Para o livro Vozes invisíveis. A Violência que ecoa na pele das mulheres (Editora Lumen Juris), a defensora pública do Rio de Janeiro Raphaela Jahara acolheu histórias de dor e medo de moradores do Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro.
Em 2021, a comunidade foi palco de uma chacina policial com 13 mortos, na sequência de outro massacre igualmente chocante no Jacarezinho que vitimou 28 pessoas. No livro, Jahara, reconstrói, pela perspectiva feminina, o dia em que a violência interrompeu a vida no Salgueiro e traumas sentidos até hoje.
Anos depois, o Estado continua promovendo a matança como política de segurança pública. A defensora pública mergulha no cotidiano de sete mulheres do Complexo do Salgueiro, com idades entre 27 e 62 anos, que relataram o impacto da operação. Uma delas conta que o filho, de 14 anos, parou de estudar depois de ver um vizinho baleado a caminho da escola.
:: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? ::
Na obra, fruto da dissertação de mestrado da autora na PUC-Rio, sob orientação da professora Gisele Cittadino, a pesquisadora também confronta dados oficiais e produzidos por entidades independentes, como o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos, da Universidade Federal Fluminense (GENI-UFF), o Instituto Fogo Cruzado e a Ouvidoria Externa da Defensoria Pública.
Confira a entrevista:
Brasil de Fato – Como seu trabalho na Defensoria, ou experiências pessoais, levaram você a abordar a violência de Estado com um olhar sensível para a situação das mulheres nesse contexto?
Raphaela Jahara – A minha atuação como defensora pública me proporcionou enxergar essas pessoas como indivíduos, titulares de direitos, e não meros números. Atendo essas mulheres no cotidiano de suas vidas em diversas áreas: cível, família e criminal. Elas acompanham os processos de seus familiares ou são partes neles.
São Gonçalo é uma das regiões mais impactadas por operações policiais, que já resultaram em chacinas. Que reflexões você faz sobre a escolha da matança como política de segurança pública?
O livro conclui que a atual política de segurança pública não traz segurança e viola os direitos da população que mora nas áreas conflagradas. Somente uma política de segurança cidadã pode resolver, a longo prazo, a violência urbana, associada a outras políticas públicas, como saúde, educação e transporte. O Estado só chega às favelas com violência e é omisso na garantia de direitos.
Que relatos você pode destacar que exemplificam essa rotina de medo e violência imposta?
Na pesquisa para o livro, ouvi muitas histórias de dor. Mas o que mais percebi foi o medo de ser alvejado pelos disparos de fuzil do caveirão aéreo, as sucessivas invasões de domicílio e práticas de tortura são alguns exemplos.
De que formas as marcas dessa violência permanecem? Outra dimensão dos impactos é a psicológica; as mulheres são mais negligenciadas?
As mulheres são mais invisibilizadas e são elas que suportam os danos reflexos, como a perda de maridos, filhos e companheiros. Muitas são mães solo, sem acesso à creche, saúde e educação.
Dois anos depois da chacina do Salgueiro, como você avalia o impacto da ADPF das Favelas na dinâmica das operações policiais?
A ADPF das Favelas contribuiu para a queda dos índices de letalidade policial, além da redução de crimes como roubo. Ela comprova que a atual política de confronto não é a solução para a segurança pública. Infelizmente, o Estado do Rio de Janeiro permanece insistindo nessa prática, cada vez mais letal, e segue omisso em relação aos direitos prestacionais.
