O governador Eduardo Leite (PSD) disse que a Brigada Militar (BM) é bem capacitada e treinada e que eventuais erros podem acontecer, em repercussão à morte de um produtor rural durante uma operação da polícia em Pelotas (RS). “São seres humanos sujeitos a erros.” O corregedor geral da instituição, coronel Rodrigo Assis Brasil Ramos Aro, afirmou que vai apurar e investigar tudo que aconteceu na propriedade rural de Morro Redondo, e que o inquérito vai durar 40 dias.
O comandante-geral da BM, Cláudio Feoli, admitiu que houve “um grande equívoco” na morte do agricultor e feirante Marcos Nörnberg, 48 anos, na madrugada de quinta-feira (15). “Isso não é julgamento, é constatação”, afirmou. A Polícia Civil será responsável pela investigação, com acompanhamento do Ministério Público e encaminhamento futuro ao Judiciário.
O fato é que às 3h08 minutos da madrugada, enquanto dormiam tranquilamente, depois de um dia de trabalho, Marcos e a esposa, Raquel Amorim Motta Nörnberg, produtores de morangos, foram acordados por barulhos fortes fora da casa e pelo intenso latido dos cães. Pensaram se tratar de assaltantes. Mas não eram. Logo depois, a casa foi invadida e tiros distribuídos para todos os lados.
Ali estavam 18 policiais militares (alguns relatos falam em 16) em operação à busca de bandidos envolvidos com sequestro e porte de armas. Também se falou que buscavam drogas armazenadas em galpão, mas o fato não foi confirmado. Nada disso existia.
Marcos, diante do barulho e do temor de assalto, pegou sua arma, mas não teve tempo para quase nada. Foi alvejado e morto pelos policiais que estavam dentro da sua própria casa depois de uma porta de vidro ter sido derrubada. O produtor caiu aos pés da cama, mas ainda teve tempo de mandar a esposa deitar para não ser morta.
“Ele morreu acreditando que eram criminosos que efetuaram os disparos que o atingiram. E eu fiquei por horas achando que estava nas mãos de assaltantes”, relata ela, mãe de dois filhos, que agora ficam órfãos.
A viúva Raquel ficou chocada e alega que sofreu chacotas dos militares depois de ser indagada sobre o seu nome. Foi desacreditada e garante ter ouvido zombarias. Disse em depoimento que se deitou no chão para evitar os tiros, que saíam de todos os lados. As viaturas que ali chegaram não estavam com os sinalizadores de emergência giratórios ligados (giroflex). Depois da invasão na casa do agricultor, os 18 policiais envolvidos na operação foram afastados de suas funções e suas armas apreendidas.
Familiares de Marcos afirmam também que os policiais não teriam se identificado de forma clara no momento da abordagem, o que pode ter contribuído para a reação da vítima. Essa versão será confrontada com os depoimentos dos agentes envolvidos e com os laudos periciais.
Explicação da BM
A Brigada Militar divulgou uma nota, onde diz que realizava buscas, com grande efetivo, na área rural de Pelotas, em razão da “ocorrência de roubo a residência registrada na terça-feira (13), onde um caseiro foi feito refém por 36 horas”. Dois suspeitos do roubo, residentes de Pelotas, foram presos na quarta-feira (14) na cidade de Guaíra, no Paraná, em posse dos veículos roubados no Rio Grande do Sul.
Com informações repassadas pela Polícia Militar do Paraná, a BM planejou uma operação no endereço de Marcos, onde supostamente estariam outros envolvidos com o crime “com armas e veículos roubados”. Chegando lá, a BM disse ter encontrado Marcos portando uma arma de fogo e que ele não teria acolhido as ordens da guarnição, efetuando disparos.
Corregedoria
O corregedor, coronel Rodrigo Assis, também explicou, em entrevista para vários meios de comunicação, as razões dos policiais terem ido ao local sem mandado de busca e apreensão. “Essas questões ainda serão apuradas”, prometeu. Ele afirmou que as coações e humilhações que a viúva sofreu também serão devidamente esclarecidas. “Com relação ao depoimento da senhora Raquel, o relato dela nos sinaliza outras condutas criminosas, que estão no curso da apuração”, afirmou.
Para o coronel, nada vai ficar sem resposta, “tudo vai ficar bem claro”. Ele não soube informar de quem partiu a ordem para fazer a operação na área rural e não soube dizer se partiu do comando da corporação em Pelotas.
Notas de pesar
O crime chocou todo o estado. Em Pelotas, epicentro do escândalo, as conversas e as versões rolaram em todos os locais. A prefeita em exercício, Daniela Brizolara (Psol), manifestou solidariedade aos familiares e amigos do agricultor morto. “Reiteramos a necessidade de que este trágico evento seja esclarecido e medidas sejam tomadas com a finalidade de evitar tragédias futuras”, disse em nota oficial.
O governador Leite, natural de Pelotas, também manifestou “pesar e solidariedade”. “Quero assegurar a esta família, a toda a comunidade que ficou impactada com este episódio, de que o estado promoverá a mais rigorosa apuração”, disse em nome do governo.
Leite afirmou que o caso vai cumprir toda a jornada institucional, com a independência de uma investigação que possa entender exatamente as circunstâncias em que se deu a tragédia.
