Isolada?

Diplomacia internacional entende que chavismo é ‘único caminho possível’ para a Venezuela

Depois de reunião entre Delcy Rodríguez e corpo diplomático, Itália anunciou que vai promover as relações

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Ato em Homenagem aos Mártires Venezuelanos e Cubanos
Delcy Rodríguez presta solidariedade a uma familiar de vítima dos ataques dos EUA contra a Venezuela durante ato em Homenagem aos Mártires Venezuelanos e Cubanos | Crédito: Ministério das Comunicações da Venezuela

Os ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela no último 3 de janeiro levantaram uma série de questionamentos da imprensa internacional sobre a legitimidade do governo chavista no país caribenho. Mas essa não é a percepção de outros governos sobre Caracas. Depois de um encontro entre a presidenta interina, Delcy Rodriguez, e o corpo diplomático europeu, ficou clara a ideia de que o único governo possível para a Venezuela é o chavismo.

A percepção de diplomatas que estão na Venezuela é de que todos os países que têm representação em Caracas querem “entrar no barco” da atual presidenta com interesses em fazer negócios petroleiros, abertura de contatos com empresas e avançar na libertação de presos no país. 

O caso mais emblemático foi o da Itália. Mesmo governada por uma presidenta da extrema direita, Giorgia Meloni, o país anunciou nesta terça-feira (13) que o encarregado de negócios da diplomacia italiana na Venezuela será promovido a embaixador. O aumento no nível das relações entre dois países governados por espectros políticos antagônicos foi o passo que o governo venezuelano precisava e simboliza o que os diplomatas entendem ser uma “chancela” ao chavismo como único caminho para a estabilidade nacional.

No encontro, o ministro das Relações Exteriores venezuelano, Yván Gil, disse que foram discutidas as relações entre os países em diferentes âmbitos. 

“Analisamos o estado das relações entre a Venezuela e os governos da União Europeia, do Reino Unido e da Confederação Suíça. Revisamos as relações comerciais e econômicas em áreas como energia, educação, ciência, tecnologia e indústria farmacêutica, nas quais empresas europeias estão presentes na Venezuela há muito tempo, tudo em termos cordiais e francos”, disse o chanceler depois do evento.

A imagem que o chavismo passou nos últimos dias é de que é o único movimento organizado, coeso e que tem domínio real da situação econômica do país. Além disso, o apoio popular demonstrado pelos chavistas nas ruas nos últimos dias também foram um sinal positivo para o governo, já que não foram registradas marchas expressivas em favor de opositores desde o sequestro de Maduro.

Os relatos são de que a oposição venezuelana não passa a segurança de que teria uma gestão capaz de ampliar a produção petrolífera, por exemplo, ao contrário do que a própria Rodríguez fez desde que assumiu o ministério do Petróleo.

O êxito de Delcy Rodríguez no governo venezuelano se dá em duas frentes. Primeiro, ela assumiu o ministério da Economia em meio a uma das crises mais profundas vividas pelo país por conta de um dos bloqueios mais brutais à economia venezuelana, imposto pelos Estados Unidos a partir de 2015. A inflação, que chegou a atingir 344.510% ao ano em 2019, foi estabilizada na gestão de Rodríguez. 

A atual presidenta conseguiu baixar o Índice de Preços ao Consumidor para 4% ao mês em 2024. A inflação acumulada terminou 2024 em 16,6%, um dos menores valores registrados pelo país desde a imposição das sanções estadunidenses.

O plano econômico que driblou o bloqueio dos EUA superou os resultados esperados e, em 2024, ela foi deslocada para comandar o Ministério do Petróleo, um dos mais importantes do país. Depois que a Casa Branca proibiu que o país exportasse seu principal produto, a produção petroleira despencou na Venezuela. Se o país chegou a produzir 3 milhões de barris por dia em 2013, 11 anos depois esse montante estava em 300 mil barris. 

Depois que assumiu o ministério, Rodríguez conseguiu impulsionar a produção e, segundo dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), a Venezuela conseguiu ampliar sua produção para 1 milhão de barris por dia ainda em 2024. 

Todas essas credenciais são lidas pelos diplomatas como um sinal de estabilização da Venezuela e de uma renovação possível no chavismo depois de 13 anos de mandato de Nicolás Maduro. A percepção dos representantes que estão no país caribenho é de que, se Maduro já era um sinal de estabilidade venezuelana, com a presidenta interina isso se reforça. No entendimento dos diplomatas, ela tem capacidade suficiente para negociar com diferentes setores da sociedade e até companhias estrangeiras para fazer uma gestão exitosa, mesmo depois do bombardeio estadunidense, e, principalmente, mantendo a linha política do chavismo. 

A própria estatal petroleira venezuelana, PDVSA, publicou uma nota na semana passada dizendo que continuaria os negócios com os EUA, mesmo depois dos ataques. Washington chegou a apreender navios no mar do Caribe nos últimos dias em uma tentativa de intimidar empresas russas e chinesas que compram petróleo venezuelano. 

Trump anunciou na última sexta que se reuniria com representantes de empresas petroleiras para discutir o futuro da exploração na Venezuela. De acordo com jornais estadunidenses, representantes da Repsol, Chevron, Exxon, ConocoPhillips, Continental, Halliburton, HKN, Valero, Marathon, Shell, Trafigura, Vitol Americas, Eni, Aspect Holdings, Tallgrass, Raisa Energy e Hilcorp participarão dos diálogos.

Nas redes sociais, Trump disse que serão investidos cerca de US$ 100 bilhões (R$ 537 bilhões) na indústria petroleira venezuelana.

As próprias negociações para a reabertura das embaixadas em Washington e Caracas foram um sinal positivo para as relações exteriores venezuelanas. Além de poder preparar a defesa de Maduro nos EUA, um dos principais objetivos é restabelecer canais comerciais que haviam sido rompidos nos últimos anos, depois das sanções dos EUA.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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