Convocadas com apenas algumas horas de antecedência, as mobilizações na Colômbia bateram recordes históricos de participação popular. Em um contexto de crescente hostilidade por parte de Washington, milhares de colombianos saíram às ruas para defender a soberania nacional e condenar as ameaças de Donald Trump contra o país.
Durante toda a jornada de ontem, estima-se que entre 200 mil e 400 mil pessoas se concentraram nas principais cidades, manifestando também sua solidariedade ao povo venezuelano. Desde a manhã até a tarde, as praças centrais ficaram lotadas de pessoas carregando bandeiras e cartazes improvisados com consignas escritas à mão, aguardando que o presidente Gustavo Petro fizesse um discurso à nação.
Embora as tensões entre a Casa Branca e a Casa de Nariño não sejam recentes, elas se intensificaram após os atentados perpetrados em Caracas no último sábado (3) e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelo governo dos Estados Unidos.
Depois que o presidente Petro condenou os ataques à Venezuela e se posicionou publicamente em defesa da soberania do país vizinho, Trump afirmou, apenas algumas horas depois, que a Colômbia estava governada por “um homem doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos”, sugerindo em coletiva de imprensa que não descartava uma intervenção no país.
Convocado para as 16 horas, o início do ato central atrasou-se por duas horas. Nesse período, soube-se que o presidente Petro manteve uma longa conversa telefônica com seu homólogo norte-americano.
Ao se dirigir à multidão reunida na Praça Bolívar, em Bogotá, o mandatário afirmou que, embora tivesse preparado um discurso “bastante duro”, após a conversa telefônica, “teria que fazer outro”. Durante pouco mais de uma hora, o presidente colombiano destacou que, nos últimos 34 anos, sua prioridade tem sido a paz, ressaltando a importância de restabelecer canais diretos de comunicação entre os dois países.
“Se não se dialoga, há guerra; a história da Colômbia nos ensinou isso”, afirmou Petro, acrescentando que “o que acontece hoje, depois de tanto tempo, é que falamos e restabeleço a comunicação pela primeira vez”.
A defesa da soberania
A grande participação se explica pela “onda de rejeição e de coesão social” gerada pelas declarações de Trump, uma indignação que conseguiu transcender até mesmo os apoiadores do presidente Petro. A avaliação é da historiadora e jornalista Diana Carolina Alfonso ao Brasil de Fato.
Alfonso enfatiza que, no discurso de Petro, é fundamental prestar atenção tanto ao que se diz quanto ao que se omite. Considera positivo que tenha sido aberto um canal de diálogo e reconhecimento mútuo, algo que “até agora não apenas estava fechado, como apresentava uma possibilidade real de intervenção”.
Além disso, ela acrescenta que esse reconhecimento diplomático “demarca a possibilidade de construção de uma agenda” que contemple temas sensíveis, como segurança, “mas também questões que devem ser discutidas, como a guerra às drogas”.
Apesar dos avanços do governo Petro — como os números recordes de apreensões e destruição de laboratórios, bem como a substituição voluntária de cultivos —, a política antidrogas continua sendo um dos pontos que mais geram tensões entre Washington e Bogotá.

“A Trump enganaram. Mas Trump não é bobo”, afirmou Petro durante seu discurso, apontando como responsáveis setores da direita colombiana ligados à direita de Miami. “Essa bolsa de mentiras contadas lá chegou a convencer Trump de que eu tinha fábricas de cocaína.”
Nesse sentido, Carolina Alfonso observa que, de forma recorrente, Petro tem reforçado que não pode haver uma guerra às drogas “sem identificar os padrões do modelo econômico capitalista sobre os quais parte da burguesia colombiana construiu negócios ligados ao narcotráfico”.
“Durante seu discurso, Petro apontou o irmão de Álvaro Uribe Vélez, gestor da organização paramilitar Los Doce Apóstoles, cujas vítimas podem chegar a 700 pessoas, como um dos envolvidos tanto no êxodo de sua própria família para o exterior quanto em seu posterior asilo fora do país”, ressalta.
Entre os silêncios do discurso, Alfonso destaca a ausência de qualquer menção ao sequestro de Nicolás Maduro. “Infelizmente, não houve nenhum tipo de pronunciamento sobre seu sequestro, nem sobre a exigência de sua libertação, e muito menos sobre Cilia Flores, companheira do presidente Maduro.”
Tensões e disputa eleitoral
Após quatro anos do governo progressista do Pacto Histórico, liderado por Gustavo Petro, e com uma direita que enfrenta dificuldades para apresentar uma alternativa, a Colômbia terá, no próximo dia 31 de maio, um processo eleitoral crucial. É nesse contexto que, segundo Alfonso, deve-se entender o aumento das agressões por parte dos Estados Unidos contra o país.
“O atual candidato da ultradireita uribista colombiana, De la Espriella, não apenas celebrou o bombardeio em território venezuelano, como durante meses tentou vincular o candidato da esquerda do Pacto Histórico, Iván Cepeda, ao suposto Cartel dos Soles, algo que ficou ridículo agora que a própria justiça dos Estados Unidos teve de aceitar que não existe”, afirma.
Explica ainda que “De la Espriella surge como defensor e advogado das Autodefesas Unidas da Colômbia, uma macroestrutura criminosa da ultradireita colombiana que, segundo organismos de direitos humanos, assassinou mais de 200 mil colombianos. Surge da defesa de paramilitares e narcotraficantes e depois vai viver nos Estados Unidos”.
Carolina Alfonso destaca que a intenção de De la Espriella de vincular Iván Cepeda “ao fantasioso Cartel dos Soles” não constitui apenas uma narrativa falsa para diminuir seu apoio eleitoral, mas visa “gerar o contexto para a aplicação de uma intervenção de caráter terrorista e criminal em nosso território”.
