BICICLETANDO

Pedalar é manter a esperança em equilíbrio 

Nunca vou entender a frieza com que alguém pode, deliberadamente, atropelar um ciclista

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Porto Alegre não é uma cidade acolhedora para ciclistas. E não é apenas pela falta de ciclovias, mas também pela cultura carrocentrista e pela covardia de alguns motoristas
Porto Alegre não é uma cidade acolhedora para ciclistas. E não é apenas pela falta de ciclovias, mas também pela cultura carrocentrista e pela covardia de alguns motoristas | Crédito: ana c.

“Mudaram as estações, nada mudou…”

O verso conhecido, no timbre inconfundível de Cássia Eller ecoa nos meus ouvidos, e abafa meus passos apressados enquanto caminho pela cidade em busca de um refúgio para escrever.

“mas eu sei que alguma coisa aconteceu, tá tudo assim, tão diferente.”

Sento na mesinha de sempre, no café vizinho e observo o movimento. É novamente o início de um novo ano, mas nem tão novo assim. O novo número do calendário apenas nos convoca a continuar, assim como quem pedala, conferindo equilíbrio ao que se movimenta e avança. Ciclistas, corredores, pedestres, motoristas ─ é novamente segunda-feira. Observo o movimento enquanto dirijo as palavras e digiro os sentimentos recentes. Para quem olha da calçada, é nítida a diferença entre os transeuntes urbanos e seus meios de transporte. E Intimamente, refaço a pergunta que não me abandonou no último mês: até quando um carro será utilizado como uma arma?

Foi ali na outra esquina do tempo, na metade do mês de dezembro, e na outra esquina do bairro, ainda aqui na Cidade Baixa, que um homem, de dentro de seu carro, achou aceitável atropelar, deliberadamente, outro homem, em uma bicicleta.

Já faz um mês que aconteceu e é um assunto que me desacomoda. Acho que nunca vou entender a frieza com que alguém pode, deliberadamente, atropelar um ciclista. Não é perceptível a quem dirige que seu carro em movimento pode causar um dano fatal? Não é do código de trânsito brasileiro a regra que “o maior protege o menor”. Como é aceitável que um crime desses aconteça assim? Como é aceitável que a Brigada Militar libere o motorista sob “tentativa de lesão corporal”? O caso do atropelamento de Carlos Leandro, para além de revolta, tem gerado movimento nos cicloativistas de Porto Alegre.

O pra sempre, sempre acaba.

Costumo dizer que me exercito porque preciso. A corrida, que entrou por acaso na minha vida, não por acaso também foi saindo. Ainda corro, mas menos. É como se correr fosse uma ferramenta de regulação intensiva na manutenção emergencial da saúde mental. Os treinos de força são para que o corpo sustente as atividades que a mente precisa.

Mas a bicicleta ─ a bicicleta é uma dose sublingual de dopamina. Bate imediatamente, conforme as pernas impulsionam os pedais e as rodas ganham chão, eu imediatamente sinto um sorriso se formando no meu rosto tocado pela brisa. Pedalar pela cidade é uma sensação de liberdade e conquista. De pertencimento e território. Até que um motorista irresponsável nos faça o primeiro “fino”. E aí, a realidade nos atropela.

Porto Alegre não é uma cidade acolhedora para ciclistas. E não é apenas pela falta de ciclovias, embora se note que as que existem estão bastante inseguras: esburacadas, mal sinalizadas, começando e terminando no meio do nada… mas também pela cultura carrocentrista que habita sua população e pela covardia de alguns motoristas. Não há biclicletários disponíveis nas calçadas, assim como não há espaço seguro nas ruas.

Não me parece algo tão difícil de ver: um ciclista no trânsito. Quem sabe dirigir um veículo, pode tranquilamente desviar de um ciclista da mesma forma como se desviaria de um outro carro. Não há justificativa para tamanha violência contra uma pessoa em situação mais vulnerável.

Há um mês, uma SUV branca, dirigida por um homem aparentemente possuído pelo espírito do desenho do Pateta no trânsito, foi, deliberadamente jogada contra a bicicleta de Carlos Leandro. Ele foi hospitalizado e, infelizmente, veio a óbito algumas semanas depois, deixando uma angústia presente em seus familiares, amizades e em cada pessoa que se aventura a sair de bicicleta pelas rua da Capital.

Em recente entrevista para o Sul21, a filha de Carlos relatou que o pai foi encontrá-la em um samba, de bicicleta. Depois, ele foi para a Cidade Baixa, ainda de bicicleta, e cruzou com esse o motorista na rua João Alfredo, que cortou ele. Quando eles se cruzaram de novo, o cara começou a ameaçar, falar um monte de besteira, fazer sinal de passar faca no pescoço. Um relato que – infelizmente é comum para quase toda pessoa que se desloca de bicicleta na cidade.

Para a EPTC, o aumento no números de sinistros envolvendo bicicletas em 2025 é atribuído ao “crescimento significativo” do uso da bicicleta como meio de deslocamento urbano e que “a maior presença de ciclistas nas vias amplia a exposição a riscos e ajuda a explicar o volume de ocorrências registrado no ano”. Como se o cidadão, enquanto ciclista, fosse “culpado” por optar se locomover de uma forma menos sedentária, menos danosa ao ambiente e mais econômica. Na contramão da mobilidade urbana, a cidade não entrega o mínimo de estrutura e segurança. Um sonho distante é que ela ─ a cidade ─ passe a incentivar, ao invés de punir quem pedala.

BiciAto nesta terça-feira (13)

Na próxima terça-feira (13), um BiciAto em memória de Carlos Leandro vai acontecer as 19h30, saindo do Largo Zumbi dos Palmares, na Cidade Baixa. Ciclistas descerão de suas bicicletas, e em marcha, seguirão até o local do acidente, onde será fixada uma ghost bike ─ em memória de Carlos. A violência no trânsito não é só um problema dos ciclistas e, por isso, todas as pessoas são-bem vindas a se mobilizar nesse momento.

Na próxima terça, 13 de janeiro um BiciAto em Memória de Carlos Leandro vai acontecer as 19h30, saindo do Largo Zumbi dos Palmares | Crédito: Divulgação

Mas nada vai conseguir mudar o que ficou

Na gangorra das emoções, pedalar é um ato de coragem e resistência. 

No último dia 7 de janeiro, o Pedal das Gurias (PDG) celebrou seus 10 anos. O coletivo que estimula mulheres e pessoas não-binárias (NB) a desbravar a cidade de bicicleta festejou uma década de existência, ancorando a coragem de quem tá começando e reforçando a importância do trânsito ser um espaço seguro.

Para quem pensa e vive além do carrocentrismo, “as gurias” atravessam bairros e propõem trajetos para iniciantes, cumprindo uma função primordial de iniciação de ciclistas urbanas. E existe algo de quase mágico nesse movimento. Uma sensação única de estar entre parcerias.

Apesar da insegurança, apesar do assédio, apesar do risco, apesar de todos os obstáculos que vivenciamos diariamente enquanto mulheres, LGBTQIAP+ e pessoas não-binárias: resistimos | Crédito: arquivo PDG

Um lampejo de esperança a cada uma que se soma a esse movimento. Apesar da insegurança, apesar do assédio, apesar do risco, apesar de todos os obstáculos que vivenciamos diariamente enquanto mulheres, LGBTQIAP+ e pessoas não-binárias: resistimos. Durante 10 anos mantém viva a busca pela autonomia através do pedal. Durante 10 anos em organização horizontal, o PDG é a prova viva que resistir é justo e necessário. Uma década de história sobre rodas. Uma década de atividade e afetividade.

Na dianteira das micro-revoluções diárias, cada uma que se soma ao PDG rompe uma barreira, engrossa uma fileira, alimenta uma esperança. Numa cidade onde não cabem mais carros, cada bicicleta é uma alternativa e uma esperança.

Ainda que tenhamos muito a rodar, existem caminhos possíveis. Ainda que Porto Alegre seja como uma criança numa bicicleta com rodinhas ─ ainda experimental, insegura e desequilibrada.

Cada motorista que experimenta a bicicleta, pelo menos uma vez, percebe que o trânsito é feito de pessoas. E cada pessoa que começa a pedalar pende a balança um tantinho mais para o lado da esperança

* ana c, de carolina, é comunicadora por vocação, produtora cultural por capricho e multiartista por essência. mulher lésbica, feminista e latinoamericana, escreve para dar sentido ao que sente.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Marcelo Ferreira

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