Internacionalismo

Combate ao imperialismo dos EUA deve ser eixo central da luta, afirmam analistas em encontro nacional do MST

O movimento promoverá um ato político de solidariedade à Venezuela na próxima sexta-feira (23)

No audio source provided.
2º dia do 14º Encontro Nacional do MST / Foto: Lais Alanna
2º dia do 14º Encontro Nacional do MST | Crédito: Lais Alanna

Nos últimos anos, a geopolítica internacional foi marcada por uma série de eventos que afetaram profundamente o equilíbrio global: a invasão e intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores; a continuação da guerra entre Rússia e Ucrânia; o genocídio em curso contra o povo palestino na Faixa de Gaza; as crescentes tensões e protestos massivos no Irã, com promessas de intervenção do presidente dos EUA Donald Trump, que também tem repetido que outros países da América Latina “serão os próximos”.

Essa complexidade do cenário global não é alheia ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que promoverá na próxima sexta-feira (23) um ato político marcado por um momento de solidariedade à Venezuela, com representação da embaixada do país. O tema também é central no 14º Encontro Nacional, que ocorre em Salvador (BA) desde segunda-feira (19), após 15 anos da última edição.

Historicamente, o internacionalismo sempre foi uma espinha dorsal das análises e práticas políticas do MST, orientando suas estratégias e permitindo situar as lutas pela terra e pela soberania em um contexto mais amplo de resistência ao imperialismo e solidariedade entre os povos.

Para Breno Altman, jornalista, escritor e fundador do portal Opera Mundi, não há forma mais certeira de distinguir inimigos de aliados na atual conjuntura, se não pela contradição entre o imperialismo e os povos do mundo.

“Na dúvida, se está contra o imperialismo norte-americano, nós estamos do mesmo lado, se estiver a favor do imperialismo norte-americano, nós somos contra. Essa é a régua que divide o mundo de hoje e não podemos vacilar em relação a isso”, frisa.

2º dia do 14º Encontro Nacional do MST / Foto: Lais Alanna

O jornalista argumenta que, diante da crise da ordem unipolar e da hegemonia que os estadunidenses julgaram durar para sempre, o imperialismo se mostrará cada vez mais agressivo, tendo como produto, por exemplo, o ressurgimento de correntes fascistas. “O fascismo acende quando a crise de hegemonia dos Estados imperialistas e das formas tradicionais do governo da burguesia, já não são mais capazes de defender os interesses de classe através de formatos como a democracia liberal.”

Esse quadro, no entanto, não se apresentou do dia para a noite. Altman lembra que essa crise tem raízes na queda da União Soviética, em 1991, vitória estratégica dos EUA contra o campo socialista, e que, naquele momento, foi encarada como a chegada à última estação da humanidade: a democracia liberal e a economia de mercado. Nessa estação, o país deteria o monopólio da guerra, da economia e da cultura. No entanto, todos assistiram à crise de 2008 pelo colapso decorrente da substituição da renda real pelo crédito fácil.

“Desta crise, o capitalismo não saiu até hoje. Sem a possibilidade de continuar se expandindo na mesma velocidade através do crédito, o capitalismo então atacou os salários, os direitos dos trabalhadores, e se voltaram para a periferia do sistema, para extrair matérias-primas, fontes de energia mais baratas, e garantir que o lucro dos grandes empresários nos países centrais do capitalismo pudesse ser recomposto”, avalia.

Outros fatores citados pelo militante são o desenvolvimento econômico, científico e tecnológico da China, que passou a disputar espaços geopolíticos com os EUA; a reconstrução do Estado Nacional Russo, que culminou em 2022 com a invasão da Ucrânia em resposta ao avanço da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em seu território, quebrando o monopólio da guerra exercido pelos estadunidenses; além do estabelecimento de uma série de governos de esquerda na América Latina, em um levante político contra a ordem unipolar e o neoliberalismo.

‘A ficha dos EUA caiu’

Embora esses e outros fatores demonstrem a decadência desse sistema, ele ainda mantém grande força econômica, militar e cultural, conforme alerta Stephanie Weatherbee Brito, coordenadora da Secretaria da Assembleia Internacional dos Povos (AIP) e que também participa do evento. “Nesse último ano, o ‘império’ foi adquirindo uma visão mais realista de quais são as suas possibilidades de intervenção nesse mundo. O período de arrogância, em que acreditavam em uma unipolaridade inabalável, já foi encerrado.”

Entre os elementos defendidos por Stephanie para que essa “ficha tenha caído” estão a resiliência chinesa diante dos tarifaços e ataques econômicos impostos pelos EUA, e a quebra da expectativa da derrota russa na guerra na Ucrânia. Realidade diferente da atuação imperialista no continente africano, onde a coordenadora afirma que o governo norte-americano mantém uma estratégia de desestabilização permanente para extrair recursos de maneira irrestrita. De acordo com o ranking de 2023 do Conselho Norueguês para os Refugiados (NRC), a África tem nove das 10 crises mais negligenciadas do mundo, encabeçada pelo conflito em Burkina Fasso.

“Já a Europa, que foi o aliado mais importante do imperialismo estadunidense, o Trumpismo vê que nesse momento não são tão necessários. Porque entende que se tem que se preparar para uma guerra, ela será com a China”, pondera. Reflexo desse movimento é possível perceber na pressão que vem sendo feita pelos EUA, maior responsável pelo orçamento anual da Otan, para que os países europeus membros da aliança paguem mais pela própria defesa. Além das ameaças de anexação da Groelândia.

Até mesmo no Oriente Médio, onde Washington declara apoio irrestrito a Israel, a especialista observa que não há intenção de manter uma guerra permanente, algo que também se deve à força da resistência palestina.

“Nesse cenário de reajuste estratégico, o ‘império’ tem três grandes objetivos: ampliar o campo de influência onde ainda é possível, já que não podem na Ásia; conter o crescimento do campo multipolar antes que ele se consolide; e acumular força para [um possível] cerco militar contra a China”, detalha.

É nesse cenário que Stephanie acredita que a América Latina está colocada, como uma prioridade geopolítica, por constituir uma zona em que o governo norte-americano consegue recompor a sua influência.

2º dia do 14º Encontro Nacional do MST / Foto: Lais Alanna

Nesse sentido, Breno Altman chama atenção para a nova estratégia de segurança e política externa do presidente Donald Trump, documento recém-divulgado pela Casa Branca.

“O documento recupera a Doutrina Monroe e estabelece que, para os EUA deterem a ameaça à sua hegemonia, eles precisam recuperar a influência sobre a América Latina, por suas reservas de minerais, terras raras, petróleo, gás, pelo papel geográfico, e tamanho do seu mercado. E decidiram fazer isso na ponta do fuzil”, ressalta.

A resposta para essa ofensiva, defende Breno, está na incondicional solidariedade entre os povos latinos, fazendo emergir um bloco anti-imperialista, que possa tornar consequente a luta antifascista, e isolar o sistema imperialista.

Stephanie, no entanto, aponta que apesar da Doutrina Monroe nunca ter sido abandonada, os EUA buscam reconquistar a América Latina por já possuir instrumentos para exercer influência, por terem aliados políticos já estabelecidos e alavancas prontas para serem acionadas. Entre elas os tratados comerciais, o controle da economia dos países latinos através do Fundo Monetário Internacional (FMI), o domínio do sistema financeiro internacional baseado no dólar, e o controle dos canais de comunicação.

“Mas esses instrumentos não servem de nada se não existirem pessoas dispostas a operá-los. Os EUA vêm nutrindo na América Latina uma extrema direita e uma burguesia submissas ao imperialismo, que colocam seus interesses de classe acima de qualquer projeto nacional”, critica.

No Brasil, por exemplo, a plataforma Gettr, comandada pelo ex-assessor de Trump, Jason Miller, financiou a 2ª edição brasileira do congresso conservador, o CPAC Brasil, e outros três eventos organizados pelo Instituto Conservador Liberal, think tank criado pelo deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, que vive nos EUA desde março de 2025. Após a vitória do presidente Lula, nas eleições de 2022, Eduardo e o influenciador Paulo Figueiredo passaram a articular com parlamentares norte-americanos a imposição de sanções contra o Brasil, culminando no anúncio do tarifaço pelo presidente Trump, em julho do ano passado.

“A intervenção imperialista busca brechas para operar, e, às vezes, essas oportunidades são nossos erros políticos. Temos que pensar quais são nossas debilidades atuais. Eu diria que a primeira delas é a falta de compromisso real com a integração regional. Falamos muito, mas avançamos pouco em projetos concretos de infraestrutura e complementariedade produtiva”, analisa a coordenadora da Secretaria da AIP, que também se preocupa com a ampla divergência ideológica entre os governos progressistas e com a falta de projetos econômicos para reindustrializar os países da região, a partir de seus projetos desenvolvimentistas. “Quisemos ser economias emergentes, mas o que precisamos é ser economias independentes.”

Para alcançar essa realidade, Stephanie Weatherbee Brito lembra que, por mais que a multipolaridade ofereça caminhos como os BRICS e as relações comerciais com a China, vistas como ameaças para os EUA, ela é um processo em construção, que depende do sucesso e avanço das revoluções em todos os continentes do Sul Global.

“Sem revoluções, a multipolaridade não amadurecerá ao ponto de enfrentar o imperialismo de frente. Não podemos terceirizar nossa libertação. Não depende da China construir um projeto econômico nem de integração regional para a América Latina. Não vamos só testemunhar a queda do imperialismo, temos que ser ator protagonista”, finaliza.

Editado por: Nathallia Fonseca

|

Newsletter