O Carnaval de rua de São Paulo, que a partir de 2012 se consolidou como uma das maiores festas populares do país, vive neste ano uma crise de organização e planejamento. Para o urbanista e vereador Nabil Bonduki (PT), a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) tem privilegiado os interesses comerciais em detrimento da cultura popular, com consequências graves para a segurança e a diversidade da festa.
Ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato, Bonduki analisou as cenas de caos vistas no pré-Carnaval, especialmente na Avenida Consolação, onde dois megablocos concentraram um número de pessoas muito acima da capacidade da via. “A prefeitura estimula uma ideia besta de que São Paulo pode ser o maior Carnaval do Brasil, mas não considera que as ruas têm capacidade limitada. Na Consolação não cabe nem 300 mil pessoas com segurança. E a prefeitura fala em 1,5 milhão”, criticou.
O vereador explicou que um cálculo mínimo de segurança considera seis pessoas por metro quadrado em toda a extensão da via. “Isso já é o caos. Qualquer Corpo de Bombeiros sabe fazer essa conta. A prefeitura não fez.”
Apesar das críticas, o vereador diz torcer para que a festa dê certo. “Não sou daqueles que torce contra. Espero que o Carnaval seja um sucesso cultural. Mas o que estamos vendo é uma falta de planejamento que pode levar a situações muito ruins.”
Ele cita o problema dos banheiros como exemplo. “Tem amigos que viajaram e deixaram suas ruas, que viraram banheiro público. Isso afeta a vida das pessoas. A prefeitura precisa aprender a lição.”
Bonduki alerta: “O Carnaval não pode ser apenas uma vitrine de marcas. Ele precisa ser uma festa da cidadania cultural, que respeite os blocos comunitários, a segurança e o direito de quem brinca e de quem não brinca.”
Blocos empresariais x blocos tradicionais
Para Bonduki, a atual gestão tem promovido um modelo de Carnaval centrado no lucro e na exposição de marcas. “A festa está sendo usada para divulgar produtos, especialmente bebidas alcoólicas. É deprimente ver o prefeito fazendo propaganda disso”, afirmou.
Ele destacou que, enquanto os grandes blocos contam com patrocínio privado, os blocos comunitários — que representam a “raiz cultural” do Carnaval — recebem menos apoio. A prefeitura destinou R$ 2,5 milhões para apoiar cerca de 100 blocos, quando a cidade tem aproximadamente 600. “Ela gasta três vezes mais com guias de turismo bilíngues do que com o apoio a esses blocos. É uma inversão completa do que deveria ser o Carnaval.”
O vereador também apontou o corte de R$ 12 milhões no orçamento da festa, que resultou na redução de banheiros químicos e na instalação de tapumes em áreas como a praça Roosevelt, posteriormente removidos após protestos. “É uma falta de planejamento improvisada. A prefeitura gasta com tapume, com guias de turismo, mas não com o essencial.”
O vereador criticou a postura do prefeito Ricardo Nunes, que ameaçou reprimir blocos que não se cadastraram no sistema oficial. “Não existe bloco ilegal. O Carnaval de rua nasce da espontaneidade, de um grupo de amigos que se junta. Não podemos criminalizar essas manifestações.”
Bonduki apresentou um habeas corpus preventivo para garantir que esses blocos possam desfilar sem repressão. Ele espera que a prefeitura acate a recomendação do Ministério Público nesse sentido. “A minha expectativa é que a gente tenha bom senso e não veja a polícia reprimindo a cultura popular.”
Mudanças climáticas e a cidade que não se adapta
Além do Carnaval, Bonduki falou sobre os recorrentes alagamentos e apagões que atingem São Paulo durante as chuvas de verão. Para ele, a prefeitura tem agido na contramão da adaptação climática.
“Existem alternativas, como pavimentos permeáveis, mas a prefeitura segue usando asfalto impermeável. Permite a derrubada de maciços arbóreas importantes, como no Bosque dos Salesianos, e estimula o uso do carro. É o oposto do que seria necessário”, afirmou.
Ele lembrou que desde 2009 há uma lei que previa a substituição dos ônibus a diesel por elétricos até 2018. “Nada foi feito. Agora, o prazo foi jogado para 2038. Temos 12 mil ônibus, apenas mil são elétricos, 8%, quando deveríamos estar perto de 50%. Estamos muito atrasados.”
Para o urbanista, o plano diretor de 2014 já determinava ações para evitar riscos de inundação, mas a prefeitura levou mais de dez anos para apresentar um plano. “A cidade não se prepara. As ações são insuficientes e, muitas vezes, contrárias ao que a ciência recomenda”, critica.
Para ouvir e assistir
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