OUTRA MUDANÇA

Bombeiros começam a usar salas do Neeja Paulo Freire por decisão da Seduc

Medida tomada sem consulta à escola deve provocar nova troca de endereço da educação de jovens e adultos em Porto Alegre

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Muro do prédio da escola onde funciona o Neeja foi pintado e ganhou placa dos Bombeiros
Muro do prédio da escola onde funciona o Neeja foi pintado e ganhou placa dos Bombeiros | Crédito: Neeja Paulo Freire

O Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (Neeja) Paulo Freire está de mudança de endereço de novo, dois anos depois de sair da rua Coronel Bordini, 190, no bairro Auxiliadora, em Porto Alegre. Funcionando temporariamente na Escola Estadual de Ensino Fundamental Felipe de Oliveira, rua Felipe de Oliveira, 59, bairro Santa Cecília, a área agora será integrante de uma unidade do Corpo de Bombeiros Militar (CBM). A mudança vem desagradando professores e alunos, que terão que se habituar ao novo local – ou o antigo, na Bordini, segundo a Secretaria de Educação do Estado (Seduc).

Conforme explica a assessoria de comunicação da secretaria, o CBM começou a ocupar salas de aula gradativamente, no imóvel localizado na Rua Felipe de Oliveira, no dia 3 de fevereiro, onde hoje funciona a Neeja Paulo Freire. O prédio possui 12 salas de aula, sendo duas já cedidas. O prédio original do Neeja Paulo Freire, localizado na Bordini, entrará em reformas, possibilitando futuramente o retorno para o espaço original. Passando por lá, não se vê nenhuma movimentação para obras.

Diante do último ano do atual governo estadual, da possibilidade de renúncia do governador Eduardo Leite (PSD) para disputar cargo federal e das restrições orçamentárias, a expectativa é de que a intervenção seja adiada, embora ainda não haja definição oficial. O que está confirmado é que, após a conclusão das obras, a escola da Felipe de Oliveira passará a ser utilizada integralmente pelo CBM.

A negociação das Secretarias de Educação e de Segurança para a cedência do prédio escolar para uso dos Bombeiros foi feita sem intervenção da escola. A direção foi informada sobre a negociação no dia 3 de fevereiro, às 17h, quando da vistoria do comando dos Bombeiros e representantes da Seduc e da Secretaria do Planejamento, conforme relato do professor Sílvio Alexandre. Ele conta que no dia 4, às 14h, os Bombeiros começaram a trazer seus materiais. “Estudantes e educadoras ficaram estarrecidos”, relata.

A assessoria informou que, em contrapartida, a corporação militar capacitará os servidores da rede estadual de ensino para atendimento das legislações sobre o Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio (PPCI) – Brigadistas, e a Lei Lucas, que tornou obrigatória as noções básicas de primeiros socorros para professores e funcionários de escolas. “Esta ação oportuniza a otimização dos prédios públicos estaduais, simultaneamente proporcionando a capacitação dos servidores estaduais da Educação e segurança dos alunos e comunidade escolar”, informou.

“Nada contra o Corpo de Bombeiros. Mas a forma como a Seduc conduz a administração das escolas e a forma como a memória do grande patrono da educação brasileira vem sendo tratada é um absurdo”, definiu o professor. “A Seduc fala de gestão democrática, enaltece Paulo Freire e age dessa forma desrespeitosa para com a sua própria comunidade escolar. Um escândalo e um ataque grosseiro à memória de Paulo Freire”, garantiu Sílvio Alexandre. “Nós precisamos do prédio escolar para atender os mais de 1,1 mil jovens, adultos e idosos que ali buscam o seu direito à Educação pública gaúcha”, afirma.

O jornalista Marcelo Soares, hoje morando em São Paulo, diz que o Neeja Paulo Freire foi o local onde concluiu o Ensino Médio. “Há dois anos o governo tirou o pessoal de lá dizendo que não tinha condição de continuar funcionando e que não havia dinheiro para reformar. Mandaram para a Felipe de Oliveira, num prédio de escola desativada, com condições mais precárias de transporte para os alunos (adultos que trabalham e moram geralmente na zona norte). Agora, o governo está colocando os bombeiros no novo prédio”, lembra.

O que é o Neeja

O Neeja é uma modalidade de ensino semipresencial gratuita, focada na conclusão do Ensino Fundamental e Médio para pessoas que não finalizaram os estudos na idade adequada. Diferente da escola tradicional, o Neeja adota metodologias individualizadas, permitindo que o aluno estude no seu próprio ritmo, com material impresso ou digital, e realize exames agendados.

Este tipo de educação é fundamental para quem quer complementar seus estudos, independente do motivo que pararam de estudar. Ela tem como objetivo trazer conhecimento e aprendizado para melhorar o futuro e até mesmo para uma melhor oportunidade de trabalho. “Com estudo conseguimos aos poucos alcançar nossos objetivos e lá na frente se orgulhar”, disse a auxiliar de limpeza Ruana Alves, 31 anos, moradora do bairro Rubem Berta e aluna do Paulo Freire, quando funcionava no bairro Auxiliadora. Ali, a escola funcionou por 38 anos (hoje tem 40 anos de história).

“Obviamente é uma casa antiga, que precisa de reformas. Nós todos defendemos a reforma. Pintura, restauração, reforma do telhado do prédio da frente. O prédio dos fundos já teve seu telhado reformado. Contudo, a mudança de endereço em 2024 foi prejudicial”, aponta o professor Sílvio Alexandre, que leciona desde 2015 na Paulo Freire.

“A direção vem, há muito tempo, solicitando reformas no prédio, como todas as escolas estaduais do Rio Grande do Sul, a maioria sucateadas por anos sem investimento”, complementa o professor. O Paulo Freire registrou 1,9 mil matriculados em 2023.

Sindicato defende modalidade

Prédio anterior do Neeja foi desocupado em 2024 e ainda não recebeu reformas | Crédito: Eugênio Bortolon

O Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers Sindicato) também está preocupado com o Neeja Paulo Freire. A presidenta Rosane Zan e a diretora Sandra Santos realizaram reunião aberta com a comunidade no mês de janeiro para discutir a situação do estabelecimento. A instituição enfrenta a ameaça de redução em seu quadro de recursos humanos, incluindo professores e funcionários, por parte da Seduc.

Há muitos anos, o Cpers acompanha a situação do Neeja, que resiste para se manter em funcionamento mesmo diante de desafios estruturais. A ausência de profissionais impacta diretamente o direito à educação de jovens e adultos e integra uma luta mais ampla em defesa da escola pública, da valorização dos trabalhadores da educação e do acesso democrático ao ensino.

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) desempenha um papel fundamental no desenvolvimento e na inclusão social no país, contribuindo para a redução de desigualdades históricas. No entanto, no Rio Grande do Sul, a modalidade vem sofrendo uma redução contínua de matrículas. Em 2024, último censo realizado pelo Fórum EJA, o número caiu para 77 mil, representando uma diminuição de 13,4% em relação a 2023.

Quem foi Paulo Freire

Paulo Freire (1921-1997) foi um renomado educador e filósofo brasileiro. Considerado patrono da educação brasileira, é conhecido pels pedagogia crítica e libertadora, que defende a educação como ferramenta de conscientização, emancipação e transformação social, baseada no diálogo horizontal entre educador e educando, partindo da realidade dos alunos para promover a autonomia e o questionamento do mundo, combatendo a “educação bancária” (onde o professor deposita conhecimento). Durante a ditadura militar, foi perseguido e visto como comunista, sendo obrigado a sair do país.

No início, Paulo Freire exilou-se no Chile em 1964, após ser preso pelo regime militar brasileiro, onde permaneceu por cinco anos, trabalhou por lá e escreveu “Pedagogia do Oprimido”. Posteriormente, viveu nos Estados Unidos (Harvard), na Suíça (Genebra, no Conselho Mundial das Igrejas) e atuou na África (Guiné-Bissau, Cabo Verde, Angola) antes de retornar ao Brasil em 1980.

Editado por: Marcelo Ferreira

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