FORÇA BRUTA

Abismo do não dito

'Palavras são voz. Pontes. Também são colo. A falta delas fere. Machuca. Sangra'

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O agricultor Marcos Daniel Nörnberg, de 48 anos, foi morto pela Brigada Militar na madrugada desta quinta-feira em sua residência, em Pelotas
O agricultor Marcos Daniel Nörnberg, de 48 anos, foi morto pela Brigada Militar na madrugada desta quinta-feira em sua residência, em Pelotas | Crédito: Arquivo pessoal/Reprodução RBS

Ontem a pressa tirou a vida. Hoje a cautela atrasa as palavras. O café não desce. Ouço a entrevista na rádio enquanto o pão vai torrando.

O corregedor da brigada escolhe as palavras. Se apoia nos segundos de sinapse. Precisa explicar. Fundamentar a ação desastrosa.

Ontem um homem dormia. Hoje uma família vela o futuro. Ele não vai ver os netos nascerem. Queria paz. Arar a terra e semear. Sábados de feira. Chinelo de dedos e vida simples.

Todos dormiam. A casa foi invadida. Arma em punho. Gritaria. Pé na porta. Porto seguro virou palco da dor. Humilhação. Força bruta. Morte.

Raquel denunciou. Colheu forças e contou. Minúcias de detalhes. Expôs a barbaridade. A história que muitas vezes fica submersa pela dor. Notícia factual. Com sangue fresco. Com dor aguda.

As palavras tiveram eco. As perguntas também. Indignação coletiva. E respostas não dadas. Um enredo de narrativas pra explicar o inexplicável.

“Uma infeliz coincidência”, disse um.

O que o senhor diria para a Raquel, pergunta a entrevistadora.

“Iremos apurar o evento da forma mais rigorosa possível”, disse outro.

[Evento?]

Palavras são voz. Pontes. Também são colo. A falta delas fere. Machuca. Sangra.

Os homens que ouvi nas entrevistas não souberam usá-las. Preocupados na defesa, esqueceram do abraço. O abismo está no que não foi dito. Na não compreensão. Desde o começo dessa história triste.

Hoje os morangos estão na estufa.

A mão do homem não.

“Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa, não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia, me deseja também uma coisa bem bonita, uma coisa qualquer maravilhosa, que me faça acreditar em tudo de novo, que nos faça acreditar em tudo outra vez”.

Caio Fernando Abreu [Morangos mofados]

* Gabi Mazza é jornalista e vive em Pelotas.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Katia Marko

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