qual resultou na prisão do presidente eleito Nicolás Maduro. Os resultados dessa ação seguem reverberando. O mais recente, como mostrou o Brasil de Fato, diz respeito ao anúncio feito pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou na terça-feira (6) que o governo da Venezuela aceitou entregar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo ao país. Mas qual será o impacto desse ataque para o Ceará? Especialistas conversaram com o Brasil de Fato e apresentaram uma breve análise sobre os impactos tanto sociais como econômicos para o estado.

Economia

Fábio Sobral, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), economista com doutorado em Filosofia pela Unicamp, analista econômico e geopolítico afirma que para o Ceará os impactos desses ataques podem ser de forma indireta, por exemplo, no aumento do combustível.

“O que pode ocorrer é indiretamente, como já ocorreu, o aumento dos preços do petróleo e uma certa valorização do dólar do câmbio, do dólar frente ao Real, isso aumentaria a inflação dos produtos importados, então a economia cearense, ao comprar dos Estados Unidos, com o dólar mais caro, se tornaria mais difícil, haveria uma certa inflação, e o petróleo é fundamental, ele acaba corrigindo o preço dos seus derivados, dos combustíveis, e com isso fretes, transportes, deslocamentos todos são afetados”, explica Sobral.

Só que esses efeitos, como Sobral mesmo informa, não atingem somente o Ceará, mas também outras partes do mundo. Mas para Sobral, a maior preocupação em relação a esses ataques é em relação ao destino do próprio Brasil, das Américas do Sul e Central frente às ações agressivas dos Estados Unidos. “Nós sabemos que no Ceará, por exemplo, tem reservas estratégicas de urânio, de minério, de ferro. Aqui no litoral cearense, provavelmente, há essa zona de pré-sal que vai do Rio Grande do Norte até o Amapá, então nós temos ativos estratégicos que os Estados Unidos podem ter interesse em controlar. Então, as maiores preocupações resultam da agressividade [norte] americana frente a recursos da América do Sul”.

Democracia

Outra preocupação apontada por ele diz respeito à democracia e às eleições deste ano no Brasil. “Como é que o governo Trump vai se posicionar frente as eleições de 2026? Ele vai interferir nas nossas eleições indiretamente com apoio a um candidato, com as mídias sociais, fazendo um ataque sistemático a posições que divirjam? Ou pode até interferir diretamente? Essas são as grandes preocupações”.

Social

Fabiano Sousa, mestre em Ensino de História e professor da Rede Pública Estadual do Ceará, aponta como esses ataques poderiam afetar o Ceará. “À primeira vista não afetaria o Ceará, a não ser que você olhe isso, talvez, através do espectro político, onde os setores de oposição ao governo Elmano poderiam utilizar este acontecimento para associar o governo Maduro a governos de esquerda em geral, no caso, o governo Elmano no Ceará, o associando, inclusive, a uma questão que é muito latente aqui no nosso estado ultimamente, o combate ao tráfico de drogas”.

De acordo com Sousa, essa temática do combate às drogas também se tornou um dos pilares do governo do estado, mas, como ele mesmo aponta, apesar dos trabalhos e números apresentados pelo governo, a oposição bate muito nesse quesito dizendo que o governo do estado não teria feito o suficiente, chegando até mesmo a fortalecer o discurso de que “o estado estaria entregue às organizações criminosas”, e esse poderá ser um discurso muito utilizado pela direita e extrema-direita neste ano, assim como vimos em casos nacionais recentes, como no Rio de Janeiro.

Sousa também acredita que após o ataque à Venezuela, haverá um combate incessante da direita e extrema-direita no Ceará em relação a qualquer tipo de organização popular, principalmente no que diz respeito à reivindicação por melhores condições de vida, de trabalho e de moradia.

Políticos de esquerdas se solidarizam com população venezuelana

Após a ação dos Estados Unidos na Venezuela, diversos políticos de esquerda do Ceará mostraram apoio ao povo Venezuelano e criticaram a ação estadunidense. O governador do estado do Ceará Elmano de Freitas (PT), por exemplo, disse em suas redes sociais que “O ataque contra a Venezuela é grave e representa precedente extremamente perigoso. Ataques a nações violam as regras do direito internacional e contribuem para o surgimento de novas guerras, que só trazem mortes, sofrimento e destruição. Que a ONU encontre o melhor caminho para responder e mediar essa situação em solo venezuelano. O diálogo e a paz devem prevalecer, sempre!”

O deputado estadual Guilherme Sampaio (PT), também se manifestou em suas redes sociais. “A comunidade internacional deve repudiar imediatamente a agressão americana, sob pena de assistir de forma omissa o interesse econômico de Trump fazer do mundo seu quintal, causando morte e destruição. Inaceitável!”

“É muita má-fé ou desconhecimento dizer que os EUA agem para enfrentar ditaduras ou para combater o narcotráfico. Diversas ditaduras são aliadas dos EUA no mundo (p.ex. Arábia Saudita, Egito, El Salvador, Paquistão) e recentemente Trump perdoou o ex-presidente de Honduras condenado por narcotráfico. O que ele quer é o petróleo e mais poder sobre a América do Sul!”, disse a deputada estadual Larissa Gaspar (PT).

Extrema-direita comemora ataque à Venezuela

Em contrapartida, diversos representantes da direita e extrema-direita mostraram apoio aos Estados Unidos e ao Trump. Para Sobral, “A comemoração de parlamentares e de pessoas que expressam lideranças da direita, da extrema-direita, a um ataque a um país para controlar seus recursos naturais significa o cúmulo da subserviência, do colaboracionismo”. Sobral continua, “aqui, esse grupo de extrema-direita desempenha o papel de traidores do povo brasileiro, traidores do Brasil. São representantes muito mais dos seus interesses privados, eles estão muito mais de olho no quanto vão ganhar em dinheiro do que nos destinos do nosso povo. É extremamente vergonhoso”.

O Brasil de Fato também procurou ouvir o governo do estado do Ceará a respeito dos impactos, mas até o fechamento da matéria não houve retorno.

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Editado por: Lívio Pereira

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