Bullying

Atentado no Canadá: especialista aponta negligência com saúde mental e apologia à violência como raiz de ataques em escolas

Após massacre no Canadá que deixou pelo menos 10 mortos, advogado avalia ainda controle de armas e regulação das redes

No audio source provided.
Tumbler Ridge, escola secundária na Colúmbia Britânica, no Canadá, foi palco de um ataque que acabou com pelo menos 10 vítimas
Tumbler Ridge, escola secundária na Colúmbia Britânica, no Canadá, foi palco de um ataque que acabou com pelo menos 10 vítimas | Crédito: Reprodução/Twitter/@theinformant_x

Uma mulher trans de 18 anos invadiu uma escola de ensino médio em Tumbler Ridge, pequena cidade no Oeste do Canadá, na terça-feira (10), matou sete pessoas e depois cometeu suicídio. Outros dois corpos foram encontrados em uma residência próxima, com indícios de ligação ao ataque. Vinte e cinco pessoas deram entrada em hospitais, duas em estado grave.

Para o advogado Ariel de Castro Alves, membro da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da OAB, o episódio carrega forte simbolismo. “Os agressores escolhem as escolas, que são os locais da vida, do desenvolvimento da criança. Isso tem um simbolismo muito forte”, afirmou ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.

O advogado lembrou que o Canadá endureceu o controle de armas a partir de 2016. Até então, o país era permissivo como os Estados Unidos. “Era muito fácil adquirir armas, um incentivo ao armamentismo como tivemos aqui no governo Bolsonaro”, comparou.

O especialista foi enfático ao tratar da negligência com a saúde mental infantojuvenil. “Não é mimimi, não é falta do que fazer. É uma política pública estrutural que o Brasil insiste em não implementar adequadamente”, criticou.

Há pelo menos cinco anos está em vigor a lei que determina a presença de psicólogos e assistentes sociais em todas as escolas brasileiras. Na prática, porém, estados e municípios contratam um profissional para atender dezenas de unidades, inviabilizando o acompanhamento. “É impossível ter um atendimento minimamente adequado nessa configuração”, disse.

Castro Alves destacou o papel das plataformas digitais na organização e na propagação da violência. “Esses ataques são combinados em redes sociais fora a incitação, ou apologia à violência que tivemos de forma escancarada no próprio governo Bolsonaro, com a narrativa de que o Brasil deveria virar um velho oeste. Isso influencia a juventude.”

O Brasil registrou 42 ataques em escolas nos últimos 20 anos, com 53 mortes e mais de 120 feridos. Um dos mais graves ocorreu em Suzano, em 2019. Apesar do cenário, o advogado reconhece avanços recentes. “O Ministério da Justiça, em parceria com a Polícia Federal e as polícias estaduais, têm se antecipado a vários ataques. Existem canais como o Disque 100 para denúncias, e isso tem salvado vidas.”

A suspeita no Canadá, segundo informações preliminares, era uma jovem transgênero de 18 anos. Ariel lembrou que o bullying e os crimes de ódio contra minorias são combustíveis recorrentes nesse tipo de tragédia. “Precisamos de educação em direitos humanos, educação para a cultura de paz e, sobretudo, de espaços de escuta dentro das escolas.”

Ele defendeu que, após um atentado, todos os estudantes — mesmo os ilesos — devem ser tratados como vítimas. “É necessário um período com atendimento psicológico e social, em conjunto com as famílias, para tratar o luto e o trauma. Só assim é possível retomar o desenvolvimento das atividades escolares.”

“A naturalização da violência só será enfrentada quando adultos e jovens poderem, juntos, compreender o horror e construir outra realidade”, conclui.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter