CINEMA

Mostra Regional da Fronteira promove reflexões sociais e culturais

As produções gaúchas vencedoras do festival serão conhecidas neste sábado (31), em Bagé

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Documentário de Mirian Fichtner aborda traumas dos afetados pela enchente de maio de 2024
Documentário de Mirian Fichtner aborda traumas dos afetados pela enchente de maio de 2024 | Crédito: Mostra Regional Fronteira/Divulgação

A cidade de Porto Alegre pelo olhar dos imigrantes, através da linguagem musical, é a premissa do curta Canção Imigrante, de Cleverton Borges e Pedro Guindani. Já a luta da Casa Mirabal (organização que acolhe vítimas da violência doméstica e enfrenta o poder público contra a desapropriação da escola abandonada em que vivem as mulheres e suas crianças) é contada por Theo e Claudia Tajes a partir da chegada no local de Maria e sua filha, a bebê Violeta, em Roxo Lilás Violeta.

Esses são exemplos dos títulos gaúchos selecionados para a competição da 17ª edição da Mostra Regional da Fronteira, evento que fortalece a produção audiovisual realizada no Rio Grande do Sul e que anunciará seus vencedores em cerimônia de premiação na noite deste sábado (31), em Bagé. Já a fotógrafa e documentarista Mirian Fichtner (a mesma diretora do premiado longa Cavalo de Santo) concorre com o documentário Quando começa a chover o coração bate mais forte, sobre as enchentes de maio de 2024 no estado, indo além de um registro histórico, mergulhando no olhar dos atingidos, “tecendo um inventário dos medos, traumas na vida dos que perderam tudo”, especialmente as populações periféricas negras e mulheres.

Com essas informações, já é possível visualizar um recorte específico apenas analisando três produções, todas de Porto Alegre (a última sendo filmada ainda na Região Metropolitana e no Vale do Taquari). Outra paisagem cultural presente na seleção é a Fronteira gaúcha, como não poderia deixar de ser. 

Produção da cidade-sede do festival, o curta-metragem Plano Z, dirigido por Helena Reischak Pereira, foi vencedor da mostra de curtas do IFSul de Bagé, em outubro de 2025. Focado na valorização da identidade local, o filme faz parte do cenário audiovisual da região da Campanha gaúcha e tem cena filmada inclusive no território em que a Mostra Regional é realizada: os trilhos ferroviários no horizonte do Centro Histórico da Vila de Santa Thereza.

Plano Z, curta de Helena R. Pereira, traz a paisagem do Centro Histórico da Vila de Santa Thereza – Foto: Mostra Regional Fronteira/Divulgação

Dessa região, há ainda mais um título de Bagé, dois de Sant’Ana do Livramento e um de Uruguaiana. O último é o celebrado Trapo, de João Chimendes, grande vencedor entre os curtas gaúchos do Festival de Gramado: uma obra muito elogiada, que conquista o público facilmente com uma linguagem mais lúdica para versar sobre o universo infantil. 

No dossiê publicado pela Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, o cineasta, historiador da arte e professor Giordano Gio destaca que o menino protagonista de Trapo tem a pulsão da fantasia e faz a seguinte interpretação: “Com a câmera de seu celular e com sua voz, ele invoca monstros e transforma a luz de poste em Lua, tal qual Méliès com suas sobreposições, cenários e, também, tecidos estendidos. Ao perceber a quimera que se formou de seus trapos roubados (e sabemos que a história do cinema é repleta de pequenos atos de contravenção), Leonardo não expressa qualquer temor. De alguma forma, ele sabe que o monstro brotou de sua vontade de dominar uma linguagem, e que não tem volta, esse monstro o levará embora”.

Na lista, ainda estão representantes de Pelotas, Capão da Canoa e Cachoeira do Sul. “O Festival da Fronteira também é um festival de linguagem, e nosso posicionamento periférico nos estimula um olhar social. A curadoria da Mostra Regional busca apresentar o Rio Grande do Sul contemporâneo, para além da produção de fronteira, uma produção que revele nossa realidade social e que seja representativa da diversidade de nosso cinema”, afirma  o Secretário de Cultura de Bagé, Zeca Brito.

Desde o ano passado, a Mostra Regional é realizada em um período anterior ao Festival Internacional da Fronteira, conforme narra o idealizador do evento: “As primeiras edições do Festival eram dedicadas à produção de curtas-metragens realizados no Rio Grande do Sul, e esses curtas sempre estiveram em diálogos com a produção local, filmes feitos em Bagé e região. Na medida que o Festival se tornou internacional e passa a dar destaque aos longas-metragens, era necessário que os curtas regionais tivessem seu espaço próprio mantendo assim seu protagonismo. A Mostra Regional traduz a produção gaúcha como um todo e se configura também como um espaço de debate onde esses realizadores e suas obras são o centro das atenções”.

Para Marizele Garcia, curadora da Mostra Regional, nesses 17 anos de existência, o certame construiu uma trajetória contínua de valorização das produções locais, dos seus realizadores e das narrativas que emergem desse contexto geográfico, social e cultural específico. “A presença de filmes de Bagé, Livramento, Uruguaiana e de outros territórios próximos não é algo ocasional, mas resultado direto da vontade de dar visibilidade ao cinema feito aqui. É o segundo ano em que a Mostra Regional acontece dividida do restante do Festival Internacional de Cinema da Fronteira, justamente como uma estratégia de dar ainda mais destaque à produção local e regional, a fim de possibilitar um espaço próprio de circulação, encontro e reflexão. Boa parte dos filmes selecionados é fruto de políticas públicas de fomento, especialmente da Lei Paulo Gustavo, o que possibilitou um recorte mais diverso, incluindo mais produções de cidades do interior”, explica. 

“Ao mesmo tempo, a curadoria compreende a responsabilidade de trazer esse cinema para a tela sem perder de vista a diversidade estética, temática e política. Muitos dos filmes selecionados abordam questões sociais que nos atravessam, e há um compromisso em fazer com que esses temas cheguem ao público. Não se trata de um recorte temático pré-estabelecido, mas de questões que emergem da própria realidade da região e, consequentemente, do olhar de seus realizadores. A presença dos realizadores na cidade, debatendo os filmes e refletindo sobre o fazer cinematográfico, é parte fundamental desse processo”, complementa Marizele. 

Segundo ela, o compromisso de ser um espaço de formação, troca e fortalecimento para realizadores locais é o Norte que orienta a curadoria: “Mais do que definir um ‘perfil’, a Mostra Regional do Festival da Fronteira é um espaço de escuta e visibilidade”.

O sotaque musical da imigração

Curta Canção Imigrante – Foto: Karen Eggers/Divulgação

Três músicos, oriundos de outros países, encontram-se no Rio Grande do Sul, para onde vieram por motivos diferentes. A produção do curta Canção Imigrante promove o encontro entre Ana Aristimuño (com o cuatro, espécie de violão venezuelano), Dulce Martinez (no violoncelo, também da Venezuela) e Loua Oulai (na percussão, vindo da África) para a formação de uma banda, explorando a linguagem musical como ponto de conexão.

A exibição na 17ª edição da Mostra Regional da Fronteira foi a estreia da obra dirigida por Cleverton Borges e Pedro Guindani em festivais (a demora se justifica pelo fato de que este foi um dos últimos projetos com produção-executiva de Tainara Fraga, falecida repentinamente durante o Olhar de Cinema, em Curitiba, em junho de 2025). 

O filme mostra as realidades desses três personagens, os aproxima e lhes dá a oportunidade de mostrar suas referências musicais e misturá-las, fazendo surgir uma nova musicalidade. A ideia do documentário é conhecer as histórias de vida e acompanhar os ensaios, até a apresentação do grupo em um show, aberto ao público, entregando para o destino que os acolheu a nova música que construíram juntos.

Cleverton relata que o curta começa a surgir em 2022, a convite de Augusto Stern, produtor proponente e roteirista: “Ele tem essa ideia de contar a cidade de Porto Alegre através de perspectivas de pessoas que não são da capital. O que eles pensam sobre essa cultura, como é esse atravessamento cultural de virem de outro lugar, se entenderem como músicos aqui e como eles dialogam com a cidade, como a cidade dialoga com eles”. 

A pesquisa musical de Bruna Paulin procurou quem eram os artistas que vieram para cá, chegando às meninas da Venezuela e ao percussionista da Costa do Marfim. “O projeto teve mais de sete diárias, e a gente teve diversos ensaios e encontros, conversou bastante sobre música e as experiências deles com o estado e a cidade, além de entender o contato com a música. A gente vê que músicos conseguem conversar entre si porque eles têm um dialeto próprio, têm a sua linguagem e conversam muito sobre isso.”

O diretor reforça que a proposta era criar uma banda que tivesse o próprio sotaque: “Então, a gente tentou produzir um diálogo que fosse traçado e narrado através das experiências deles junto com essa experiência de Porto Alegre, e tentar criar um diálogo único”.

Muitas das obras em que o cineasta atuou são relacionadas com produções sonoras. “Tenho muito esse contato com música, porque eu sempre fui da noite, de festa, sempre estive em rua, em bar, e sempre fui de muito fácil acesso com os músicos. Gosto muito de ir em um lugar novo e conhecer música nova, e estar em outra cidade, conhecer músicas do lugar”, esclarece Cleverton, reforçando a aproximação, apesar de não tocar nenhum tipo de instrumento, não cantar e nem escrever. 

“Meu interesse é por que eu trabalho com som, acredito muito no som do audiovisual e acredito muito no som da música. Eu acho que são artes que se conversam, e a gente tem um diálogo, consegue traçar o mesmo sentimento”, reflete o realizador, reconhecendo também a influência da família na profundidade dessas conversas. 

Bunker Sound Design, estúdio de Stern, responsável pela finalização de som e direção musical (ao lado do próprio Cleverton), é a empresa proponente de Canção Imigrante, em coprodução com Noite Escura (de Patrícia Barbieri).

Filmes em competição na 17ª Mostra Regional da Fronteira

Roxo Lilás Violeta sobre a Ocupação Mirabal – Foto: Mostra Regional Fronteira/Divulgação

Crédito: Mostra Regional Fronteira/Divulgação

  1. “Amores Eternos”, de Lucas Guillande (19 min) – Sant’Ana do Livramento
  2. “Canção Imigrante”, de Cléverton Borges e Pedro Guindani (17 min) – Porto Alegre
  3. “Fragmento”, de Renatho Costa (4 min) – Sant’Ana do Livramento
  4. “Limiar”, de Érika Fagundes e João Vitor de Moraes Torres (9 min) – Pelotas
  5. “Logos”, de Britney (12 min) – Capão da Canoa
  6. “Mãe”, de João Monteiro (20 min) – Porto Alegre
  7. “O Jogo”, de Alexandre Mattos e Chico Massimilla (14 min) – Pelotas
  8. “O Último Relincho”, de Léo Gusmão (12 min) – Bagé
  9. “Plano Z”, de Helena Reischak Pereira (5 min) – Bagé
  10. “Quando começa a chover o coração bate mais forte”, de Mirian Fichtner (15 min) – Porto Alegre, Região Metropolitana, Vale do Taquari
  11. “Roxo Lilás Violeta”, de Theo Tajes (15 min) – Porto Alegre
  12. “Todos os Bebês Nascem Pelados em Cachoeira do Sul”, de Eduarda Rodrigues e Thiago Beckenkamp (9 min) – Cachoeira do Sul
  13. “Trapo”, de João Chimendes (19 min) – Uruguaiana

Editado por: Marcela Brandes

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