O presidente Trump assinou nesta quinta-feira (29) uma ordem executiva na qual declara uma “emergência nacional”, argumentando que Cuba representaria uma suposta “ameaça incomum e extraordinária” à segurança dos Estados Unidos.
A medida impõe novas tarifas a países que “vendam ou, de qualquer outra forma, forneçam petróleo a Cuba”, com o objetivo de aprofundar o estrangulamento energético enfrentado pela ilha, agravado de forma significativa após o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela.
“A ordem impõe um novo sistema tarifário que permite aos Estados Unidos aplicar tarifas adicionais às importações de qualquer país que forneça, direta ou indiretamente, petróleo a Cuba”, afirma o documento.
O texto não estabelece tarifas de forma automática, mas autoriza um processo de “avaliação caso a caso”. Para sua implementação, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, fica autorizado a “determinar” se um país vende ou fornece petróleo a Cuba, de forma direta ou por meio de intermediários.
Posteriormente, o secretário de Estado, Marco Rubio, é autorizado a “tomar todas as ações necessárias”, incluindo a emissão de novas regulamentações para aplicar medidas coercitivas aos países que enviem petróleo à ilha, embora o Executivo se reserve o direito de modificar ou cancelar as medidas caso Cuba ou os países afetados “adotem medidas significativas” para se alinhar aos “objetivos de segurança e de política externa dos Estados Unidos”.
Washington acusa Havana de “alinhar-se” com países e “atores malignos adversos aos Estados Unidos”, entre os quais menciona a República Popular da China, o Irã e a Rússia, país que também é acusado de manter em Cuba “a maior instalação de inteligência de sinais” fora de seu território.
Além disso, acusa Cuba de continuar “difundindo suas ideias, políticas e práticas comunistas por todo o hemisfério ocidental, o que ameaça a política externa dos Estados Unidos”.
A guerra contra Cuba
Desde o bombardeio dos Estados Unidos contra Caracas, no qual o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram sequestrados, as ameaças de Washington contra Cuba tornaram-se constantes.
A nova ordem executiva busca aprofundar o bloqueio — que o povo cubano sofre há mais de 60 anos —, pressionando países da região para que, na prática, se somem a essa política agressiva. Da mesma forma, as novas medidas coercitivas tentam obstruir qualquer triangulação de petróleo que busque contornar o bloqueio.
Atualmente, Cuba consome cerca de 120 mil barris de petróleo por dia (bpd). Aproximadamente 30% desse volume provém da produção nacional, enquanto os dois terços restantes dependem de importações. Os principais fornecedores da ilha são a Venezuela, o México e, em menor medida, a Rússia.
No ano passado, estima-se que Caracas tenha enviado entre 27 mil e 35 mil barris diários, o que representava cerca de 29% do consumo energético cubano. No entanto, devido ao cerco militar e às restrições impostas por Washington sobre o petróleo venezuelano, esses envios foram interrompidos. A nova ordem executiva parece agora apontar diretamente contra o fornecimento mexicano.
Diante das crescentes pressões dos Estados Unidos, a presidenta Claudia Sheinbaum afirmou recentemente que o envio de petróleo a Cuba é “uma decisão soberana” do México, lembrando que todos os governos mexicanos — independentemente de sua ideologia — mantiveram relações com a ilha, respeitando os princípios de não ingerência e de autodeterminação de sua política externa.
Apenas uma semana antes, durante sua Mañanera del Pueblo de quarta-feira, dia 21, Sheinbaum havia destacado o impacto do bloqueio: “O que significa um bloqueio econômico? Significa sanções contra os países que oferecem apoio. Os Estados Unidos o intensificaram. Quando existe um bloqueio, não é possível importar nem exportar livremente, de modo que as condições para o desenvolvimento de um país se tornam extremamente difíceis”.
Segundo a Petróleos Mexicanos (PEMEX), durante os primeiros nove meses de 2025, o México exportou para Cuba 17.200 barris de petróleo por dia. Esse número diminuiu no último trimestre devido às pressões de Washington.
Ao declarar uma “emergência nacional”, a ordem executiva assinada por Trump permite ao governo impor tarifas adicionais, inclusive a parceiros com acordos de livre comércio, como o México, que integra o T-MEC com os Estados Unidos e o Canadá.
Considerando que entre 80% e 84% das exportações mexicanas têm como destino o vizinho do norte, trata-se de uma medida especialmente sensível. Paralelamente, essa situação pode pressionar a inflação nos Estados Unidos, particularmente em setores com cadeias de suprimentos altamente integradas.
Ao mesmo tempo, ao incluir como alvo de sanções todos aqueles que forneçam petróleo a Cuba — de forma direta ou indireta —, Washington busca impedir envios por razões humanitárias e até mesmo dissuadir países que poderiam oferecer ajuda por meio de remessas provenientes da Rússia ou da China.
Asfixia econômica
O aumento das hostilidades contra Cuba faz parte da política de “pressão máxima” já aplicada durante o primeiro governo Trump, chegando a impedir, em meio à pandemia de covid-19, a chegada de insumos de primeira necessidade para enfrentá-la.
Em meio a uma grave crise energética, com cortes de eletricidade prolongados e recorrentes, a atual tentativa de estrangulamento energético ocorre em um contexto no qual Cuba atravessa uma das crises econômicas mais profundas de sua história.
Com uma contração do PIB superior a 11% nos últimos cinco anos, a falta de combustível e de eletricidade não afeta apenas os lares, mas também a capacidade de produção de bens e serviços necessários para superar a crise.
